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Os filmes do Leffest 2016 (2)

Estamos a acompanhar a edição deste ano do Lisbon & Estoril Film Festival. Por aqui vamos falar de alguns dos filmes que fomos vendo tanto nas secções dedicadas às novidades como entre as retrospetivas propostas pela programação.

“Syngué Sabour – Pierre de Patience” (2012)
de Atiq Rahimi

Depois dos documentários e de uma estreia na ficção em Terre et Cendres (2004), em 2012 o escritor e realizador de origem afegã Atiq Rahimi, adaptou ao grande ecrã um romance seu, tomando desta vez como ponto de partida Pedra de Paciência, livro que lhe valera o Prémio Goncourt em 2008. O filme, tal como o romance está, apesar de uma certa dimensão poética, alicerçado na realidade de um tempo recente em que o Afeganistão viva mergulhado sob conflitos armados. Aqui acompanhamos a história de uma mulher que, aos 17 anos, casara com um herói jiadista (ausente na cerimónia, ali representado na forma de uma fotografia). Acamado, inerte, vítima de uma bala que se alojara na sua nuca, ele torna-se agora a “pedra de paciência” que a “escuta”, sem resposta possível, enquanto ela o trata e lhe relata a sua vida de mulher jovem, entretanto feita mãe de duas filhas. Ele está ferido mas é ela quem sofre. E agora que pela primeira vez ele a pode “ouvir”, é ela quem mergulha num progressivo rol de confissões que verbalizam naquela casa, sob bombardeamento e assaltos, verdades de uma vida íntima que, de outra forma, não venceriam nunca o silêncio. Atiq Rahimi junta aqui uma peça a uma reconstrução não só do cinema mas da própria identidade afegã.

“Deep End – Adolescente Perversa”
de Jerzy Skolimovsky

Como foi possível que um filme como este, obra maior no cinema de um dos cineastas em evidência na edição deste ano do Leffest, tivesse andado “perdido” anos a fio? Mas a verdade é que assim foi, por questões essencialmente ligadas a direitos, mantendo-se depois de 1970 num quase silêncio até que uma obra de restauro recente o devolveu a todos nós há cinco anos, conhecendo então (magnífica) edição em Blu-ray e DVD pelo BFI. Datado de 1970, essencialmente rodado na Alemanha (os interiores) e com algumas sequências de exterior filmadas na capital inglesa, Deep End é um filme “londrino” por excelência, mergulhando em figuras que traduzem, por um lado, códigos de desejo reprimidos, toldados por um clima moral ainda opressivo e, por outro, sinais de clara libertação. A narrativa é centrada num par que trabalha nuns decrépitos banhos públicos, ela tornando-se progressivamente numa obsessão para ele. Além da narrativa e do contexto social que lhe serve de palco, o filme de Slokimovsky tem dois valores maiores ainda a juntar ao todo. Um deles é uma (belíssima) banda sonora onde escutamos Cat Stevens e os Can. O outro – e foi elogiado por muita gente, entre os quais David Lynch – é uma direção de fotografia absolutamente maravilhosa, que faz deste um daqueles filmes que justificam em pleno a utilização da cor. Um dos momentos altos da programação do festival. – N.G.

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