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Alex Cameron + Surma: crónica de uma noite de outono

Texto: IVAN COELHO

A passagem de Alex Cameron pela ZBD inscreveu um um momento especial nas memórias das noites do outono lisboeta de 2016, num serão em que pelo mesmo palco passou também Surma, o projecto one-woman-band de Débora Umbelino.

Diga-se o que se disser, há um quase-facto que é coisa certa: o Outono tem sempre o seu quê de desolador. São as folhas que caem, cansadas da vida ou arrancadas pelo vento antes do seu tempo. É o cinzento que começa a invadir os nossos dias disparando, lá de longe, pequenas cargas de água, que se vão tornando maiores e mais demolidoras à medida que o seu exército avança, deixando para trás milhares de guarda-chuvas caídos em combate e um sem número de poças que mais parecem pequenos lagos de tubarões que devemos, para bem da saúde dos nossos pés em ténis, evitar a qualquer custo. Mas sentimos sempre que, de alguma forma, acabamos sempre por falhar esse objectivo.

É mais ou menos neste mood que se alcança a ZDB, naquela 6ª feira de Outono – de fonte oficial, a primeira noite verdadeiramente agreste da estação. Aquele misto de sentimento de missão cumprida por ali termos conseguido chegar de forma quase heróica, mas simultaneamente de desconforto pelas feridas contraídas na batalha com a intempérie (vulgo pés encharcados). Nada que uma cerveja e um cigarro saboreados no pátio não concertem. Apesar do falhanço que ficará connosco o resto da noite, um sentimento permanece: it’s just water.

Por estrada paralela (e bem mais longa), chegaram a Lisboa Alex Cameron e Roy Malloy, mestres do fracasso e semideuses da internet chunga – pode não parecer, mas o último adjetivo empregue é um elogio sincero. Na bagagem trazem o seu álbum de estreia Jumping the Shark, disponibilizado pelos próprios no seu maravilhoso retro-site no remoto ano de 2013, editado pela Siberian Records na sua Austrália natal em 2014 e reeditado no último verão pela Secretly Canadian. Se pensarmos que, à data da sua primeira edição independente, o Benfica ainda não tinha conseguido nem um dos campeonatos que compõem o honroso título de tricampeão que hoje ostenta (#rumoaotetra), podemos imaginar quão penoso e frustrante foi alimentar criança e fazê-la aos Estados Unidos. Assim seria, não fosse Alex Cameron um total loser consciente das suas infinitas limitações.

Numa entrevista-paródia (como a maioria das que concede), Cameron confessava sem pudores, que se sentiu confuso ao ficar sozinho no chat do MSN quando, subitamente, todos os seus amigos desertaram para o MySpace, onde Cameron nunca esteve. “Ia ao MySpace deles e via o seu pequeno fragmento de internet a crescer lentamente. Eu não entendi aquilo. Vês onde quero chegar? Sou um tipo lento. Vejo as coisas em slow motion. O que significa que sou influenciado pelas coisas de forma lenta. Por isso, arranjei esta papa de influências esquisita. Não costumo ver alguém fazer algo e querer imediatamente fazê-lo também. Pego em pequenas coisas de diversas fontes ao longo do tempo e termino num lugar diferente, de preferência sozinho”. Este trecho deixa algumas pistas para perceber quem é, de facto, este tipo.

Cameron foi membro dos Seekae, um trio que alcançou algum sucesso na cena electrónica de Sydney. No entanto, a banda não lhe permitiu ter uma voz própria, que sentisse como sua e que pudesse utilizar, sem filtro, nas suas composições. É então que decide lançar o seu projecto a solo, em colaboração estreita com Roy Malloy, seu amigo de longa data e business partner (como sempre se refere a ele). Com anos de IDM e electro na bagagem, colocou-os no seu caldeirão já carregado de influências e reinventou-se enquanto artista pop.

