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Texto: NUNO GALOPIM

“Primeiro Encontro”, o novo filme de Denis Villeneuve, coloca-nos perante a chegada de um conjunto de naves alienígenas numa trama que começa por acompanhar as tentativas de comunicação com “eles” mas que nota também como é entre “nós” que falta a real capacidade em saber falar…

Apesar de hoje dominado pela exploração de um filão feito de lixo baseado na exploração do poderio dos efeitos visuais (com filmes frequentemente criados em regime de dieta na hora de pensar a escrita dos argumentos) o cinema de ficção científica não deixou contudo de nos colocar ocasionalmente perante propostas narrativas, temáticas ou até visualmente mais desafiantes, algumas das melhores curiosamente cruzando caminhos com modos de pensar a histórias, os tempos, os lugares e as personagens mais próximos do que vai acontecendo na (boa) literatura do género (sim, que também aqui há filões de lixo). Podendo não arreganhar os dentes às bilheteiras desses outros verdadeiros monumentos ao vazio de encher o olho, mas que daqui a uns anos serão sucata digital esquecida, há filmes que ora lançam ideias, ora recuperam formas mais clássicas, alguns deles gerando pequenos fenómenos que, como tantos no passado, começam mais discretos mas podem acabar transformados em fenómenos de culto, ganhar fôlego, novas dimensões… E, depois, nem o céu será ali um limite.

Primeiro Encontro (título português para The Arrival) pode ser um caso a juntar a este grupo decididamente mais interessante. Se por um lado o trabalho de marketing está a assegurar o despertar das curiosidades (e ter nomes como os de Amy Adams, Forest Whitaker ou Jeremy Renner aduba o potencial sedutor dos cartazes e dos trailers), por outro o filme tem em si todos os argumentos para despertar o interesse no cinéfilo e no apreciador de ficção científica que não se contenta com variações para grande ecrã das lógicas do universo dos jogos vídeo.

Estamos num terreno narrativo que está longe de ser novo. Um conjunto de naves chega à Terra e nós, apesar das vermos e monitorizarmos, não entendemos quem são, de onde chegam nem o que aqui estão para fazer. Aquela velha imagem de estarmos colocados perante duas portas, das quais uma se abrirá, coloca-se logo como cenário que deixa inicialmente o mundo, assim como o espectador, em suspense: são pacíficos (porta um) ou são invasores (porta dois)? Sem estragar aqui o momento da abertura de portas (imagem deste texto, pelo que as não procurem no filme, OK?), o que é mais importante no desenvolvimento narrativo deste filme – baseado no conto Story of Your Life (1998) de Ted Chiang – é acima de tudo a procura de formas para comunicar com os alienígenas e, depois, a constatação de que, mesmo sendo geneticamente iguais, há valores políticos que nos dividem como espécie, que aqui se manifestam pelo modo como, depois de uma concentração inicial de esforços para compreender a “chegada”, os países em cujos territórios há naves suspensas sobre o solo ou mares começam a fazer silêncio entre si, cada qual resolvendo agir às escondidas, não faltando quem avance para um jogo na linha “dispara primeiro, pergunta depois”… Isto sem deixar de retratar a forma como os media “ajudam” a semear e disseminar a ansiedade, não faltando quem use alguns meios para um discurso que toma o ódio e o incitar da violência surda como primeira expressão de qualquer medo perante o estranho, o desconhecido, o diferente. Atitudes que nem precisavam de alienígenas para justificar um filme…

Dennis Villeneuve aposta aqui na exploração do choque de culturas como tutano central da narrativa. A que faz uma linguista ser chamada pelas forças de defesa americanas para tentar descodificar a comunicação encetada entre os militares e os sons emitidos pelos alienígenas (que, tal como no conto, são heptópodes). E a que mostra como os humanos talvez tenham ainda mais dificuldade em comunicar entre si, apesar de não precisarem de linguistas que os ajudem a saber o que dizem.

Há, depois, um plano mais pessoal (e mais humano) da história através do qual a personagem interpretada por Amy Adams reflete sobre a sua identidade, explorando valores de amor e de perda, piscando uma destas sequências o olho a Terrence Malick.

Sobre a música – que também é uma ferramenta de comunicação – vale a pena sublinhar aqui o trabalho notável do islandês Johann Johánsson, que depois de Raptadas e Sicário, cimenta aqui um relacionamento com Denis Villeneuve que em breve terá continuidade em Blade Runner 2049. Ciente do papel que Spielberg deu à música no contexto da necessidade de estabelecer um primeiro contacto com visitantes em Encontros Imediatos de Terceiro Grau, Johánsson cria uma banda sonora que sabe juntar elementos musicais como valor sublinhado dos instantes em que as trocas acontecem. Mas com um valor de estranheza alienígena que valoriza o impacte com o que nos é estranho que um encontro destes sugere.

Tal como em filmes recentes como Moon – O Outro Lado da Lua, de Duncan Jones, Debaixo da Pele de Jonathan Glazer ou o mais recente Evolução de Lucille Hadzihalilovic, Primeiro Encontro troca o aparato operático dos grandes efeitos digitais por um cuidado diferente com a imagem. A forma das naves e a sua relação com as paisagens envolventes, a câmara onde a comunicação acontece entre humanos e alienígenas, a casa (maravilhosa) da protagonista – junto às margens de um lago – e a profusão de ecrãs nos centros de monitorização são apenas alguns exemplos de um cuidado visual que procura, mais do que sovar o espectador com malabarismos, servir de cenário a uma história inteligente, bem vitaminada em questões sobre o relacionamento com o outro. No fundo, e como o faz a boa ficção científica, estamos afinal a falar (sempre) sobre nós mesmos.

“O Primeiro Encontro”
Realização: Denis Villeneuve
Com : Amy Adams, Forest Whitaker e Jeremy Renner
Distribuição: Big Picture

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