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California dream

Texto: NUNO CARVALHO

“Califórnia”, de Marina Person, sobre uma adolescente a tornar-se mulher em São Paulo nos anos 80, tem um lado de cinema quase artesanal e deliberadamente frágil. Um cinema de valores honestos e verdadeiros e não tanto de exímias sofisticações técnicas.

Realizadora, atriz e apresentadora, Marina Person, de 47 anos, tem em Califórnia a sua primeira longa-metragem de ficção. Person trabalhou durante 18 anos na MTV Brasil e em 2011 mudou-se para a TV Cultura, tendo em 2007 realizado o documentário Person, sobre o seu pai, o também cineasta Luís Sérgio Person. Admiradora de Sofia Coppola, Chantal Akerman, Agnès Varda, Kathryn Bigelow ou Nora Ephron, Marina Person foi buscar inspiração à sua própria adolescência para fazer este coming-of-age sobre o crescimento de uma rapariga em São Paulo nos anos 80.

Califórnia acompanha uma parte da adolescência de Estela (Clara Gallo), desde o momento da primeira menstruação até à sua primeira experiência sexual. Como ponto de fuga e refúgio para as atribulações típicas desta fase, Estela sonha com uma viagem até à Califórnia para visitar o seu tio Carlos (Caio Blat), um jornalista musical que ela admira e adora. Mas, entre as suas dúvidas amorosas, ela vai tomar contacto com a face mais dura e chocante da vida quando o plano da viagem é suspenso e o seu tio regressa ao Brasil para recuperar de uma doença inicialmente não especificada. Entretanto, enquanto vive uma paixoneta lúdica pelo rapaz popular da escola, começa a sentir-se atraída por JM (Caio Horowicz), o novo aluno da turma, um rapaz taciturno mas com estilo que ouve The Cure (Estela prefere David Bowie) e lhe recomenda O Estrangeiro, de Albert Camus.

Califórnia tem um lado de cinema quase artesanal e deliberadamente frágil – por isso, não se espere aqui uma “solidez de valores de produção”, porque não é esse o ADN do cinema de Person. Este é um cinema de valores honestos e verdadeiros e não tanto de exímias sofisticações técnicas (que tantas vezes soam postiças). Se queremos apontar-lhe um defeito de forma justa e séria, então diríamos que o aspeto menos bem conseguido de Califórnia talvez seja o facto de o triângulo amoroso ter demasiado protagonismo em detrimento da atenção à personagem do tio (explorando até mais profundamente uma época em que ainda se falava e conhecia pouco sobre o VIH), cuja relação com Estela poderia ter sido mais desenvolvida. De resto, é um filme que tem a grande vantagem de ser simplesmente aquilo que é, ou seja, não se põe em bicos de pés com a pretensão de parecer mais do que aquilo que realmente é.

“Califórnia”
de Marina Person
com Clara Gallo, Caio Blat, Caio Horowicz, Giovanni Gallo
★★★

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