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A vingança é fria, mas serve-se em tons quentes

Texto: NUNO GALOPIM

Sete anos depois de uma magnífica estreia na realização com a adaptação de um romance de Christopher Isherwood, Tom Ford dá-nos em “Animais Noturnos” um filme que tem mais um livro no tutano. E a partir dele cria uma visão que confirma a sua autoridade como autor.

Foram sete anos de espera. Mas valeu a pena, mostrando-nos o segundo filme que em Tom Ford há, de facto, um autor com uma identidade que já encontrou uma forma de se expressar no cinema. Tal como acontecera em Um Homem Singular (baseado no romance homónimo de Christopher Isherwood), há novamente aqui um livro no principio de tudo. Trata-se de Tony and Susan, publicado em 1993 por Austin Wright, que nos conta a história de uma mulher que recebe um romance escrito pelo ex-marido e no qual se narra os acontecimentos que envolvem uma família abordada numa estrada, a meio da noite, por três homens e toda uma espiral trágica se se sucede, sugerindo à leitora ecos das memórias que guarda daquele que escreve as palavras que agora tem pela sua frente.

Sob adaptação do próprio Tom Ford, que segue a linha central da trama, mudando-lhe as geografias e moldando-a a uma visão que explora expressões de vingança e de ajuste de contas como sendo o sabor que fica depois de digeridos os ingredientes em jogo. Tal como em Um Homem Singular – protagonizado por Colin Firth e Julianne Moore – Tom Ford conta aqui com um elenco daqueles de ofuscar cartazes, com Amy Adams, Gyllenhaal e um (sempre) magnífico Michael Shannon, este no papel de um agente a quem cabe uma investigação central ao plano dos acontecimentos narrados no livro. E convém aqui sublinhar como a montagem sabe manter coesa uma linha narrativa que na verdade acontece em três tempos: o da leitura do livro, o da história que aquelas páginas nos contam e as memórias que esses momentos desencadeiam junto de quem lê.

Se na prática Animais Noturnos é um filme sobre livros, leitores e escritores, no seu âmago é também, e além das leituras sobre relações humanas que as tramas que evoluem em paralelo sugerem, um acutilante retrato crítico do universo da arte contemporânea, do mundo das galerias, dos museus e de quem por ali trabalha (cabendo a essas sequências alguns momentos de absoluto deslumbramento visual, mas que nos alertam que o arregalar do olho não deve toldar a nossa visão sobre as coisas). Há uma dimensão herdada de um Douglas Sirk no registo melodramático dos planos que envolvem o presente e as memórias pessoais. E, depois, um mais sujo e suado registo de road movie quando somos mergulhados na história que o livro guarda em si. E que não fiquemos agora sete anos à espera do terceiro passo…

“Animais Noturnos”
Realização: Tom Ford
Com: Amy Adams, Jake Gyllenhaal, Michael Shannon e Aaron Taylor-Johnson

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