Últimas notícias

A arte da provocação

Texto: NUNO GALOPIM

A mais completa antologia até agora publicada sobre a carreira musical de Divine recorda um percurso que, em clima ‘hi-nrg’, nasceu como complemento a um trabalho performativo que alternou com os compromissos com o cinema, sobretudo ao longo dos anos 80.

No ensaio que podemos ler no booklet que acompanha esta nova antologia da obra em disco de Divine, Levis Omelasz (que está a concluir um mestrado em Popular Music Studies na Universidade de Glasgow) começa por recordar o choque que a apresentação televisiva de You Think Your’re A Man no Top of The Pops, da BBC, em 1984. Com um vestido metalizado, balões a cair do teto e os gestos de uma dança contida em movimentos mas expressiva que sempre caracterizaram a sua persona, Divine levava ao pequeno ecrã uma “destilação de puro camp”… Choveram os protestos, lembra o texto, que nota que, um ano depois, a apresentação de You Spin Me Round (Like a Record) dos Dead Or Alive, canção claramente herdeira das visões hi-nrg talhadas por Divine junto dos (mesmos) produtores Stock, Aitken e Waterman, chegou sem a mesmo efeito de surpresa. Mas de em 1984 Divine incomodava muita gente, a verdade é que os seus primeiros passos poderiam ter incomodado muito mais, caso não tivessem nascido e vivido (antes de tornados casos de culto) bem longe das atenções mainstream.

Harris Glenn Milstead.

Quem?

Pois, esse era o seu nome real. Nasceu em 1945 no seio de uma família conservadora de classe média de Baltimore (Maryland, EUA) e teve a sorte de ter como vizinho um filho de uma família semelhante e que, tal como ele, era dotado de um raro sentido de humor e, como o tempo, o mostraria, uma capacidade para conduzir artisticamente o seu sentido de provocação.

Foi John Waters quem lhe deu o nome Divine, com ele e outros mais começando a marcar presença em espaços onde emergia uma contracultura na cidade, das performances iniciais passando pouco depois para o cinema, tendo Divine participado em curtas como Roman Candles (1966), Eat Your Makeup (1968) ou Diane Linkletter Story (1969), nas primeiras longas de Waters Mondo Trasho (1969) e Multiple Maniacs (1970), conhecendo impacte maior pela figura – que entraria na história do cinema trash como “the filthiest person alive” – criada no marcante Pink Flamingos, ao qual se seguiu Female Trouble (1974), que cimentou a persona de Divine como importante agente provocador na cultura alternativa de então, aos poucos afirmando-se mesmo um ícone de referência no universo da cultura queer.

A conquista desse estatuto deve-se não apenas ao trabalho no cinema, mas também a um reencontro com o universo das artes performativas que começa por se manifestar com atuações em clubes (inicialmente feitas com gritos, palavrões, provocações e lutas simuladas), às quais decide juntar música em finais dos anos 70. Música com a qual encetaria uma carreira discográfica em 1979 com Born To Be Cheap, canção que traduzia as marcas de identidade da persona que vinha a criar desde finais dos anos 60 e que juntava um interesse pelo disco sound, numa abordagem todavia ainda dominada então pelas guitarras.

Born To Be Cheap é, contudo, o grande ausente do alinhamento de Shoot Your Shot – The Divine Anthology, disco duplo agora editado que representa, mesmo assim, a mais completa antologia já lançada sobre a obra em disco de Divine.

Apesar da ausência, o alinhamento começa por juntar o conjunto de singles e máxis criados em conjunto com o produtor Bobby Orlando. Figura maior da cena hi-nrg (que emergiu dentre as primeiras descendências do disco sound, entre Nova Iorque e São Francisco, na alvorada dos anos 80), a quem os Pet Shop Boys recorreriam pouco depois para gravar os seus dois primeiros singles (entre os quais a versão original de West End Girls), Bobby Orlando assinou e produziu alguns dos singles que definiram, mais do que o discreto Born To Be Cheap, os primeiros passos de Divine como figura da club scene da primeira metade dos anos 80.

Com uma carga provocadora que trabalhava de forma ousada todo um quadro de ingredientes camp, juntando um sentido de humor de quem dominava a relação com o público em palco ao jeito dos espetáculos de drag, Divine acrescentou a sua personalidade a um terreno que tinha já, além de Bobby Orando, os nomes de Patrick Cowley (que morreria pouco depois) e Sylvester como referências. E canções desta fase como Shoot Your Shot (1982), Shake It Up (1983), Love Reaction (que pisca o olho a Blue Monday dos New Order, em 1983) ou Native Love (Step By Step) que, logo em 1982, lhe deu o clássico maior desta fase, são hoje peças determinantes no contar da história do hi-nrg. O space disco, o euro disco e alguma pop que chegou depois escutaram muitas pistas por este lado.

Um dos mais marcantes legados de Divine como figura da cena musical dos oitentas deve-se à ligação que faria em 1984 com uma emergente equipa de produção. Stock Aitken e Waterman, que pouco depois somariam êxitos com os Dead Or Alive e, mais adiante, criariam estrelas globais ao lançar as carreiras de Kylie Minogue ou Rock Astley, tiveram em You Think You’re A Man (1984) um importante cartão de visita.

A canção mantinha firme a identidade hi-nrg e orientada para a pista de dança dos singles anteriores (e que o álbum Jungle Jezebel, de 1982, havia vincado), mas juntava uma sensibilidade pop que cruzaria depois os imediatos sucessores I’m So Beautiful (1984), Walk Like a Man (1985) e Twistin’ The Night Away (1985), dando a Divine uma visibilidade mainstream no panorama pop num momento que antecede a chegada de Hairspray (1988), o filme de John Waters que finalmente conquista também o sucesso na bilheteira.

A morte, por problemas cardíacos (que os seus recorrentes problemas com obesidade explicaram), poucas semanas após a estreia de Hairspray, levou-o num momento em que, mais do que nunca, Divine era uma figura com projeção conquistada tanto no grande ecrã como nos gira discos e pistas de dança. Depois da etapa de glória ligada à equipa Stock, Aitken e Waterman ainda lançou alguns singles, todavia incapazes de fazer mais do que repetir fórmulas, tanto que acabaram praticamente ignorados. Hard Magic (1985), Little Baby (1987) e Hey You (1987) estão representados nesta antologia, tal como o póstumo Shoot It Out (gravado em 1982 mas só lançado em 1989), que recuperava material da fase em que colaborara com Bobby Orlando.

O CD2 junta a este percurso inicial essencialmente feito de singles – onde não falta o menos marcante T-Shirts & Tight Blue Jeans (1984), que encerrou a colaboração com Bobby Orlando e que acrescenta ainda o lado B de I’m So Beautiful, Show Me Around – uma série de temas do álbum Jungle Jezebel (como Kick Your Butt, Alphabet Rap, sem esquecer o tema título) e, depois, algumas remisturas, outros lados B e um medley criado quando, em 1984, a sua música cativou mais atenções.

Bem documentada iconograficamente – com algumas das capas mais marcantes da discografia – esta antologia só peca mesmo pela omissão do single de estreia Born To Be Cheap. E ganharia valor acrescentado se juntasse um DVD com os telediscos e participações televisivas, que acrescentaria assim elementos para concluir o retrato musical de Divine. Porque, mesmo feito de discos, este percurso na música não deixou nunca de ser uma extensão do seu trabalho em palco.

Divine
“Shoot Your Shot – The Divine Anthology”
2CD, Hot Shot Records

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: