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Iggy… rock!

Texto: NUNO GALOPIM

“Gimmie Danger”, o magnífico documentário de Jim Jarmusch sobre os Stooges (a banda proto-punk que nos revelou a figura de Iggy Pop em finais dos anos 60) junta mais uma importante peça a um conjunto de retratos da cultura pop/rock que o cinema tem vindo a construir nos últimos tempos.

A coisa está decididamente a passar para o patamar mais alto das vivências da indústria do cinema e a ganhar rotinas. Nos últimos anos vimos Martin Scorsese a fazer filmes sobre Bob Dylan e George Harrisson. Há poucas semanas foi Ron Howard quem nos deu a ver um documentário sobre a vida em palco dos Beatles. Agora é Jim Jarmusch quem nos transporta ao universo dos Stooges, a banda proto-punk que nos revelou a figura de ímpar Iggy Pop em finais da década de 60. É bem verdade que Jarmusch já tinha um filme sobre Neil Young. O mesmo a quem Jonathan Demme dedicou algumas das suas várias incursões pelos espaços da música. Mas o que outrora eram casos raros agora são cada vez mais situações habituais. E entre um panorama de oferta documental que, nos últimos anos, nos deu filmes de importante visibilidade sobre Kurt Cobain, Amy Winehouse, Nina Simone, Edwyn Collins ou Frank Zappa – com alguns apenas a passar em festivais, é certo – mostra que, mais do que nunca, o filão do documentarismo musical está na ordem do dia. E os grandes realizadores de Hollywood e dos circuitos de autor mais aclamados, estão atentos e a produzir.

Falemos então de Iggy Pop… E antes de mergulharmos no filme, porque Gimmie Danger chega numa altura em que o contexto ativa certas memórias, há uma imagem pela qual quero começar. Trata-se de uma fotografia histórica de 1972 que, tirada por Mick Rock, nos mostra Iggy Pop com um maço de tabaco entre os dentes e os dois braços lançados sobre dois amigos. De um lado David Bowie, com quem assinaria discos históricos na segunda metade dos anos 70. Do outro, Lou Reed, que acabara de criar Transformer. 44 depois, quem imaginaria que, entre eles, Iggy Pop seria o sobrevivente?

E é com ele, apresentado pelo seu nome real, James Newell Osretberg Jr (agora com 69 anos) que Jim Jarmusch abre Gimmie Danger, o documentário com o qual nos conta a história dos Stooges, que o filme diz, sem dieta no uso das palavras, ser a maior banda de rock’n’roll de todos os tempos. O que pode ser discutível. Mas que, convenhamos, serve bem a narrativa que depois se apresenta.

O sentido de “perigo” a que o título sugere aludem a memórias que moram no passado. E é com uma informalidade doméstica, sentado numa cadeira em casa, de chinelos calçados e com um contagiante sentido de humor, que Iggy nos conduz através de recordações que lembram que, antes dos discos e dos palcos, houve um período de vivência próxima com os pais que cedo entenderam que a bateria que o jovem James instalara no centro da roulotte onde viviam (e que estava longe de ser das peças mais silenciosas lá de casa) tinha um significado a que o tempo acabaria por dar razão.

Vale a pena lembrar aqui que os três álbuns que os Stooges editaram na sua primeira vida – The Stooges (1969), Fun House (1970) e Raw Power (1973) –lançaram bases para o que, pouco depois, seria o punk. E que Jarmusch era presença habitual no CBGB’s, o bar de Nova Iorque onde o punk ganhou asas e voou. Há por isso aqui um tributo a quem abriu os caminhos que ali fizeram história.

Num tempo em que ouvia sobretudo os blues, Iggy contra aqui que, um dia, fumou um charro perto das margens de um rio e percebeu que não era negro tal como tantos dos músicos que mais admirava. Mas o momento deixou-o com vontade de fazer algo pela sua geração tão marcante como aqueles músicos negros que o haviam influenciado tinham feito para os seus.

Foi o que aconteceu. E é essa a narrativa que Jarmusch aqui evoca juntando novas entrevistas com Iggy e os outros elementos da banda, intensas imagens de arquivo da sua história e outras mais que ajudam a desenhar os ambientes da América de então que lhes servia se cenário.

Em 1973, como o filme recorda, os Stooges chegaram a ser tratados como amadores e pouco imaginativos. Hoje, e após a reunião de 2003, são referência. E aqueles três discos invariavelmente citados como clássicos rock’n’roll. Jarmusch, que o percebeu na altura, mostra-nos agora porque assim é.

PS. Este texto é uma versão longa de um outro originalmente publicado na Medeia Magazine.

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