Alex Cameron é um exímio contador de estórias e criador de personagens peculiares, underdogs inspirados na sua própria existência, pintada a fracasso e humilhação. Num tempo em que a sociedade, na sua generalidade, vive obcecada com a ideia de sucesso, é refrescante ter alguém que aborda as coisas da perspetiva oposta. “Pego em personagens que normalmente não têm voz na música popular e humanizo-os em canções. É uma confissão de todas as emoções negativas que nos ensinam a afastar ou negligenciar. Estas emoções, personagens e pessoas são empurradas para o fundo da nossa lista de prioridades porque queremos simplesmente esquecer que existem”. E se, entre 2013 e o verão de 2016 teve de penar para conseguir ver o seu primeiro álbum ter alguma projeção internacional, a Internet e a consequente edição pela Secretly Canadian possibilitou-lhe andar na estrada com nomes como os Future Islands (com quem partilha afinidade), Thee Oh Sees, Angel Olsen, Kevin Morby ou Mac DeMarco (o qual tem vindo a promover Jumping the Shark de uma forma suis generis).

Jumping the Shark, como o próprio nome sugere, tem por desígnio trazer para cima do palco todo este universo de losers silenciados e revesti-los de sensualidade (aos olhos dos outros), esperança (aos olhos dos próprios) e humor (aos olhos de todos). Trata-se de um disco noturno e sombrio, cru na forma e contagiante no conteúdo. Um disco onde os sintetizadores em loop – dispostos progressiva e lentamente em camadas – e os beats metronómicos estendem uma verdadeira passadeira vermelha para o desfile de modelos improváveis – desde tipos que perdem o emprego em Hong-Kong e que voltam para casa dos pais, executivos que não conseguem pagar a conta do bar por falta de plafond no cartão de crédito, ou apresentadores de TV caídos em desgraça. No fundo, um disco que criaria afinidade imediata em Fábio Paim ou José Figueiras. Assim como na esmagadora maioria de nós.

Mas voltemos à Galeria Zé dos Bois. Já ligeiramente aconchegados pela cerveja fresca – essencial para restabelecer algum equilíbrio térmico entre os pés afogados e o resto do corpo – e ainda a saborear um último cigarro no pátio, dá-se início à atuação de SURMA, o projecto one-woman-band de Débora Umbelino. Munida de uma guitarra, de um baixo, de um conjunto de pedais e de uma loop station, a leiriense apresentou o seu (ainda) escasso reportório de forma praticamente irrepreensível, compensando a timidez natural com um pleno domínio da sua música em palco e uma graciosa simpatia – uma daquelas auras que cativam à primeira vista. Com a grande maioria dos temas assentes numa matriz post rock com afinidades electrónicas, foram cerca de 40 minutos de belo efeito, num jogo de gravações e sobreposições constante, onde os beats e o baixo (tocado alternadamente com a guitarra) se encarregaram de nos embalar o corpo enquanto a doçura da voz, as melodias de guitarra, ora doces ora um pouco mais agrestes, e as distorções criadas nos guiavam o espírito hipnotizado em direção a outras paragens – a fazer, aqui e ali, lembrar os The XX na sua fase mais embrionária/experimental. Destaque para Masaai, calorosamente celebrada pelos presentes. Um saboroso aperitivo para o que viria a seguir e a clara sensação de estarmos perante um projeto a merecer a nossa atenção em tempos próximos.

Terminada a atuação de SURMA, e após uma curta pausa, era então chegada a hora de confirmar todas as expectativas. Com o palco praticamente despido – avistando-se apenas um microfone de pé, um saxofone e, voilà, uma loop station – entram em palco Alex Cameron e Roy Malloy, dois personagens que aparentam ter sido retirados de filmes totalmente diferentes. Cameron, figura alta e esguia, de longo cabelo loiro puxado atrás, fato cromado e T-shirt branca, faz lembrar um David Bowie se alguma vez tivesse sido chamado a substituir Manuel Luis Goucha no programa da manhã. Roy, por seu turno, poderia facilmente integrar o elenco de Fargo na pele de anti-herói: figura simpática, de rosto anafado e um delicioso mullet (saudades, MacGyver), que seria alvo de chacota num dos muitos interlúdios do espetáculo.

