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A (primeira) brava dança dos Heróis

Texto: NUNO GALOPIM

A reedição em vinil do álbum de estreia dos Heróis do Mar assinala os 35 anos de um disco marcante e permite recordar episódios verdadeiramente empolgantes da história pop portuguesa, que ali ensaiava a modernidade sem voltar as costas a todo um legado cultural.

Cinco soldados. Tocaram tambores. E todos dançaram, na terra. Esta adaptação livre das palavras escutadas no refrão de uma das canções do álbum Mãe, o segundo, dos Heróis do Mar, editado em 1983, podia ser um retrato à la minuta de algumas das memórias mais marcantes de um dos casos superlativos da história pop/rock cantada em língua portuguesa. Não se fecha nessas três “imagens” o retrato único para contar a história de uma banda que nasce e desaparece nos oitentas, mas que foi das suas contemporâneas que mais descendências e heranças projeta na música que ainda hoje se faz entre nós. Mas entre aquelas palavras cruzava-se a aura disco-militar que passou pela alma musical e visual da banda (pelo menos na primeira etapa da sua carreira), uma noção de festa e de claro apelo físico à dança (que cruzou grande parte dos seus singles, sobretudo no tríptico Amor, Paixão, Alegria) e uma ligação ao seu espaço cultural e respetivas tradições. E desse convívio entre uma consciência de raiz e uma nova e pungente visão que sonhava um modo de expressar a modernidade pop surgiu então uma música que se fez soar diferente. E que agitou o nosso mundo pop que então vivia momentos de descoberta de uma nova identidade.

Há 30 anos, a 25 de Novembro de 1981, os Heróis do Mar subiam ao palco do Rock Rendez Vous para dar a conhecer não apenas a música do seu primeiro álbum (que então era editado), mas também uma proposta pop capaz de agitar e marcar o seu tempo como a emergente cena pop made in Portugal ainda não tinha visto. Recorde-se que estávamos a pouco mais de sete anos de distância da revolução e, depois de vivida uma etapa de claro protagonismo da canção política e de uma ressaca que assistiu depois ao renascimento de um peso maior da canção ligeira (ainda em finais dos anos 70), só depois de chegados os alvores dos oitentas o panorama musical português acolheu, com peso e representação social, o nascimento de uma verdadeira cultura jovem. Se o punk fora caso quase silencioso num mapa de acontecimentos ainda longe de preparado para lhe dar devida repercussão (o que fez dos Faíscas um caso importante no contexto, mas alheado da atenção popular), e se os dias do pós-punk prepararam terreno (daí, novamente, o papel crucial da visão de uns Corpo Diplomático), aos Herós do Mar coube em 1981 o “fado” de serem a banda certa na hora certa.

A banda que ali se mostrava juntava Rui Pregal da Cunha (vocalista, que mais tarde integrou os LX-90 e Kick Out The Jams), Paulo Pedro Gonçalves (guitarrista, que além desses outros dois grupos com o vocalista criou ainda o projecto pessoal Ovelha Negra), Pedro Ayres Magalhães (baixista, mais tarde fundador dos Madredeus), Carlos Maria Trindade (teclista depois com carreira a solo, a dada altura integrando os Madredeus e a dada altura com trabalho de A&R numa grande editora) e António José de Almeida (baterista, sem carreira como músico após a separação do grupo). 

Heróis do Mar, revelou então a mais desafiante das propostas da sua geração. Assimilando ecos do pós-punk britânico (acolhendo aí as heranças diretas do Corpo Diplomático), procurando um relacionamento entre a forma da canção pop e um fôlego rítmico que cruza ecos do disco com um tom militarista, escutando ainda paisagens de uma portugalidade então à espera de ser reinventada, traduzindo já uma certa melancolia fadista (que aprofundariam mais tarde no magnífico Fado, de 1986) e integrando ainda referências à música africana (a que regressariam, em 1988, numa parceria com Waldemar Bastos em Africana), os Heróis do Mar desenharam no seu álbum de estreia uma das mais importantes e influentes experiências de uma geração que então procurava uma voz.

A iconografia que tomaram como expressão visual de identidade, a opção por uma imagem de perfil militar e um olhar por valores e referenciais culturais que foram por alguns tomados por agenda política fizeram da banda um “caso” discutido nas páginas dos jornais. Trinta anos depois, a razão está do lado da música.

A reedição em vinil do álbum de estreia dos Heróis do Mar, que se integra num programa de lançamentos de LP em vinil que a Universal tem vindo a desenvolver desde há já algum tempo, junta ao alinhamento original do álbum o tema Amor, como faixa extra. A canção, na verdade, surgiu apenas em 1982, captando todavia os ecos diretos das experiências lançadas pelo álbum de estreia, aprimorando a forma da canção pop e juntando um irresistível apelo à dança para ali criar um dos maiores êxitos da história da pop feita entre nós.

