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O olhar político de PJ Harvey

Texto e foto: JOÃO PASCOAL

A recente passagem da cantora por Lisboa, num ano marcado pela edição do álbum “The Hope Six Demolition Project”, fez-se numa noite negra e emocionalmente intensa a lembrar que o fantasma da guerra pode não ser coisa do passado.

Podemos pensar em The Hope Six Demolition Project, o último álbum da inglesa PJ Harvey, como uma colecção de canções de protesto. Se o processo de gravação do disco foi aberto ao público, com sessões diárias na Somerset House em Londres, a sua génese recua até às viagens que Harvey fez com o fotógrafo Seamus Murphy ao Kosovo, Afeganistão e a Washington, cidade cujo programa de revitalização de bairros problemáticos inspirou o título do álbum.

Na sua recente passagem por Lisboa trouxe consigo uma banda de nove músicos que em tudo acentuam o tom solene com que Harvey apresenta as suas novas canções. Trocam lugares e manipulam percussões, teclas e sopros com mestria, ampliando a tensão das canções ou contendo-a no momento certo. Polly Jean veste a noite de preto, troca a guitarra pelo saxofone segurando-o de forma dramática como se este fosse a sua arma de eleição. A luz de palco é negra, fúnebre até, desenhando a silhueta da banda onde se destacam músicos lendários como John Parish ou o ex-Bad Seeds Mick Harvey. Há um grande cuidado cénico na forma como a música é entregue ao público, num minimalismo teatral apurado (a produção do espectáculo foi supervisionada pelo encenador Ian Rickson, ex-director do Royal Court Theatre).

Durante as cerca de duas horas de duração do concerto foram escassos os momentos em que Harvey falou com o público. Não é essa a ideia. São as canções que confrontam a audiência e levantam questões. Fazem pensar, emocionam. Se anteriormente escreveu sobre inquietações interiores agora escreve sobre o mundo que a rodeia e é essa preocupação com o que vê que devolve ao público do Coliseu dos Recreios. Há um jogo pela via musical, um diálogo, muitas vezes acentuado pelo coro de músicos que sublinha a urgência das palavras que PJ Harvey imprime nas suas canções. Talvez por isso o alinhamento do concerto tenha sido baseado substancialmente no último álbum, com temas como The Ministry of Defense, The Wheel, A Line in the Sand ou o sublime Dollar Dollar a marcarem o teor politizado do espectáculo. Houve espaço para pontuais regressos ao passado com o assombroso The Devil, a libertação em 50 Ft Queenie (do álbum Rid of Me) ou o eterno Down By the Water. Para o final reserva-nos River Anacostia trazendo todos os músicos à frente do palco para em uníssono cantarem o verso “God’s gonna trouble the water”, o ponto final perfeito para um espectáculo memorável. O tremor de terra que o público do Coliseu dos Recreios fez ecoar pela sala mereceu o regresso ao palco, um pequeno extra numa noite negra e emocionalmente intensa a lembrar que o fantasma da guerra pode não ser coisa do passado.

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