O show arranca com a soturna Mongrel, sétimo tema do disco – e o único que não é escrito na primeira pessoa – onde se denota, desde logo, a clara influência dos Suicide (sobretudo no segundo álbum, de 1980) na forma como joga uma linha lenta de synth/baixo na condução da canção, que nos agarra de imediato os ombros e os faz balançar de forma mecânica e industrial, acompanhados pelo bate-pé da praxe. A voz de barítono de Cameron entra, grave e sem vergonha de assumir o protagonismo da canção, derramando “drops of blood in a green grass vial”. Há nele muito de Nick Cave: a forma como coloca a voz e nos mantém os ouvidos quase colados ao chão, e deixa o seu corpo servir como espaço aumentado da canção. A punchline final, atirada já na fase descendente do trecho mais luminoso, amplificado pelo saxofone de Roy – “death is the pulse in your eye on your very last breath” – assentaria que nem uma luva a Cave, nesta sua fase mais sombria.

Após apresentar o seu “bom amigo e parceiro de negócios” Roy, Cameron partilha uma discussão antiga entre os dois – o que levariam para um bunker quando chegasse o Dia do Julgamento Final – em que o próprio admite preferir gastar todas as suas fichas em conservas ao passo que Roy apostaria em levar consigo todos-os-antibióticos-e-mais-alguns (com um sorriso que parecia dizer “whatever you want mate” por parte deste). Happy Ending, servida ainda no calor da conversa, transporta o concerto para outro patamar: o das estórias que queremos ouvir. Depois de Cameron carregar no play, nada mais seria como até então. Batida kraut, sintetizadores espaçados e orelhudos, aquela deixa: “I lost my job in Hong Kong trading against the pound”. Aberto oficialmente o freakshow. Dançando como se atravessasse bêbado um campo de minas ao som de Elvis, Cameron alterna entre um invejável jogo de cintura e passos à Travolta em pleno Jack Rabbit Slim’s. Assistindo paciente e impávido ao show do seu parceiro, o saxofone de Roy entra em cena para incendiar a canção, substituindo as camadas adicionais de sintetizadores escutados em disco, conferindo-lhe uma uma aura mais solarenga – um pouco à semelhança do tom que Dan Bejar introduziu em Kaputt – enquanto se continuam a escutar pérolas como: “I’m on a fair enough pension, I’m still the king of this town. There’s nothing wrong with a Pajero”. Prossegue a desolação dum tipo que procura, a todo o custo, o seu final feliz na Chinatown da sua própria cidade, depois de ter fracassado em Hong Kong. Na plateia, corpos ondulantes, sorrisos no rosto. Tudo deliciosamente hilariante. Perfeito, arriscamos dizer.

Primeira grande ovação da noite numa ZDB muito bem composta. Os holofotes viram-se para Roy, para o seu mullet e para a sua barba trendy – “I love to share the stage everynight with Roy because he looks so damn good. Beautiful hair. Look at this. He got that in Tallahassee, in Florida. Beautiful hair. I love his eyes also.”. Risos, aplausos e contextualização perfeita para Real Bad Lookin, paródia quase circense sobre homens de negócios com egos inchados mas que no fundo não passam, pasme-se, de completos falhados – “You’re talking to the goddamn dumbest, richest guy at the bar”. O tipo de música que Ariel Pink poderia perfeitamente ter escrito há uns anos atrás.

Depois de ter informado os presentes que poderiam adquirir o disco à saída, quando tudo o que tinha disponível eram quatro cassetes (que rei!), era tempo de The Comeback, uma das músicas mais infecciosas de 2016 e primeiro single do disco. A canção parte duma estória simples: um apresentador de TV relegado pelo showbiz para plano terciário e que, tudo o que pretende na vida, é recuperar o seu programa. Nela há de tudo: há a luta e esperança de Springsteen , na fase Born in the USA, sem a capa de working-class-hero; há o escárnio de Momus e o detalhe de Kozelek (“Ahmed, my lawyer, he said you can’t do this. Ahmed wears a suit and tie, come on, Ahmed’s legit”). Há tragédia, há comédia. Em suma, há uma enorme canção pop à espera de ser descoberta, para então poder sair dum clube manhoso vazio e vir para as luzes da ribalta fazer as delícias do mundo.

