Últimas notícias

E esta foi a melhor surpresa da música portuguesa em 2016

Texto: NUNO GALOPIM

Gravado entre 2013 e 2015, “Mergulho em Loba”, de Joana Barra Vaz, é um dos melhores discos da música portuguesa do século XXI. Parte do mar como ponto de partida mas mergulha em águas de diferentes músicas para nos dar uma experiência que seduz a cada reencontro.

A vitalidade de um tempo e um lugar na história da música mede-se, entre vários indicadores, pela capacidade de sermos surpreendidos por algo novo que entra em cena. E se, depois do relativo deserto, com raras exceções, da segunda metade dos noventas e da aurora do milénio, uma multidão de nomes e ideias entraram em cena – bem longe do espetro definido pelos modelos de programas de talentos, entenda-se – a verdade é que do gosto pelo diálogo e colaboração estabelecido entre esta nova geração de músicos (que lembra mais hábitos da canção popular dos setentas do que dos modos de trabalhar da alvorada de uma nova cultura pop/rock nos oitentas) continuam a brotar boas surpresas. E a melhor de todas elas, em 2016, foi a estreia em disco, e em nome próprio, de Joana Barra Vaz.

Mergulho em Loba é um disco tão sedutor como intrigante. É daqueles que nos intriga a um primeiro encontro e, depois, aos poucos, se vai revelando… Traz uma dimensão exploratória que, como em tempos havia na Banda do Casaco, é a de quem sonha poder juntar ideias e linhas com a curiosidade de observar os diálogos que dali possam nascer. Há assim geografias (as dos mapas das culturas musicais e as das fontes sonoras) em rota de descobrimento por estes lados. E há uma forma de abordar o mar como tema que é natural entre quem nasceu numa cultura que o tem no DNA, mas sem resvalar nunca para a maresia lusitana à la Galo de Barcelos. Pelo contrário, o mar está aqui como expressão natural de todo um quadro de vivências, memórias e referências que passam por livros (como os de Italo Calvino) ou por músicos admirados (como George Harrisson). \

Há aqui um saber na construção de canções que sabem valorizar a dimensão dos arranjos, que nos transportam para fora das fronteiras mais habituais dos géneros e que, ao nos deixar (a princípio) algo perdidos, nos leva a obrigar novamente nas canções para nelas encontrar um caminho. Há um ensejo em moldar as cores e os timbres dos instrumentos num alinhamento – que inclui três suites – que desenha um caminho. Há mais uma magnífica expressão do enorme talento vocal de Selma Uamusse (que canta em Tanto Faz). E há um relacionamento com África que traduz, como em tempos o mostrou tão bem José Afonso, uma expressão natural de uma música que pode ter nascido na Europa, mas que há muito começou a assimilar ideias vindas de mais além. E África está entre esses mergulhos que nos fazem ser quem somos.

“Mergulho em Loba”, de Joana Barra Vaz, está disponível em CD em edição Bi-Du-Á

Advertisements

1 Comment on E esta foi a melhor surpresa da música portuguesa em 2016

  1. Não conhecia, parece um disco de sonoridade bem bonita… Vou ouvir melhor.

    Gostar

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: