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Isto sim, é um grande disco ao vivo!

Texto: NUNO GALOPIM

Entre uma multidão de discos ao vivo absolutamente aborrecidos, que muitas vezes não são mais do que gravações ‘best of’ de corpo presente, o registo do monumental espetáculo “Before The Dawn”, de Kate Bush, dá-nos agora a ouvir algo… completamente diferente.

Com toda uma vida feita longe dos palcos desde 1979, Kate Bush assinalou o reencontro com a música tocada ao vivo em frente a uma plateia apenas 35 anos depois. Mas fê-lo à sua maneira. Em vez de caminhar de cidade em cidade, tomou um espaço como seu durante um intervalo de tempo e ali instalou uma complexa produção teatral que garantiria que as canções não seriam apenas como quadros avulso numa exposição, mas parte de uma narrativa (o que uma exposição de pintura, entenda-se, também pode fazer). Escolheu o Hammersmith Apollo, em Londres. Por várias razões. Tocara ali em 1979. Era uma sala com toda uma carga mítica na história da música popular (ali foi encenado, por exemplo, o mítico concerto de encerramento da Ziggy Stardust Tour de Bowie). Tinha uma dimensão expressiva mas não gigantesca. E em tempos fora uma sala de cinema, pelo que estaria preparada para poder acolher a projeção de imagens, parte do programa multimédia da encenação em vista.

E foi assim que, entre 26 de agosto e 1 de outubro de 2014, apresentou Before The Dawn, um espetáculo em três partes cenicamente distintas entre si, juntando imagens, trabalho de atores e música. E com um alinhamento que, excluindo os discos anteriores a 1985 e também o álbum The Sensual World, concentrando o grosso do alinhamento entre Hounds of Love (1985) e Aerial (2005), juntando ainda dois temas de The Red Shoes (1993) e um do mais recente 50 Words For Snow (2012), criou um acontecimento que, quem viu, certamente não esquecerá. E esta observação, referindo “quem viu”, vem a propósito de Kare Bush ter recentemente explicado, em entrevista à BBC, que apesar de ter filmado o concerto, não pondera a sua edição em DVD. A experiência visual ficou para quem a teve em frente ao palco. Agora chega-nos o retrato de ouvir. É claro que não haver um filme deste concerto dá pena (quem sabe, um dia?…). Mas numa era em que tanta gente, mesmo perante a música, olha mais do que escuta (e basta estar numa sala de concertos e ver quantos smartphones estão em uso durante uma atuação) para compreender a intenção deste disco: a de nos convidar a fechar os olhos… e ouvir.

Mas aqui, por um momento, olhemos como foi…

Mas regressemos ao disco, para o ouvir…

E o que ouvimos é o registo de um concerto que tem a dimensão dramática de um espetáculo de ópera. Feito em quadros, cada qual nos colocando perante uma parte de um todo, correspondendo a segunda parte (o disco 2 na versão em CD) à sequência de canções do lado B de Hounds of Love, e a terceira ao CD2 de Aerial, juntando aqui o CD3 o encore, no qual se escuta Among Angels e o muitíssimo aplaudido Cloubusting, que encerra o espetáculo.

Os momentos falados não são retirados, mantendo assim íntegro o espetáculo. Assim como ficaram a bordo as reações emocionadas de Kate Bush às ovações de uma plateia claramente rendida.

De novo face ao que se viu em palco há a adição de Never Be Mine, tema do álbum de 1989 The Sensual World, que certamente foi uma das peças em conta para usar na produção mas acabou de fora do alinhamento de palco.

Não será surpresa dizer que tudo é espantosamente executado – o lote de músicos, entre os quais há quem tenha trabalhado com Miles Davis – é exemplar. E mesmo sem o conforto do estúdio, o palco mostra em Kate Bush a segurança de um corpo performativo que tem na voz uma ferramenta há muito dominada. A noção do trabalho coletivo, que não se esgota naqueles que estavam visíveis, em palco, traduz-se na opção por apresentar o disco não sob o nome de Kate Bush, mas através do The K Fellowship.

Muitos discos ao vivo são meras e aborrecidas sequências de alinhamentos ao jeito de ‘best of’, com os temas do mais recente álbum pelo meio e uma ou outra cedência a uma recordação ou versão, para compor o ramalhete. Muitos concertos são de facto aborrecidos, porque não passam disso mesmo. Aqui há um exemplo diferente. De investimento numa ideia que sabe como partir da música para com ela construir uma experiência diferente e não apenas esse banal ‘best of’ de corpo presente. Valeu os 35 anos de espera!

“Before The Dawn”, editado sob a designação The K Fellowship, é uma edição em 4 LP e 3 CD pela Fish People, representada entre nós pela Warner Music Portugal.

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