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Os diálogos com o tempo de Eleni Karaindrou

Texto: NUNO GALOPIM

Baseada num poema perdido de um autor esquecido do século XVIII, a compositora grega Eleni Karaindrou apresenta em “David” uma cantata na qual cruza as marcas de relacionamento com a cultura entre a qual cresceu com ecos da música dos tempos do poema que aqui é cantado.

Durante anos a fio foi a “voz” do cinema de Theo Angelopoulos, representando inclusivamente a sua música uma das marcas mais importantes na definição do que em comum havia na filmografia do realizador grego. Depois da morte do cineasta o cinema deixou de ter um peso tão evidente na sua obra em disco, tendo os espaços do teatro e dos palcos de salas de concerto passado a ocupar um protagonismo maior entre a oferta em disco que a continua ter como figura de referência do catálogo da ECM Records. David, o seu novo disco, revela de resto uma experiência já antiga e algo diferente: a criação de uma cantata que parte de um texto de um poeta grego do século XVIII para nos propor uma experiência que, mantendo evidente (e fixa) uma mesma geografia, abre todavia a música diálogos entre épocas diferentes.

Apenas descoberto em 1979 numa biblioteca em Roma, o poema – de um autor da ilha de Chios até aqui desconhecido – sugeria que nascera já com o intuito de ser cantado, sendo natural supor que a visão musical para estas palavras deveria estar fortemente influenciada pelo barroco italiano.

O poema foi parar às mãos de Eleni Karaindrou pouco depois, que logo em 1980 apresentou uma primeira abordagem musical ao texto, encetando aí uma relação com esta obra que se manteve viva durante anos e anos, tendo em 2010 conhecido uma nova apresentação em Atenas, durante a qual se captou a gravação que agora chega a disco.

As marcas de um lirismo fortemente influenciado tanto pelas suas vivências de juventude na Grécia rural como, mais tarde, pelas que assimilou ao estudar a fundo todo essas e outras heranças, são bem visíveis nesta obra que junta ainda as sugestões “de época” que abrem pontes entre o momento em que a música foi composta e o tempo em que as palavras originalmente nasceram.

A Camerata Orchestra, dirigida por Alexandros Myrat, um conjunto de solistas entre os quais se nota a presença de Kim Kashkashian (viola), as vozes de Irini Karagianni (mezzo-soprano) e Tassis Christoyannopoulos (barítono), e o Ert Choir, sob direção de Antonis Kontogeiorgiou, asseguram uma magnífica materialização desta ideia de cruzamento de tempos que Eleni Karaindrou faz nascer das palavras baseadas em temas religiosos que um poeta cristão deixara algures perdidas.

De comum com a obra de Karaindrou passa aqui um sentido de melancolia que traduz a distância que o passar do tempo pode lançar sobre tudo e todos. E assim se nota que nem sempre é a olhar em frente que uma obra pode dar novos passos.

“David”, de Eleni Karaindrou, está disponível em CD em edição da ECM Records, que entre nós tem distribuição pela Distrijazz.

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