“Heróis do Mar”, dos Heróis do Mar, é uma reedição em LP pela Universal Music Portugal

A propósito desta reedição, recordo aqui um excerto de uma entrevista que fiz a Rui Pregal da Cunha em 2011, por ocasião do lançamento de uma caixa antológica que assinalava também os 30 anos sobre a edição deste mesmo disco:

Os concertos de 1981 no Rock Rendez Vous (RRV) fazem parte de uma quase mitologia pop à la portuguesa. Como recordas essas noites?
Engraçado como a nossa estreia passou a ser vista como uma daquelas coisas tipo “eu estava lá” mas há quem confunda esses dois primeiros com o 3º e 4º, também decorridos no RRV, com os irmãos Pêra vestidos de beduínos a ajudar nas mudanças de instrumentos. O quinto concerto é em Leiria com o Serge Thomas do Actuel a convidar-nos para umas noites no Rex em Paris. Acho que o burbulhar e o latejar dessa primeira subida a palco só se acalma já na Gália. Uma espécie de rush maluco que nenhuma outra coisa pode alguma vez reproduzir.

Esperavam que a imagem do grupo gerasse tamanha controvérsia?
Não, na verdade até acho esse brouhaha um pouco tricoso. Aqui aparecem cinco rapazes a fazer aquelas canções e a imprensa comenta a indumentária, whoa, quão gay é essa situação? Os Dexy [Midnight Runners] e os ACR [A Certain Ratio] já o tinham feito. O Giorgio Armani e metade dos outros designers italianos tinham o paramilitar como tendência masculina nessa estação. Retratava o nosso som, o qual intitulámos de disco-militar, nunca nos passou que isso e as patilhas (que eu não tinha) poderiam ser vistas como algo passível de crítica.

O que tinham de novo e diferente os Heróis do Mar face aos Faíscas e Corpo Diplomático?
Os Faíscas eram uma banda punk, vieram numa altura em que ainda nada estava a postos. Mas já com o boom do Rock português em plena erupção, o Música Moderna dos Corpo Diplomático é um disco fantástico e que serve, de certa forma, como test drive de certas coisas implementadas pelos Heróis logo a seguir indo aqui o destaque para essa preocupação pop num contexto de música eléctrica cantada em português.

Som e imagem destacavam os Heróis das demais bandas daquele tempo. Sentiam-se uma carta fora do baralho ou integraram-se bem no emergente panorama pop/rock do Portugal de então?
Integrávamos uma corrente do rock nacional porque assim o era suposto, era esse o rótulo. Mas a vontade de showmanship era elevada e muito trabalhámos para subir a fasquia, para elevar as vozes onde o silêncio parecia por vezes mais bem vindo.

Porque foram precisos mais de seis anos após a revolução para que a cultura pop cativasse uma nova geração de portugueses?
A revolução veio seguida de um tempo em que quem assim o quis pôde viver o que lhe tinha sido proibido, os 60s e os 70s. Assim a década seguinte começou com uma sensação de novo despertar, raiando a aurora de uma era verdadeiramente revolucionária.

Como se podia demarcar uma identidade própria (ou seja, portuguesa) numa música cujas matrizes eram claramente de importação (e então mais inglesas que americanas).
A forma de cantar a nossa língua e o léxico escolhido para o fazer dentro da música eléctrica, os instrumentos recuperados, dos bombos aos paulitos, e a demanda constante pela surpresa que repetidamente disparava em direcções diferentes, do cançonetismo à electrónica ou às raízes africanas.

O que vos estimulava criativamente? Que referências vos entusiasmavam e que ideias queriam projetar?
Grandeza, aquela desmedida epopeia vivida sempre por quem tem de produzir e inventar. Do Kaguemusha às pranchas do Steve Ditko, do Bandarra ao Buckaroo Banzai, do Travadinha ao Lopes Graça. Quisemos sempre representar um país almejando modernidade mas pleno de tradição.

Os singles dos Heróis do Mar geraram fenómenos. Os álbuns passavam mais longe dos lugares cimeiros das tabelas de vendas. Isso frustrava-vos?
Acho que pós-Amor sempre houve uma clivagem assumida entre esses dois modos: por um lado o álbum, sempre mais experimental, trabalhos de estúdio, cerebralmente mais compostos. Por outro os 12″, formato privilegiado por estes cinco rapazes, como suporte preferenciado no panteão da música de dança numa decisão consciente nesse diferencial entre os LP e estes amuse bouche de pop veraneante. Numa perspectiva lafontaineana este era o nosso lado de cigarra enquanto que os longa duração mostravam a faceta formiga, mais complexa e obreira.

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