O negrume de She’s Mine soa a uma hipotética colaboração entre John Maus e os Neu!. Beat punk, baixo vibrante, sintetizadores bamboleantes e, mais à frente, um riff (suavizado pelo saxofone) que nos corta pelos pés – “In the wind, in the rain, it’s just water. Taste it.”. A esta altura da noite, já nos tínhamos esquecido do desconforto nos pés. E percebemos que de facto, é apenas água . Saboreamo-la de bom grado, dançando. Em The Internet, Cameron trova sobre a solidão em busca de uma nova vida online. Sintetizadores lentos e circulares, dispostos por camadas, até surgirem drones a sobrevoarem o espaço aéreo da canção. Tempo de introspeção: olhos fechados, movimentos em câmara lenta, braços abertos. Pesquisar “como sobreviver num mundo cão” e ter zero resultados no Google. Para quê procurar respostas às perguntas que não vale a pena colocar?

Após uma deliciosa estória sobre a sua infância, em que a sua irmã se chegou à frente para decapitar um coelho doente (pelo qual Cameron tinha muita estima), entra em cena Take Care of Business, tremendo tema em constante crescendo, de um simples beat até à apoteose final. Uma marcha tubular de órgãos fúnebres salpicada por uma toada jazzística dada pelo saxofone de Roy. A coragem esvai-se. As pedras da calçada choram, os lobos uivam, dá-se uma avalanche no coração – “I ain’t half the man I wanted to be”. Catarse absoluta. Choramos por dentro, porque no nosso íntimo, sabemos que somos todos uma merda e que será sempre assim. Os órgãos caem. As colunas calam-se. Monstruosa ovação. Nick Cave cora de vergonha – poderia ser ele o causador de tudo isto, mas não é. É só um Zé Ninguém que anda à procura do seu sítio no mundo, juntamente com o seu Sancho Pança, e que tem o poder de fazer canções maiores do que a alma de quem as escuta. De um falhado para outros falhados.

Sob uma enorme chuva de aplausos, Alex e Roy saem de cena para voltarem dali a nada para o encore, para gáudio geral. E quando se pensava que tocariam Gone South (segunda faixa do disco e a única que até ao momento não constava do alinhamento) eis que se lançam para uma versão de Tie A Yellow Ribbon Round The Ole Oak Tree, original de 1973 interpretado por Tony Orlando & Dawn, com Cameron praticamente em versão karaoke, terminando assim o concerto num clima goofy e de festa comum.

No final da noite, ficamos com a sensação de que testemunhámos um momento especial, seja de que maneira for. Apesar de não ter sido perfeito (como o próprio disco não o é) foi uma excelente hora de entretenimento. Um alinhamento sólido de boas canções e longos minutos de estórias e conversa, onde deu para tudo: dançar, sorrir, sofrer, aprender um pouco de português (“Muito caro. Não, obrigado.”), elogiar a hospitalidade da malta da ZDB (nunca é demais louvar-lhes o magnífico trabalho nestas lides, ainda que seja verdade que fica tudo mais fácil com riders deste gabarito) e fazer pouco do pobre Roy. Para que possa almejar outros voos, será necessário, porventura, que Alex Cameron consiga fazer crescer a sua música e dotá-la de maior corpo ao vivo (substituir a loop station por músicos). Porque é, sem sombra de dúvida, um excelente performer, um barítono bastante competente e um óptimo escritor de canções. Fica a certeza de que, aconteça o que acontecer, o vimos ao vivo neste tempo, em que tudo isto faz sentido. Naquele dia outonal em que chegámos para celebrar o fracasso em todo o seu esplendor e encontrámos redenção nos nossos pés encharcados. Por isto, 2016 é também seu.

Já de volta ao pátio, restabelecidos das emoções da hora anterior e de cerveja na mão, conseguimos falar com o encantador Roy Malloy, que nos falou um pouco as peripécias da tour e que nos deu conta, em primeira mão, que têm um segundo álbum pronto a sair – mais ambicioso e coeso -, após fazerem render o peixe, isto é, este Jumping the Shark. “It will blow your mind”, disse-nos ele no seu tom bonacheirão. Nada receemos então, amigos.

Nota: soubemos que, poucos dias após o concerto em Lisboa, roubaram o saxofone do Roy em Amesterdão (que o acompanhou toda a vida e que teria um incalculável valor sentimental). Aproveitando um pequeno intervalo antes do próximo concerto, lançaram uma campanha de crowdfunding na sua página de Facebook e conseguiram, felizmente, angariar fundos para comprar um novo saxofone. Cair para renascer, como uma fénix. Keep jumping the shark, folks.

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