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Einstein in the house

Texto: NUNO GALOPIM

40 anos depois da sua estreia e de ter inscrito um episódio profundamente marcante na história do teatro musical, a ópera “Einstein on The Beach”, de Philip Glass, conhece finalmente uma edição em DVD e Blu-ray, numa produção com direção de palco de Robert Wilson.

Depois de uma primeira edição em disco (em caixa com quatro LP, lançada em 1979 pela Tomato Records, numa gravação que logo depois seria reeditada pela CBS Masterworks), Einstein on The Beach, há muito que deixou de ser uma peça do repertório operático à qual só o palco deu vida. De resto, entre a extensa obra de Philip Glass, são já poucas as óperas que nunca conheceram edição em disco, sendo o Corvo Branco (estreada em Lisboa em 1998) e The Making of the Representative for Planet 8 (1988) e The marriages between zones three, four, and five (1997), estas duas baseadas em textos de Doris Lessing, as únicas anteriores à viragem do milénio que ainda não conheceram expressão gravada, das estreadas neste século (e são bastantes), faltando apenas lançar em disco The Sound of a Voice (2003), Appomatox (2007) e a bem mais recente The Trial (2014).

O panorama em home video não é tão extenso, mas há edições com registos filmados das óperas Satyagraha (de 1980, numa gravação de uma das produções originais), Kepler (2009), The Perfect American (2012) e Spuren der Verirrten (2013). Há aqui muito a fazer… E se o Met filmou a produção recente de Satyagraha (que vimos em direto na Gulbenkian), pelo que está aí potencial edição a concretizar, já uma gravação do olhar dessa mesma equipa criativa sobre Aknathen, que vi este ano em Londres e neste momento passa por Los Angeles, justificaria claramente outra séria aposta (até porque, dessa terceira ópera-retrato, em DVD não há senão um making of). Mas se é preciso começar a arrumar a casa “visualmente” falando, então nada como começar pelo princípio de tudo. E eis senão chega aos escaparates uma gravação em DVD e Blu-ray de Einstein on The Beach, numa edição de dois discos pela Opus Arte.

Em 2013, numa nova edição em disco que representava a primeira vez em que Glass assegurava ele mesmo (através da sua própria editora, a Orange Mountain Music) surgia uma gravação Einstein on The Beach numa produção apresentada em 1984 pela Brooklyn Academy of Music, em Nova Iorque. A grande novidade dessa edição era a inclusão de um DVD. Todavia não era a ópera em si que ali encontrávamos, mas antes o documentário The Changing Image of Opera, de Chris A. Verges, que juntava imagens dessa mesma produção de 84, momentos dos ensaios e entrevistas onde Philip Glass e Robert Wilson explicam a obra, o contexto em que surgiu e o impacte que, no intervalo de dez anos, começara a ter no meio ao seu redor.

Einstein on The Beach surge agora finalmente em DVD e Blu-ray, com imagens captadas em 2014 no Théâtre Musical de Paris-Châtelet (Paris), numa realização de Don Kent, filme que a RTP2 apresentou no ano passado. No palco surgem Helga Davis, Kate Moran, Antoine Silverman, a Lucinda Childs Dance Company e o Philip Glass Ensemble (comandado por Michael Riesman), com direção de palco do próprio Robert Wilson, numa visão que certamente respeitará a ideia originalmente levada a palco, já que volta a envolver a participação direta dos seus criadores, coisa rara quando uma mesma ópera é reposta em palco quase 40 anos depois.



Depois de talhar as bases e fundamentos da sua linguagem musical, contribuindo então para a definição do minimalismo, Philip Glass procurou a exploração de novos horizontes e novos desafios. Num deles deu por si a trabalhar, pela primeira vez, para um palco, juntando à sua música o trabalho de escrita de palavras, as vozes de cantores e um trabalho de encenação de grande protagonismo na concepção da ideia. Com Bob Wilson concordou em trabalhar uma obra centrada numa figura histórica. E Albert Einstein é o nome que gera o consenso. Com os músicos (e os recursos instrumentais – ou seja, teclados e sopros) do Philip Glass Ensemble como ponto de partida, Glass concebe uma partitura que expressa ainda as premissas fundamentais (da sua visão) do minimalismo.

Juntos, Wilson e Glass decidem adoptar uma estrutura não linear, explorando tendências recentes de um teatro de longa duração (dando ao espectador a possibilidade de viver a sala de espetáculo segundo o seu ritmo). Houve ainda na génese da peça uma vontade em seguir uma lógica não narrativa, as cenas procurando antes refletir sobre a personagem e as suas ideias.

A obra (que acabará designada como sendo uma ópera) apresenta a figura do grande físico do século XX em cinco atos, algumas cenas sendo separadas por interlúdios a que chamam Knee Plays (o nome resultando da noção de ligação que os joelhos representam numa perna). Os textos cantados são essencialmente números, notas musicais e letras, as palavras (provenientes de textos de Lucinda Childs, Christopher Knowles e Samuel L Johnson) surgindo antes num registo spoken word. Aos músicos do ensemble e vozes junta-se ainda um violino.

Einstein On The Beach teve estreia no Festival de Avignon em 1976, revelando desde logo uma visão nova de teatro musical, o seu impacte revelando-se não apenas profundo na subsequente produção operática de Philip Glass mas desempenhando um papel igualmente fulcral no reencontrar da ópera como um espaço de grande vitalidade no panorama da música no final do século XX. Com cinco horas de duração (sem intervalos), a obra permitia ao espectador entrar e sair da sala quando entendesse. Agora, a experiência pode fazer-se em casa. E até os mais puristas recorrerão ao botão de “pausa” quando for preciso…

PS. O título, desta vez, tinha mesmo de ser em inglês…

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