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Uma questão de… imagem

Texto: NUNO GALOPIM

A integral dos telediscos dos Depeche Mode surge numa edição em DVD que junta aos vídeos uma série de comentários pelos elementos da banda, contando as palavras, as imagens e as músicas a história visual de uma banda que levou tempo a encontrar… uma imagem.

O que eu gostava dos primeiros álbuns dos Depeche Mode! Todos eles diferentes entre si, todos eles em busca de caminhos que eventualmente os conduziriam a Music For The Masses (1987) e Violator (1990), discos que, juntamente com o contemporâneo documento de palco 101 (1988), fazem a santíssima trindade do que de mais importante o grupo juntou à história da pop eletrónica, transportando-a do terreno de frágil e ousado pioneirismo na fronteira dos setentas para os oitentas à dimensão de estádio, com cenário americano na segunda metade dos oitentas, a caminhos dos noventas, reclamando ao universo rock’n’roll uma fatia de um bolo que, depois, seria mais dividido ainda entre outros géneros e propostas. Mas voltando ao principio… Aqueles primeiros álbuns… O ainda algo ingénuo Speak & Spell (1981), mas já carregado de uma visão pop que Vince Clarke levaria depois para os Yazoo e Erasure. Depois o tatear da escrita por Martin Gore em A Broken Frame (1982), num disco que não sabia se devia ser tão espelho da identidade pop do anterior ou, antes, um espaço de afirmação da personalidade diferente do novo autor. Seguir-se-ia o politicamente mais interventivo Construction Time Again (1983), carregado de todo um pensamento “verde”, o flirt com o terreno industrial, mas também mais desenhado sob um prisma mais lascivo Some Great Reward (1984) ou a soberba obra ao negro que revelava em Black Celebration (1986) os sinais de maturidade que lhes permitiriam dar o salto sonhado no passo seguinte. Como, de resto, aconteceu… Na música, de facto, a viagem era entusiasmante. Melhor de disco para disco. Mas… aqueles vídeos! Sim, aqueles vídeos… Eram coisa frouxa quando comparados, quer com a visão festiva mais pop ou os sentidos de tensão que as canções queriam projetar. Não acertavam, tal como as fotografias do grupo na altura, com um sentido de imagem. E convenhamos que o “salto” que acontece em 1987, se teve em Music For The Masses um argumento fortíssimo, não deixou também de conhecer na opção acertada pelo trabalho com o fotógrafo e realizador Anton Corbijn o complemento que fez encaixar uma imagem que nem uma luva àquelas novas canções. E então tudo fez sentido.


“A Question of Time”

Ao ver, de fio a pavio, a história visual dos Depeche Mode que encontramos nesta edição que junta a integral dos telediscos do grupo, fica clara a existência de uma clara fronteira que separa o que fica para trás de A Question of Love e o que sucede depois da colaboração inaugural com Corbijn em A Question of Time, o derradeiro single de Black Celebration, transformada em banda sonora de road movie no teledisco que então acompanhou a edição do single. Rodado nos EUA, o teledisco ensaiou uma visão a preto e branco, feita em sintonia com a linguagem que o fotógrafo (com quem tinham em tempos feito duas sessões para o NME) vinha a desenvolver. Uma visão que aprofundariam no tríptico que serviria três dos singles de Music For The Masses, com Strangelove rodado em Paris, Never Let Me Down Again na Dinamarca e Behind The Wheel em Itália. As imagens, juntamente com a música, fixavam uma identidade. E com ela a música dos Depeche Mode foi mais longe do que nunca antes tinha conseguido.


“Personal Jesus”

No álbum seguinte, novos passos alargariam a exploração desta nova “imagem” ao uso da cor, com Personal Jesus a ensaiar quadros de tonalidade western spaghetti e o seguinte Enjoy The Silence, a obra-prima dos Depeche Mode no domínio do teledisco, a revelar uma ideia plástica bem distante das normas pop/rock, colocando Dave Gahan, com manto real e coroa, mais uma cadeira para banhos de sol, a caminhar entre paisagens da Escócia, do Algarve ou dos Alpes franceses…

O trabalho com Corbijn continuaria com um ensaio visual sobre Nova Iorque em Policy of Truth e um piscar de olho à cultura drive in para apresentar imagens de palco em World in My Eyes, antes do novo “salto”, tanto na sonoridade (mais americana, mais contaminada pelo rock e os blues) como na imagem – sobretudo com o vocalista Dave Gahan – que chegou com Songs Of Faith and Devotion (1993). Desta etapa é particularmente interessante o episódio de exploração de ecos da obra de Hieronymus Bosch em Walking In My Shoes (outro dos mais importantes telediscos dos Depeche Mode) ou o cinematográfico Condemnation.


