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Crónica de mais que um concerto

Texto: JOÃO MOÇO

Em 2014 o João Moço esteve no Hammersmith Apollo, na plateia de um dos concertos que Kate Bush ali apresentou. Recordamos hoje o texto que, na altura, publicou no Sound + Vision, recordando o que ali sentiu.

Passou uma semana desde que vi Kate Bush e o espectáculo Before the Dawn e, para ser profundamente honesto, ainda não estou em mim ou acredito sequer que tal tenha sido possível. Quando ao fim de umas três horas de concerto a Kate (ouso dirigir-me com esta informalidade porque ela faz parte da minha vida diária) começa a cantar os versos “I just know that something good is going to happen/ And I don’t know when/ But just saying it could even make it happen”, da belíssima Cloudbusting (que eu me atrevi a referir há quinze dias, numa entrevista na Antena 1, que era a minha preferida, ainda que essa escolha seja uma tarefa impossível de concretizar), não contive a choradeira. Não só por ter à minha frente uma mulher como Kate Bush ou por sentir, naquele preciso momento, que fazia parte de uma qualquer comunidade abstracta que se unia de forma tão feliz e efusiva, mas principalmente porque aqueles versos se inscreviam com precisão nas minhas ansiedades para lhes dar uma reviravolta.

Dado o meu trabalho quotidiano habituei-me a ver concertos com tanta regularidade que, nos últimos anos, a excitação de outrora deu lugar ao tédio por ver ininterruptamente as mesmas fórmulas, os mesmos rituais de espectáculo, seja em cima do palco, seja entre o público. E se, por um lado, um regresso aos palcos de Kate Bush, 35 anos depois da sua primeira e única digressão, significaria sempre uma fuga a essa conduta normativa, nunca na vida eu sonhava que o espectáculo que ela preparou fosse aquilo que acabei por ver.

Before the Dawn não é um concerto pop/rock. Também não é uma peça de teatro ou uma ópera, ainda que se aproprie com grande liberdade de todas estas linguagens. Before the Dawn é uma forma de aceder, a partir de dentro, à personalidade tão complexa e intricada da Kate Bush-artista, trágica, obscura e fantasiosa na sua incandescência ao mesmo tempo que consegue ser profundamente cândida e maternal, construindo-se como uma personagem teatral mas mantendo uma ressonância emotiva que a mantém profundamente terrena e minha (sim, minha).

Pode-se dizer que o início do espectáculo é mais convencional, recuperando canções como Lily (do álbum The Red Shoes, 1993), Hounds of Love e Running Up that Hill (A Deal With God) (Hounds of Love, 1985) ou King of the Mountain (Aerial, 2005), esta última apresentada numa nova versão que consegue suplantar a original. Fiquei desde logo surpreendido pela prestação vocal da Kate, tão precisa e emotiva, sendo impossível que tenha ficado muito tempo sem cantar com regularidade e depois apareça do nada e se mantenha uma intérprete tão infalível. Aposto que andou a dar concertos lá na mansão junto ao mar e não nos disse nada.

Mas a maior surpresa veio depois, quando transpôs para palco a Ninth Wave, suite que compõe o lado B de Hounds of Love, série de canções sobre uma mulher que se vê isolada no mar gélido. Antes foram atirados sobre o público centenas de bilhetes amarelos com os versos “Wave after wave, each mightier than the last,/ Till last, a ninth one, gathering half the deep/ And full of voices, slowly rose and plunged/ Roaring, and all the wave was in a flame”, de um poema de Alfred Tenyson, que já tinham sido incluídos no seu quinto álbum. Esta é, claramente, a secção mais complexa e ambiciosa de Before the Dawn, construída como um espectáculo teatral, mas com uma componente cinematográfica muito marcada. Vemo-la perdida nas águas, o seu corpo a assombrar o filho (interpretado pelo próprio filho, Bertie, que integra o coro e o grupo de atores), a sua tentativa de salvamento/salvação até que cai nos braços dos cadáveres de peixes, que a levam para nenhures, transportando estes o seu corpo entre o público, até que, no final, se vê a sua mão no ar para logo desaparecer, ficando na dúvida se esta mulher foi ou não salva. A felicidade de The Morning Fog, que conclui a Ninth Wave, faz antever um final feliz, ainda que o desfecho também possa ter lugar num outro patamar metafísico, distante do mundo terreno.

Depois do intervalo, Kate Bush voltou para interpretar uma outra peça conceptual, A Sky of Honey, presente na segunda parte da obra-prima que é Aerial (2005), com a qual regressou aos discos depois de doze anos afastada. A suite centra-se num relato das diferentes etapas do dia, desde o alvorecer da manhã até anoitecer, concluindo com a nova manhã, ao mesmo tempo que um pintor (interpretado novamente por Bertie, que nesta parte chegou a cantar sozinho uma nova canção, Tawny Moon) tenta registar na tela esta evolução. Esta é uma secção onde Kate mostra uma relação telúrica com a natureza, com o canto dos pássaros que tenta replicar (na belíssima Aerial Tal), e isto acontece de forma tão intrínseca que ela própria, na recta final, transforma-se, em parte, numa ave canora. A relação com a natureza exerce uma tremenda influência na sua abordagem às canções, onde habitam silêncios, texturas contemplativas, mas também uma força espontânea só possível de se manifestar nesse lugar primário, daí que se sinta também a maternidade como elemento fulcral desta parte do espectáculo, dada a forma como interage com o boneco de madeira (que, imagino eu, seja a forma de transpor para palco Bertie enquanto criança) que a acompanha durante toda esta fase, trazendo assim referências da arte do mimo, que habitam a obra visual de Bush desde o início.

O fim chega com Among Angels (50 Words for Snow, 2011), interpretada com a cantora ao piano, sozinha em palco, num momento de grande exposição íntima, encontrando-se a beleza precisamente nessa vulnerabilidade, e a já referida Cloudbusting, já com grupo, coro e atores ao seu lado.

Acabo de escrever este texto e tudo isto ainda me parece surreal. Um daqueles sonhos que só a Kate Bush proporcionava nas suas canções. Só ela o poderia materializar.

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