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Mais vida, ao vivo

Texto: DANIEL BARRADAS

The Notwist surpreendem com “Superheroes, Ghostvillains + Stuff”, um extraordinário álbum ao vivo, numa gravação que capta a banda em perfeito estado de graça e revela facetas de que muitos talvez nem suspeitassem.

Eu estava distraído. A canção Close to the glass dos The Notwist surgiu-me numa playlist gerada automaticamente pelo Spotify e o meu queixo caiu. Primeiro o choque: os The Notwist com um som destes? Onde está a banda contida e cerebral que eu conheço? Depois a tomada de consciência: é um novo álbum ao vivo e esta é uma canção do disco de 2014 que eu descartei por me aborrecer. Mea culpa e que maravilha de surpresa!

E 24 horas depois cá estou eu a redimir-me, a escrever elogios a este inesperado cometa no final de 2016. Apenas dias depois do lançamento do excelente Before the dawn de Kate Bush, cá aparece outro argumento para a relevância do disco ao vivo.

Ao longo de hora e meia os The Notwist levam-nos numa visita a toda a sua carreira num alinhamento perfeito, mas o que torna Superheroes… absolutamente relevante e imprescindível é o facto de fazer o retrato de uma banda por um ângulo novo que nos revela muito mais do que aquilo que sabíamos sobre ela. Pode a banda que toca o quase punk One dark love poem ser a mesma que em tempos identificávamos com o emo-minimalista Pick up the phone? Pode pois! E ouça-se precisamente a versão ao vivo de Pick up the phone a ganhar um fôlego inédito. Ou, mais ainda, This room que, graças a um trabalho impressionante de bateria, passa de grande canção para momento de absoluto delírio. (e o final de Kong, senhores…)

O entusiasmo do público está mais do que patente. Há assobios e gritos constantes da plateia que não perturbam em nada a fruição da música, sublinham apenas o sentimento que também partilhamos ao ouvi-la. Em tempos, o famoso radialista John Peel disse ser ridículo preferir CD ao vinil por não terem ruído de superfície, porque a própria vida tem ruído de superfície. Eis então aqui um disco que faz o argumento a favor da gravação ao vivo: aqui o ruído é verdadeira vida. Se os blips electrónicos do álbum Close to the glass de 2014 me tinham parecido irritantes e supérfulos, aqui tornam-se perfeitamente orgânicos porque sentimo-los como parte de um fazer o som, fazer a música, que acontece no instante imediato e não como eventual ornamento numa construção cerebral.

Talvez o “defeito” que sempre achei na banda (e que, paradoxalmente, é também o seu apelo e charme) seja o de soar contida, a espartilharem canções que parecem electrónicas mesmo quando não o são. Mas neste álbum, ao vivo, tudo se solta e o resultado é mágico. Ouça-se Pilot a estender-se por 13 minutos e a mostrar todo o potencial que havia por trás dessa peça e que a banda aproveita para criar o hipnotizante momento alto do final do espectáculo.

Há depois, como é natural, um encore com a mais conservadora versão de Consequence (nas canções mais queridas do público não convém mexer) e deixam-nos com a intimista Gone gone gone, que é aquele momento de catártico obrigado/adeus entre banda e público. Respiramos a sensação de ter assistido a algo que nasceu ali, naquele momento, partilhado por todos e sorrimos, exaustos.

Não posso recomendar mais vivamente este álbum ao vivo, principalmente a quem, como eu tenha caído na armadilha de etiquetar e colocar uma banda numa prateleira. Descubram-na aqui como se fosse nova, num extraordinário momento, em perfeito estado de graça.

The Notwist
“Superheroes, Ghostvillains + Stuff”
Alien Transistor
★★★★★

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