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Leonard Cohen (1934-2016)

Texto: NUNO GALOPIM

Morreu aos 82 um dos maiores poetas da história da música. Deixa uma obra de profunda dimensão literária que cruza os livros e os discos com que deu voz àquele que, quando se afastou para viver num mosteiro budista, era então conhecido como “o silencioso”.

Em julho, por ocasião do funeral da norueguesa Marianne Ihlen, com quem partilhara a intimidade em temporadas vividas na ilha de Hydra, na Grécia, nos anos 60, Leonard Cohen escreveu-lhe uma carta que então foi ali lida e na qual sugeria que, em breve, a ela se juntaria, acrescentando que estava tão perto que, se ela esticasse a mão, poderia tocar na sua. Nota pública de despedida anunciada? O certo é que, se a estas palavras juntarmos o tom sereno com que falou da morte na recente longa entrevista à New Yorker e notarmos o tom ainda mais sombrio do que o registado nos dois álbuns imediatamente anteriores, das canções de You Want It Darker (onde canta “I’m ready my Lord”), o quadro parecia claro. Sim, Leonard Cohen estava a despedir-se. E no passado dia 7 partiu. Tinha 82 anos. Mas só hoje se soube a notícia.

Nascido numa zona do Quebec (Canadá) onde o inglês era predominante, filho de uma família de classe média judaica com ascendência polaca, deu primeiros passos na música ainda adolescente, integrando uma banda folk, os Bucksin Boys, tendo um contacto posterior com um guitarrista de flamenco desviado as suas atenções para a guitarra clássica. As primeiras saídas à noite fizeram-no um observador atento de vidas diferentes da sua. Uma passagem pelo bairro de Little Portugal, de gentes menos abastadas, continuou esse processo de atenta auscultação das vidas dos outros. E ia escrevendo. Ainda antes de completar os 20 anos já tinha publicado primeiros poemas em revistas literárias, complementando a formação que as aulas lhe davam com leituras de Yeats, Whitman, Miller ou Lorca, este último uma referência maior (tanto que daria mais tarde o nome do poeta catalão a uma filha).

Quando resolve voltar a dar atenção à sua música é já um autor com diversos livros publicados e alguns elogios colhidos entre a crítica, um deles tendo-o apontado como o melhor dos mais jovens poetas canadianos que então escreviam em língua inglesa. Depois de uma estreia em 1956 com Let Let Us Compare Mythologies, seguiram-se mais livros de poesia e, depois o romance, que revela outra dimensão das suas narrativas em The Favourite Game (1963) e Beatutiful Losers (1966), o primeiro dos quais definido sob ecos quase autobiográficos, falando de alguém que descobre a sua verdadeira identidade através da escrita. E foi a escrita – a dos livros e a das canções – que lhe valeu em 2011 a importante atribuição do Prémio Principe das Astúrias de Letras, cinco anos antes do Nobel da Literatura ter distinguido a obra Bob Dylan, sobre quem Cohen pronunciou a mais bela das declarações sobre a justiça do sucedido – que dividiu tanta gente – ao dizer que premiar Dylan com o Nobel era como dar o prémio da montanha mais alta ao Evereste.

Ao mudar-se para os EUA na segunda metade dos anos 60 parte com a escrita de canções como motivação para uma nova demanda. A cantora folk Judy Collins grava Suzanne em 1966, numa altura em que o ainda relativamente conhecido Cohen enquanto músico cruza palcos de festivais. Até que cativa a atenção do mesmo editor discográfico que tinha, anos antes, levado Bob Dylan para a Columbia Records. E é precisamente ali que Cohen inicia, em 1967, o percurso que o levaria ainda mais longe do que os livros.

Songs Of Leonard Cohen (1967) coloca logo em cena uma voz, um quadro temático, uma forma de relacionar as palavras com a música. E mesmo tendo a obra de Cohen conhecido flirts com outras sonoridades, que tanto passam por periferias do jazz como pelas eletrónicas, sem esquecer aquele episódio menos canónico de 1977 ao lado de Phil Spector em Death of Ladies’ Man, disco controverso do qual se diz que o produtor nele trabalhou quase barricado, pondo-se em bicos dos pés para que a sua marca de presença se sobrepusesse à do autor e intérprete das canções, logo ali ficava definido um paradigma que seria transversal a tudo o que depois faria.

O álbum de 1967 inicia um primeiro ciclo que tem continuidade direta em Songs From a Room (1969) e Songs of Love and Hate (1971), iniciando depois New Skin For The Old Cerimony (1974) uma etapa de busca de soluções instrumentais para além do relativo minimalismo dos três primeiros discos. Em 1977 o álbum gravado com Phil Spector projeta momentaneamente as canções para lá das fronteiras habituais da identidade estética da obra de Cohen até então, cabendo a Recent Songs (1979) um recentrar das ideias, num disco que antecede o par de álbuns que, nos anos 80, transporta a música para outras cenografias através de uma presença bem evidente dos sintetizadores. Various Positions (1984) e I’m Your Man (1988) cativam uma nova geração de admiradores e renovam o fulgor criativo de Cohen que tem em The Future (1992) um episódio que solidifica esse relacionamento com novos públicos numa etapa em que o cinema abre também portas de (re)descoberta sobre a sua música, com caso notável na banda sonora de Assassinos Natos, de Oliver Stone.

Ao período de vida que passou em retiro num mosteiro budista – durante o qual foi estranhamente conhecido como “o silencioso” – seguiu-se um novo período de atividade, tanto na escrita de poesia como na gravação de discos, aqui mostrando os álbuns Ten New Songs (2001) e Dear Heather (2004) a presença de novas colaborações e afinidades, ganhando aqui um peso maior nomes como os de Sharon Robinson ou Anjani Thomas. É depois destes dois discos que um novo livro de poemas seu – The Book of Longing – cativa a atenção de Philip Glass que dele faz nascer um ciclo de canções que começa por ter vida no palco e depois é editado em disco em 2007.

Seria natural esperar-se por aí um ponto final. E um suave afastamento… Mas o “caso” do desvio de dinheiros que deu que falar (e que afinal recuava a meados dos noventas) obrigou-o a arregaçar as mangas. E nasceram álbuns novos de viço renovado tanto na escrita como na composição e arranjos, todos eles com Patrick Leonard, um veterano que muitos até aqui conheciam pelo trabalho com Madonna nos anos 80, na produção. Primeiro chegou Old Ideas (2012), depois Personal Problems (2014). E, agora, esta nota de despedida que encontramos em You Want It Darker. Com estes discos chegou também uma agenda de palcos. Foi intensa, e permitiu-nos vários reencontros com ele. Mas agora, tal como fazia quando saía de cena, voltou a tirar o chapéu, acenando para se despedir. So long, Leonard.

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