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“Crystal Ball”: um mergulho no arquivo de Prince (e uma novidade)

Texto: NUNO GALOPIM

Editado em 1998, o quádruplo álbum “Crystal Ball” inclui um conjunto de três discos com gravações realizadas entre 1983 e 1986, juntando ainda um quarto CD com um ciclo de canções acústicas.

Mesmo sem atingir os resultados desejados, Emancipation, de 1996, deu a Prince um momento de renascimento não apenas no plano da invenção criativa, mas também novas possibilidades de gestão para a sua obra gravada. E coube ao lançamento seguinte o teste definitivo de um modelo que lhe permitiu ensaiar gestos outrora economicamente arriscados com outra segurança. Crystal Ball, editado no formato de álbum quádruplo – juntando a três discos com gravações de arquivo um quarto disco de inéditos (a que chamou The Truth) – teve inicialmente uma vida comercial online, tendo inclusivamente representado, em finais de 1997, o primeiro caso de um álbum vendido pela Internet sem ter sequer uma edição física. O disco – em suporte de CD – só seria fabricado em inícios de 1998, tendo em conta o número de pré-encomendas entretanto pedidas, o que garantiu desde logo que o fabrico de unidades não aconteceria em quantidades que a procura não superasse. Estes primeiros exemplares, que asseguraram a rentabilidade da edição, foram todos eles destinados a venda postal, só depois surgindo um lançamento mais convencional, assegurado pela NPG Records. Longe de alcançar a procura de outros lançamentos anteriores, o mais ousado dos projetos editoriais de Prince não foi, de todo, um desaire comercial. Antes pelo contrário.

Apesar de mostrar o mesmo título de um projeto desenvolvido nos anos 80, Crystal Ball não corresponde a uma materialização tardia de um disco outrora arquivado antes de ser editado. Nascido como primeira descendência de Dream Factory, projeto que teria representado a derradeira criação de Prince com os Revolution, Crystal Ball sofrera progressivas mutações, algumas as canções acabando por surgir no alinhamento de Sign O’The Times, outras aparecendo, aos poucos, em edições seguintes, entre lados B de singles ou no alinhamento de álbuns posteriores, em alguns casos com novos arranjos e títulos.

Crystal Ball, na versão que chegou a disco em 1998, é tanto uma expressão de material de arquivo, como o é uma coleção de inéditos gravados em estúdio que, ao longo dos anos, tinham vindo a público na forma de vários bootlegs. O CD1 abre com o tema-título, uma longa composição gravada em 1986 que traduz um tempo de abertura da curiosidade estilística de Prince em todas a frentes, seguindo-se a canção que, gravada em 1985, teria dado título ao nunca editado Dream Factory.

O alinhamento, que junta dez faixas em cada um dos três primeiros CD, cada qual com cerca de 50 minutos de duração, tenta arrumar (sob lógica de afinação estilística), um conjunto de gravações de um intervalo entre 1983 e 1996. Com um peso maior do seu interesse pelas pontes possíveis de estabelecer entre o funk e terrenos pop/rock mais concentradas no CD2, o disco é sobretudo um passeio entre projetos, ideias e ensaios de soluções que traduzem pistas que os discos contemporâneos dessas gravações por vezes refletem, havendo também aqui ecos de parcerias, nomeadamente com os The Time e outros dos seus colaboradores mais próximos.

Os três primeiros discos deste álbum revelam um pequeno tesouro que nos permite agora antever um pouco o que poderá ser o baú de surpresas que poderá haver no “cofre” em Paisley Park tão acertadamente designado por The Vault. A edição em CD inclui um booklet de forma redonda que nos transporta aos temas e contextos de cada uma das canções.

Num jogo de contrastes com a diversidade dos climas abordados nos três primeiros CD de Crystal Ball, o disco “4”, que corresponde ao inédito The Truth, apresenta uma proposta em tudo inédita na obra até então levada a disco por Prince. Trata-se de um ciclo acústico, com adornos mínimos para além da relação entre a voz e a guitarra, e que expressa o clima emocional que, consideravelmente distinto de outros dos discos lançados em meados dos anos 90, passava já por algumas das canções de Emancipation.

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