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À conversa com Paula Rego

Texto: MARIA JOÃO CAETANO

“Uma conversa com Paula Rego é um jogo teatral, com uma narrativa poderosa – a sua obra, máscaras e disfarces”, avisa Anabela Mota Ribeiro na introdução deste livro, que reúne cinco entrevistas feitas com a pintora entre 2003 e 2011.

“Não sei o que hei de dizer. Vamos ver se consigo continuar a fazer coisas. Com força. Aprender a desenhar melhor. Isso tenho conseguido.” – Estas eram as palavras de Paula Rego, em 2011, na última entrevista que deu à jornalista Anabela Mota Ribeiro e que foi feita propositadamente para o livro que agora chega às livrarias, Paula Rego por Paula Rego. Palavras de uma mulher na altura já com 76 anos, considerada uma das grandes artistas contemporâneas, porventura a maior artista portuguesa viva. E no entanto ainda a querer aprender a desenhar a melhor.

O livro reúne cinco entrevistas feitas ao longo de uma década. A primeira data de 2003 e teve como ponto de partida a série de oito quadros que Paula Rego pintou para a residência oficial do Presidente da República, Jorge Sampaio. A segunda, três anos mais tarde, aconteceu por causa do retrato que ela fez do mesmo Presidente. A terceira conversa, em 2007, teve como pretexto a exposição retrospetiva no Museu Nacional de Arte Reina Sofia, em Madrid. A quarta, em 2009, realizou-se pouco antes da abertura da Casa das Histórias, em Cascais. E, por fim, a última entrevista foi a de 2011, feita em Londres, já a pensar no livro.
“Uma conversa com Paula Rego é um jogo teatral, com uma narrativa poderosa – a sua obra, máscaras e disfarces”, avisa Anabela Mota Ribeiro na introdução. “Desde o primeiro momento, intuí que o melhor seria dar-lhe a condução da entrevista. Ela decidiria por onde andaríamos. Eu tentaria saber das suas aventuras, reportá-las. É possível dizer que fala como pinta. Leva-nos numa fábula. Eu não quis ficar presa à realidade.”

Para ler estas cinco conversas é melhor, portanto, embarcar na viagem com a pintora e deixarmo-nos levar. Esta mulher que chega ao topo da carreira dizendo que só quer “fazer uns bonecos” e contar umas histórias e que olha para a sua obra com um desprendimento incrível – “Isto que faço é tudo desenho. Isto não é pintura a sério” – é na verdade uma extraordinária intérprete dos nossos sonhos mais cândidos e dos nossos pesadelos mas horríveis (e até escondidos). Digo nossos, das pessoas deste tempo, mas também poderia dizer nossos, das mulheres, porque na sua obra a mulher toma quase sempre o papel protagonista – a mulher oprimida, a mulher submissa, a mulher que se revolta, a mulher que dá vida, a mulher que tira a vida, a mulher-menina, a mulher que envelhece, a mulher que cuida, a mulher que deseja. Claro que há outros temas – a infância, a família, as suas memórias, a opressão, o sexo, a “brutalidade bela”, como ela lhe chama, a morte – e há um mundo muito próprio e muito onírico que se revela na sua obra, mas toda ela é atravessada por esse tema predominante: a condição da mulher, na vida íntima e na vida social. E esse também um tema que atravessa estas conversas. Conversas entre duas mulheres.

Além das histórias que vai contando da sua vida e daqueles que lhe foram próximos, é interessante encontrar nas palavras de Paula Rego pistas para compreender o seu trabalho. Ela não as dá propositadamente, não é uma artista que goste de expor o seu pensamento ou de analisar as suas obras. Mas talvez por isso estas pistas sejam ainda mais importantes. Por exemplo, quando diz: “Gosto de improvisar. O principal no trabalho é quando nos surpreendemos a nós próprios. Não sabemos o que vai sair, tomamos um risco enorme, pode sair tudo mal. Fazemos as coisas de propósito para tomar um risco ainda maior. É essa luta interna, como se fosse um jogar na roleta, é esse risco que é estimulante. Imagine que num quadro, em vez de pôr a figura no sítio onde fica bem, põe-se no sítio onde fica mal. Começa-se o quadro perversamente errado.”

“Já estou muito velha”, diz, a certa altura, a pintora. E, no entanto, ainda quer aprender a desenhar melhor. Essa é Paula Rego por Paula Rego.

“Paula Rego por Paula Rego”
Autor: Anabela Mota Ribeiro
Editora: Temas e Debates (Círculo de Leitores)
18,80 euros

Lançamento na Casa das Histórias, Cascais
Dia 20 de Nov, domingo, às 16h, por André e. Teodósio, encenador (que lerá também excertos do texto), Bernardo Pinto de Almeida, crítico de arte e poeta
Manuela Correia, psiquiatra. Seguido de visita guiada ao museu por Catarina Alfaro, curadora da CdasH

Lançamento no Porto, Bertrand do shopping do Bom Sucesso
Dia 26 de Nov, sábado, às 16h, por Bernardo Pinto de Almeida, crítico de arte e poeta, Fátima Sarsfield Cabral, psicanalista e Eduardo Souto de Moura, arquiteto.

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1 Comment on À conversa com Paula Rego

  1. Não conhecia o trabalho dessa artista, joguei o seu nome no Google e fiquei impressionada com a beleza de seus quadros. Inspirador! O livro parece muito bom, gostaria muito de lê-lo para conhecer sobre o trabalho da Paula Rego. Parabéns pelo post, muito bacana!

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