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Fantasmas da memória para sonhar o futuro

Texto: NUNO GALOPIM

Duas irmãs gémeas, um ponto de partida na folk e um gosto por usar as eletrónicas e memórias da pop como ferramentas de experimentação revelam uma bela surpresa em “Do Easy”, o mais recente disco das canadianas Tasseomancy.

A teimancia – que se pode designar também por tasseomancia, é uma “arte” divinatória que, supostamente, pode prever o futuro através da “leitura” de folhas de chá. A sua história é antiga, e remonta a tempos idos da China imperial. E tem uma das suas mais recentes heranças no nome de uma banda canadiana que junta as duas gémeas Sari e Romy Lightman a outros dois músicos. Há uma explicação, já que ao que parece a avó das manas, que escapou no século XIX da Rússia para o Canadá em fuga dos progroms contra a população de origem judaica, fazia uso dessa técnica…

Mas é mesmo só coisa de nome, já que aqui não se vislumbra qualquer tentativa musicológica de tentar adivinhar a forma das coisas que estão por vir tal e qual uma folha de chá possa “contar” a quem a observa… E a quem acreditar que tal seja possível, claro. Há aqui outra forma de escutar o que está em volta (hoje e antes) para criar uma música que assenta bem no presente. E que pode sugerir caminhos a aprofundar… Partimos de uma base folk. E, depois, é na relação com as eletrónicas e um interesse pela forma da canção pop que se abrem os caminhos para trilhos que revelam o gosto pela experimentação.

É natural que, pela mera constituição da banda e até a comunicação “visual” que valoriza a presença das duas irmãs, se estabeleçam eventuais comparações com outras duas manas que têm dado que falar neste campeonato que parte de raízes na folk e denota um interesse pela experimentação. Mas a música deste álbum das Tasseomancy não parece de todo querer ir atrás do que de tão forçadamente “weird” há por vezes nas CocoRosie. Pelo contrário, a experimentação aqui assenta com outra tranquilidade numa relação feita sem receio de formas mais classicistas (com Kate Bush certamente a habitar entre as suas referências maiores).

Há, de resto, mais ecos da memória a cruzar estas canções que sabem enganar o tempo. Numa delas, apesar da carga de referências que possa ser sugerida pelo título, Dead Can Dance & Neil Young, mais parece uma aquelas baladas simples – mas eficazes – de Madonna de finais dos oitentas. E cabe depois ao belíssimo Gentle Man, que sugere o que poderia ser uma visão pop dos fantasmas de uns Cocteau Twins em dia de texturas menos densas, outro dos episódios de um disco que alerta para potencialidades que fazem deste um nome a acompanhar com atenção. A ver o que o futuro lhes guarda…

Tasseomancy
“Do Easy”
Bella Union
★★★★

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