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Lucky Luke e a jornada dos emigrantes

Texto: RUI ALVES DE SOUSA

“A Terra Prometida” é a mais recente aventura do cowboy, que nos mostra que ainda há muito para descobrir no universo da personagem.

A Terra Prometida tem uma sinopse tão simples e direta como a de muitos outros álbuns de Lucky Luke. Um amigo do cowboy pede-lhe para escoltar os familiares, acabados de chegar aos EUA até ao seu novo lar. São polacos, religiosos no sentido beato do termo, e ingénuos quanto à cultura do novo país que acabaram de conhecer. A jornada revela-se perigosa e cheia de armadilhas, já que Lucky Luke terá de ajudar os seus novos amigos a enfrentar todas as ameaças representativas do old west, ao qual estes emigrantes não estão habituados.

A partir desta premissa, o álbum desenvolve um périplo hilariante por alguns dos bordões recorrentes da série (como as intervenções de Jolly Jumper, o cavalo de Luke, e a paródia a referências da História dos states) e recupera, à semelhança dos títulos anterios assinados por novos autores, o espírito dos melhores títulos desenhados pelo criador da personagem, Morris.

Muitos afirmam (e com razão) que o período áureo de vida do cowboy se deu no conjunto de álbuns desenhados por Morris e com argumento assinado pelo genial Goscinny. Foi graças a ele que a série ganhou algumas das suas melhores características, como a recriação humorística de personagens lendários da mitologia do Oeste. Os estúpidos irmãos Dalton (que, recordemos, são primos dos originais, que esses sim, eram mesmo maus) e o diabólico Billy the Kid, por exemplo, foram pensados por Goscinny, revitalizando um universo que, nas mãos de Morris, não tinha um caminho definido.

Depois da morte do argumentista, Morris continuou a trabalhar a sua personagem, desta vez com outros parceiros na escrita das histórias. A colaboração com Godcinny foi tão marcante que permanece ainda hoje como uma referência da BD franco-belga, e Morris nunca conseguiu alterar essa situação. Por isso, nos últimos anos da sua carreira notou-se um cansaço criativo relativamente à personagem, refletida em muitas histórias sensaboronas escritas por argumentistas medianos (com a excepção de um número reduzido de títulos mais interessantes, como o Daily Star).

Só com uma nova geração de autores é que a série foi bem recuperada. Voltaram os valores que a tornaram num marco da BD e, em vez de se fazer uma “homenagem” aos melhores álbuns de Luke (ou seja, em vez de uma mera desculpa para obter lucro fácil), tem-seoptado por criar histórias divertidas e originais que devolveram o interesse da série para a contemporaneidade. A Terra Prometida é só mais um exemplo desse sucesso, sucedendo a outros álbuns pós-Morris notáveis, como O Nó ou a Forca e Lucky Luke Contra Pinkerton.

Neste novo álbum regressam as referências da cultura pop e o cruzamento da sátira com alguns aspetos importantes da vida moderna, tudo isto a resultar num manancial de gags subtis e memoráveis. E sem deixar que o humor tome um papel preponderante sonbre o conjunto, A Terra Prometida acaba por ser uma bela aventura, contada de forma exemplar, e um dos títulos mais fascinantes da vida da personagem, antes ou depois da morte do seu criador. E além disso, é uma crítica bem refinada a aspetos da História dos EUA que vale a pena resgatar do tempo – e que nos fazem reflectir sobre os vários acontecimentos turbulentos que marcaram este 2016, que está prestes a terminar.

A Terra Prometida está editado em português, com a chancela das Edições Asa.

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