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Encontros imediatos para compositor e orquestra

Texto: NUNO GALOPIM

Jóhann Jóhannsson assinala a sua estreia na Deutsche Grammophon com dois discos. Um deles revela a espantosa música que criou para ‘The Arrival’, de Denis Villeneuve. O outro, apesar de não ter nada a ver com o cinema, parece uma banda sonora em piloto automático.

A chegada de um compositor ao catálogo de uma etiqueta como a Deutsche Grammophon carrega todo um conjunto de significados, entre os quais passa uma leitura natural do alcançar de um certo patamar de notoriedade. Para o islandês Jóhánn Jóhannsson, que há muito não vive no seu país, mas não esquece a importância que certas vivências ali passadas tiveram na sua formação como indivíduo e músico, este reconhecimento não cai do céu. Estamos perante alguém que, aos 47 anos, tem uma obra já extensa tanto na criação de música para discos (com marcante passagem pelo catálogo da 4AD Records) como para o cinema (onde tem obra assinalada desde a viragem do século). É por isso interessante ver como o momento da chegada a uma “casa” maior como o é a Deutsche Grammophon, o faça com dois álbuns de edição quase simultânea, um deles reforçando a demanda de uma voz autoral mais lírica e pessoal, o outro revelando a música que compôs para Primeiro Encontro, filme de Dennis Villeneuve que acaba de ter estreia entre nós.

Há alguns anos, em entrevista feita por ocasião da edição nacional de Fordlandia (e que pode ser lida aqui), dizia-me que Górecki foi para si “uma influência enorme, sobretudo em inícios dos anos 90” e que gostava “de compositores mais conceptuais como, por exemplo, um Gavin Bryars, que também apontaria como uma referência importante”. Reconhecia-se então “mais influenciado por este tipo de compositores do que pelos nomes mais ligados a uma música de vanguarda mais académica”, reconhecendo ainda como marcante “o livro de Michael Nyman [Experimental Music: Cage and Beyond]”. De um lado descobriu “John Cage e os que descendem das suas ideias, muito ligados às artes visuais” e, de um outro, “os que, como um Stockhausen, têm um relacionamento mais académico com a música que, basicamente, são como uma continuação direta do romantismo”. Notava então: “estarei um pouco em ambos os lados”. E sublinhava “a presença dessa herança clássica”, admitindo um gosto pela música de “Mahler, de Beethoven, de Schubert”, se bem que frisasse que os seus “métodos estão talvez mais ligados à música experimental”.

Nessa mesma conversa o compositor acrescentava que não teria “qualquer interesse em trabalhar formas antigas”, falando em concreto da sinfonia, que descrevia como “uma forma bem anterior ao século XX e não tem qualquer relevância” no que estava a fazer. Haverá ali elementos que lhe interessam, aceita, “mas a estrutura e a forma” não o “atraem”, já que “o seu sentido de forma vem de outro lugar”. O que procurava já então nos trabalhos que estava a assinar – e vale a pena lembrar que na altura tinha já editado o belíssimo IBM 1401 – A User’s Manual – “são mais os materiais e as texturas”. As formas musicais, sublinhava, “têm a ver com as convenções do seu tempo, com as necessidades da orquestra e do público”. E, rematava, “com quem as encomenda”.

Passados sete anos sobre esta entrevista podemos dizer que se mantém fiel aos seus princípios. Há entre a música que apresenta em The Arrival como em Orphée tanto uma continuação do perfil exploratório aberto à pesquisa de relacionamentos entre tempos, referências, formas musicais e fontes instrumentais. Há contudo, curiosamente, mais ousadia e surpresa na música para o filme do que no álbum mais pessoal no qual trabalhou anos a fio, que moldou tematicamente ao evocar o mito de Orfeu, mas que, salvo em A Song For Europa, onde cruza gravações de vozes com a orquestra ou na experiência coral de Orphic Hymn, com Paul Hillier e o Theatre of Voices, quase todo o restante disco parece um aborrecido piloto-automático de lirismo orquestral para um qualquer filme de perfil desenhado em quadro dramático.

Algo completamente diferente acontece em The Arrival. Naquela que é a terceira colaboração de Jóhann Jóhansson com Denis Villeneuve – para quem já havia feito música para Raptadas e Sicário e com quem em breve trabalhará em Blade Runner 2049 – o compositor terá certamente lembrado o papel que a música (de John Williams) teve no histórico Encontros Imediatos de Terceiro Grau (1977), de Steven Spielberg. Sem fazer da música o veículo da comunicação, mas nela encontrando forma de expressar a estranheza do primeiro encontro e do choque linguístico com uma cultura alienígena, a banda sonora cruza a orquestra com o recurso à criação de loops e junta uma presença protagonista de vozes, gravadas em colaboração com Paul Hillier e o seu ensemble. Sendo o filme uma história em que a tentativa de descodificação de uma linguagem alienígena é determinante, o compositor optou aqui por não usar palavras, mas apenas entoações. A música não vive talvez da mesma maneira sem as imagens nem o volume e aparato sonoro que um sistema de dispersão espacial das fontes de som faz numa sala de cinema. Mas pensada com novos arranjos e um alinhamento diferente da usada no filme, a música que Jóhann Jóhannsson criou para The Arrival dá-lhe curiosamente um dos seus melhores discos.

“The Arrival” e “Orphée”, de Jóhann Jóhansson, estão disponíveis em vinil, CD e em plataformas digitais em edição pela Deutsche Grammophon, etiqueta do grupo Universal.

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