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O grande silêncio

Texto: NUNO GALOPIM

Numa das propostas mais assombrosas que o mundo da BD nos deu a ler este ano, em “Un Bruit Étrange et Beau” acompanhamos o momento em que um monge, que vive em clausura há mais de 20 anos, é obrigado a deslocar-se a Paris para cumprir uma obrigação familiar.

O que pode fazer com que, no mundo de hoje, no qual não há quem vire a esquina sem ver se chegou nova mensagem ao smartphone, possa existir quem escolha, por firme vontade e convicção, precisamente o oposto? O silêncio? Não como ermita, longe de tudo e de todos, não num retiro temporário, mas fazendo o dia a dia num mosteiro, repetindo gestos e rotinas com uma precisão que parece criada por “um Deus sem imaginação”, como aqui lemos. O silêncio… É essa a premissa central de Um Bruit Étrange et Beau, do suíço Zep, um dos títulos mais arrebatadores que o universo da banda desenhada nos deu a ler este ano e que, aceitando a sugestão do protagonista, reduz por vezes os diálogos ao necessário, deixando algumas pranchas e olhares em… silêncio. Porque, tal como nos diz William, que desde que está ali a viver em reclusão responde como Don Marcus, há uma ocasião em que podem sair do mosteiro, caminhar entre as montanhas e até mesmo falar… Mas como se habituaram ao silêncio, quase vivem aqueles momentos comunicando por olhares, sem a necessidade de verbalizar o que observam, o que sentem.

Fascinado pela ideia de uma proximidade com o silêncio, um dos votos tomados pelo monge que nos apresenta como o protagonista, Zep – de seu nome real Philippe Chappuis, de 48 anos – começou por pensar traçar aqui uma história de uma vida fechada entre homens e que, por um motivo de exigência maior (a leitura de um testamento de uma familiar que exige a presença de todos os herdeiros) o obriga a deixar o mosteiro de onde não sai desde que ali entrou há mais de 20 anos. O contraste entre o espaço e rotinas da vida em clausura (na qual confessa que não sabe nem quer saber como são os jardins dos seus irmãos, já que cada monge tem um em frente da respetiva cela) iluminam as cores de uma história que vive entre o reencontro de memórias (os odores, os ruídos, os movimentos, os familiares) e a descoberta de uma passageira que conhece no comboio e que, com uma doença que aparentemente a condena a uma vida curta, o intriga e o obriga a um confronto com as suas opções (e não faltam flashbacks para contextualizar traços da juventude do monge e do destino que escolhe, ao qual a tia, uma aristocrata rica, critica como sendo uma fuga a um mundo que lhe mete medo).



Para preparar o livro, Zep tentou entrar no fechado universo do mosteiro de La Valsainte (no cantão de Friburgo, na Suíça), um lugar isolado no meio das montanhas, entre uma paisagem tão bela como capaz de impor respeito. Foi-lhe recusada a entrada, pelo que não teve como senão de o estudar por fora… Nas páginas entramos neste universo fechado, onde havia cerca de 70 padres e monges no início do século XX e, hoje, como diz o livro, não são ali senão 9 os habitantes. O silêncio, como conta o protagonista, leva tempo a dominar. É um pouco como o ato de fazer a lida da casa, explica à jovem parisiense que conhece… É preciso limpar da vida tudo o que faz ruído. Ele mesmo confessa que ainda não o atingiu. Mas Zep, neste livro, mesmo não fazendo silêncio, consegue afastar do traço e das palavras todo o eventual ruído que causasse distração, optando por um registo de desarmante simplicidade. E dá-nos uma das experiências de leitura de BD mais assombrosas dos últimos tempos. Uma graphic novel, se quisermos usar o termo da moda… Embora com páginas com a dimensão das de um álbum clássico de BD, e espantosa impressão a cores em papel de gramagem superior ao habitual.

“Um Bruit Étrange et Beau”, de Zep, é uma edição de 84 páginas em capa dura, pela Rue de Sèvres.

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1 Comment on O grande silêncio

  1. muito bom e muito belo. vou tentar comprar.

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