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Daniel, guardador de vacas e de sonhos

Texto: NUNO GALOPIM

Num dos melhores exemplos do cinema documental que se tem feito entre nós, “Volta À Terra”, de João Pedro Plácido, filme que nos leva até à aldeia de Uz (perto de Cabeceiras de Basto), tem agora edição em suporte de DVD.

Há uns 12 anos lembro-me de ver, no magnífico El Cielo Gira (que entre nós passou como O Céu Gira), de Mercedes Álvarez, um retrato terno, mas também perturbante, de uma aldeia moribunda. Envelhecida, apenas com 14 habitantes, Aldeaseñor, em Espanha era uma pequena povoação que, tal como os seus moradores, esperava tranquilamente a chegada do momento em que diria adeus. Depois de mostrado no DocLisboa e Porto Post Doc em 2014 e de, no ano passado ter passado por Cannes (integrado no programa paralelo Acid, que raramente cativa atenções dos media ali representados mas onde vi filmes bem interessantes), Volta à Terra, de João Pedro Plácido, escrito em parceria com Laurence Ferreira Barbosa chega agora ao DVD. O filme olha para uma aldeia portuguesa igualmente distante do burburinho urbano, na qual se pratica uma agricultura de susbsistência e cujo destino está eventualmente votado a um fim que se desenha aos poucos de forma ténue, que chegará mais década menos década, tantos que foram os que emigraram ou rumaram a outros lugares e ali só regressam em peso quando chega o verão e o tempo das festas e da meteorologia menos desconfortável.

Contudo, contra o destino inevitável de Aldeaseñor, Uz (perto de Cabeceiras de Basto), a povoação que Volta À Terra visita, é-nos mostrada do ponto de vista de Daniel, um jovem de 21 anos que sai para o campo com as suas vacas todos os dias, mas que naturalmente leva consigo um telemóvel e, à falta de namorada, confessa que, se for preciso, encontrará companhia pela Internet. É quase uma exceção num mundo de gente quase toda mais velha (há outros jovens ali, é certo, mas poucos). Nele o filme não busca a “salvação” de um modo de vida ou de uma povoação a quem o destino da cultura global não vota de facto grande futuro. Mas ao encontrar um protagonista com o fulgor de quem está ainda à procura do seu destino, sabendo apenas que ali o quer continuar a fazer, o filme de João Pedro Plácido, mesmo sendo um parente (geográfico e cultural) de O Céu Gira, respira contudo um tom menos sombrio. Ao verdadeiro achado que é este protagonista e alguns daqueles com quem contracena, num registo realista em que a presença da câmara se parece diluir daqueles espaços, o filme junta ainda uma espantosa direção de fotografia que sabe explorar as variações de cor e luz do avanço das estações do ano e um belíssimo sentido de composição visual nos enquadramentos.

“Volta à Terra”, de João Pedro Plácido está editado em DVD pela Alambique Filmes.

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