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Rumo a Marte (entre a ciência e a ficção)

Texto: NUNO GALOPIM

Entre a realidade que escutamos em 2016 e uma ação ficcionada que nos projeta no ano 2033, a “Mars” é uma minissérie do National Geographic Channel que nos coloca perante as possibilidades de uma missão tripulada ao planeta vermelho.

A ideia foi magnificamente defendida por Carl Sagan num episódio da série Cosmos ao qual chamou Blues For a Red Planet: a história de Marte conta-se (naturalmente) pela ciência; mas a ficção tem também ali um papel a desempenhar. E lembrou então um vaivém entre factos e ficções, que passaram pelas conjeturas de Percival Lowell (que defendeu a visão de um planeta moribundo habitado por uma civilização que tentava contrariar a escassez de água construindo uma rede de canais de irrigação) e pelas primeiras manifestações diretas dessas ideias na ficção (científica) entre A Guerra dos Mundos de H.G. Wells ou as aventuras de John Carter, criadas por Edgar Rice Burroughs, o autor que (no mesmo ano de 1912), nos dava também a conhecer a figura de Tarzan. 36 anos depois, numa altura em que Marte habita mais do que nunca o imaginário do cinema e há planos e datas a serem sujeitos a equações que querem prever uma missão tripulada daqui a umas duas décadas, eis senão quando a National Geographic parte dessa dualidade sugerida por Sagan e a transforma numa série onde não só se cruza a ciência e a ficção, mas também o registo documental com uma trama que evolui com atores, cenários e toda uma narrativa que nos leva… até Marte.

Mars, que envolve nomes experientes de Hollywood como Ron Howard ou Brian Grazer na equipa de produção, é uma criação do National Geograpghic Channel que parte da adaptação do livro How To Live On Mars?, de Stephen Petranek. para nos colocar, ora num plano de ficção no qual acompanhamos uma primeira missão tripulada ao planeta vermelho em 2033, cuja ação evolui em paralelo com “regressos” a 2016, um tempo presente no qual uma série de figuras ligadas à exploração espacial, engenharia, à divulgação científica ou a projetos centrados na possibilidade de uma colonização do quarto planeta do Sistema Solar, vão comentando as hipóteses que temos em jogo no presente e as que o tempo em breve colocará pela nossa frente.

É neste plano que encontramos figuras como as de Neil deGrasse Tyson (que há poucos anos assinou uma sequela do “clássico” Cosmos de Sagan), os mais autores Robert Zubrin e Stephen Petranek, autores de importante bibilografia sobre a conquista marciana, ou escritores como Andy Weir, o autor de O Marciano, que Ridley Scott adaptou ao cinema em 2015. O mais presente dos rostos (pelo menos no primeiro episódio) foi Elon Musk, cuja empresa Space X é parte interessada na hipótese de levar o homem a Marte, facto que desenha uma aura algo turva sobre uma série que, por vezes, parece confundir-se com um filme de propaganda sobre a companhia. Porque, convém notar, há mais gente a sonhar e a projetar um objetivo semelhante…

O plano ficcional não tem o budget com que Ridley Scott filmou O Marciano, mas Mars respira mesmo assim mais verosimilhança naquelas imagens do que muitas séries de ficção científica que por aí circulam hoje em dia, muito cheias de efeitos digitais e de dieta tremenda na capacidade de os usar ao serviço de boas imagens, isto para nem falar nas narrativas. Os diálogos por vezes tropeçam em clichés pirosos, procurando acentuar os temperos de suspense e perigo que a ação comporta (e, neste primeiro episódio, acompanhava-se a viagem e a atribulada aterragem em Marte)… Nada como lembrar como, mesmo acompanhado por um grande autor de literatura de ficção-científica como era Arthur C Clarke, Stanley Kubrick tão bem soube usar o silêncio para sublinhar a tensão… Ok, podem dizer que 2001: Odisseia no Espaço é cinema e Mars é televisão. Mas o primeiro ficou na história… E, mesmo chamando audiências, Mars não é um campeão “popular” de prime time para disputar audiências com telenovelas, concursos e as propostas de reality TV que andarem por aí… Podiam dar-se a alguma ousadia mais… cinematográfica. Como, de resto, o fazem hoje as melhores séries de televisão, que estão saber levar para o pequeno as lições do grande ecrã.

Já na música a aposta foi mais ousada… e certeira. Nick Cave e Warren Ellis dão-nos aqui um parente próximo das atmosferas dos seus últimos trabalhos para cinema e até dos ambientes das canções de Skeleton Treee. Que haja edição em disco desta banda sonora!

Naturalmente quem quiser mais continuará a procurar. E pode fazê-lo já na edição deste mês da National Gegraphic Magazine (precisamente com capa dedicada a Marte) ou no livro-companheiro da série Mars: Our Future on the Red Planet, que será lançado ainda este mês…

Para já, e mesmo com diálogos e o desempenho dos atores como o elo mais fraco, Mars começou a sua missão deixando vontade de esperar pelo domingo que vem para saber o que se passa depois… E isso não é mau…

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