“Walking in My Shoes”

O flirt gótico (com alma de documentário sobre a vida selvagem) tecnicamente competente mais visualmente menos marcante de One Caress (realizado por Kevin Kerslake) representa a primeira interrupção de uma relação que se torna menos regular. Daí em diante, mesmo com alguns episódios visualmente bem interessantes (como em Home, de Steven Green) e de trabalhos assinados por figuras de primeiro plano como Stephane Sednaoui (Dream On) ou John Hillcoat (que assinou todos os vídeos de Exciter), a obra visual dos Depeche Mode perdeu o caráter mais focado que Corbijn imprimira entre 1987 e 1993. Não que tenha deixado de ser competente, mas não voltou nunca a construir a ideia de uma obra em continuidade, os telediscos passando a ser pequenos filmes que tanto poderiam servir canções dos Depeche Mode como de outra banda qualquer (com orçamento para os pagar).

Curiosamente, depois de Ultra (1997), e excetuando o belíssimo ensaio narrativo de Peace (da dupla Jonas & François), mas que poderia servir uma canção de temática semelhante de um qualquer outro artista, o melhor da obra visual “tardia” dos Depeche Mode é feito com… Anton Corbijn! Quer quando recriam a ideia de uma banda “chunga” a cantar It’s No Good (1997) ou quando, em Suffer Well (2006) definem um dos telediscos performativamente mais interessantes de toda a obra do grupo.


“Suffer Well”

E do passado? Sim, não vamos esquecer o período pré-A Question of Time, já que esta representa a primeira ocasião em que, depois do VHS Some Great Videos de 1985, estes filmes promocionais surgem em nova edição. Sim, a primeira na era digital…

Tudo começa com Just Can’t Get Enough (1981), filmado já depois do single ser êxito no Reino Unido, e a pensar em resultados internacionais. É um simples vídeo de atuação em modelo de performance televisiva, representando o único episódio da obra visual em que surge Vince Clarke, que se afastaria pouco depois.

Apesar de assinados por Julien Temple, autoridade nos telediscos de então, os filmes para os três singles do segundo álbum – See You, The Meaning of Love e Leave in Silence – são de uma pobreza franciscana, mostrando o primeiro uma sequência com auto-representação do realizador e primeiras imagens de Alan Wilder, então apenas um músico “convidado”. Em Get The Balance Right (bizarro e difícil de descodificar na intenção da narrativa, se é que tal coisa ali existe), de 1983, há uma curiosa marca de época num plano em que se vê o clássico jogo Space Invaders num ecrã. Da etapa em que Clive Richardson trabalhou com a banda, que corresponde aos álbuns de 1983 e 1984, com um reencontro em A Question of Love, em 1986, há alguns sinais de curiosa relação com as imagens e o som, sobretudo no flirt industrial de People Are People.


“Stripped”

Com Peter Care, com quem fazem os telediscos dos dois inéditos saídos com o best of de 1985 – Shake The Disease e It’s Called A Heart, que Martin Gore diz ser o single de que menos gosta – há um momento claramente interessante em Stripped, teledisco rodado perto do muro de Berlim (que se vê), num jogo entre imagens projetadas e o cenário desolado, captado de noite… E ali, pela primeira vez, a imagem parecia saber servir um som…

Em toda esta história, que aqui vale a pena ser redescoberta também nos comentários para alguns dos telediscos, assinados pelos três elementos da formação atual da banda, fica assim expressa a importância que, tal como em tempos Bernard Herrmann estabeleceu com Alfred Hitchcock ou Angelo Badalementi com David Lynch, há realizadores que sabem, como ninguém, encontrar a expressão visual de uma música. Os Depeche Mode tiveram-no em Anton Corbijn, a quem reconhecem a importância da afinação de uma ideia e da construção das variações que se seguiram. E convenhamos que também Corbijn ganhou com esta associação. Era, até ali, sobretudo um fotógrafio que tinha sido também o autor de elogiados telediscos para os Propaganda, David Sylvian, Art of Noise ou Echo & The Bunnymen, tendo já assinado um vídeo para os U2. Mas depois dos primeiros vídeos para os Depeche Mode terem começado a surgir em ecrãs do mundo inteiro, Corbijn via-se transformado num realizador com projeção global.

Depeche Mode
“Video Singles Collection”
Sony Music

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