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Três filmes (e uma reflexão política) nos 100 anos de Kirk Douglas

Texto: NUNO GALOPIM

Kirk Douglas celebra hoje o seu centenário. Dele podemos lembrar filmes que ajudam a contar a história do cinema norte-americano. Mas do seu presente vale a pena descobrir um blogger atento aos caminhos pelos quais corre a sociedade americana do presente.

Faz hoje cem anos um dos nomes de vulto do cinema norte-americano, com memórias mais marcantes registadas no grande ecrã entre o final da década de 40 e os anos 60. Ainda vivo, Kirk Douglas é há muito uma figura retirada dos plateaus de rodagem. Mas mantém-se atento. E é talvez o mais idoso dos bloggers “famosos” em exercício. Assina regularmente textos que publica num blogue associado ao Huffington Post.

No mais recente dos seus ‘posts’ referia, aludindo ao seu centenário, que quando nasceu, no estado de Nova Iorque, em 1916, o presidente dos EUA era Woodrow Wilson. Kirk – que na verdade tem por nome real Issur Danielovitch – nasceu filho de emigrantes russos. E no ‘post’ a que deu por título “The Road Ahead” lembrou que os seus pais eram dois entre os dois milhões de judeus que tentaram escapar da violência e morte ainda nos tempos do (último) czar e que, como tantos outros, “procuraram uma vida melhor para as suas famílias num país mágico no qual acreditavam, literalmente, que as ruas eram pavimentadas a ouro”.

Recorda que, quando chegaram a Elis Island, perceberam que nem todos eram tratados da mesma maneira e que alguns, “particularmente os católicos e os judeus” eram vistos como estranhos e nunca poderiam ser “verdadeiros americanos”. Conta, depois que, ao longo da sua vida, viu muitas coisas a mudar nos EUA. Viu as mulheres a obter direito de voto. Viu um católico a chegar à Casa Branca. E aponta que o mais “incrível” de tudo o que viu foi um afro-americano ter chegado a Presidente. Das memórias que ali discorre recorda 1933, a chegada de Hitler ao poder e a guerra que contra ele ajudou a travar. E salta para o presente, referindo um discurso que escutara na recente campanha eleitoral que diz que podia ter sido proferido naquele 1933, lançando um alerta sobre os valores pelos quais em tempos combateu na II Guerra Mundial. Sem aludir a quem fazia campanha, deixou claro do que falava. Mais político não podia ser nesta reflexão em tempos de centenário.

Podem ler aqui o post completo.

Neste outro post conta quais foram, dos filmes que fez, aqueles dos quais sente maior orgulho.

Depois de (re)descobrirem, podem caminhar entre memórias de três filmes que ficam na história como momentos marcantes da carreira de Kirk Douglas:

“Lust For Life” (1956)
Foi ao vestir a pele de Vincent Van Gogh, em Lust for Life (1956), de Vincente Minelli, que o reconhecimento do seu talento lhe valeu pela terceira vez a nomeação para um Oscar. Mas, tal como acontecera com Champion (1949), de Mark Robson ou The Bad and The Beautiful (1952), este também de Minelli, dessa vez a estatueta não lhe sorriu. Acabaria por vencer um, mas honorário, atribuído em 1996 pela força criativa e moral que teve junto da comunidade cinematográfica.

Lust For Life é contudo um momento marcante na sua carreira. Não só o desempenho como Van Gogh lhe valeu aplausos, como o trabalho de direção de fotografia e de direção artística (outras duas das cinco nomeações que o filme obteve) ajudaram a fazer deste biopic um espaço importante de relacionamento do cinema com o universo da pintura.

“Horizontes de Glória” (1957)
de Stanley Kubrick

A primeira colaboração de Kirk Douglas com Stanley Kubrick resultou na primeira obra maior do cineasta norte-americano. O filme não só é um dos mais marcantes entre os retratos feitos da I Guerra Mundial no cinema, como explora de forma arrebatadora todo um conjunto de jogos entre quem manda e quem é mandado, tecendo um olhar crítico sobre os comportamentos de altas patentes sobre o esforço daqueles que mais de perto enfrentam a morte.

Kirk Douglas veste aqui a pele do Coronel Dax, um oficial francês que enfrenta a hierarquia militar ao recusar dar continuidade a uma ordem de um ataque de desfecho claramente suicida. A tomada de posição acaba contudo para coloca-lo no banco dos réus de um tribunal militar. O tom anti-militarista do filme causou celeuma na altura e chegou a ser retirado do Festival de Berlim para evitar complicações diplomáticas. Este é um dos vários olhares de Kubrick sobre a guerra e as instituições militares, numa obra que por várias vezes deixou claro o seu ponto de vista cético sobre ambas as realidades.

“Spartacus” (1960)
de Stanley Kubrick

O star power de Kirk Douglas no final da década de 50 permitia-lhe colocar em marcha projetos claramente pessoais. E este foi um deles. Depois de acompanhar o desenvolvimento da ideia, o ator seguiu também de perto a escolha do realizador. E depois de David Lean ter recusado a oferta para realizar o filme, coube a Antony Mann a tarefa. Contudo não ficou mais de uma semana entre a equipa de rodagem, sendo despedido por Kirk Douglas com quem não se entendeu. Coube então a Stanley Kubrick levar a bom porto um projeto que claramente não era seu, que em nada se compara à sua restante obra, mas que lhe valeu (a si e ao estúdio) um êxito colossal.

Kirk Douglas encarna aqui a figura histórica do gladiador romano que liderou uma revolta de escravos no ano 71 a.C.. Baseada no romance homónimo de Howard Fast, a adaptação ao grande ecrã envolve alguns pontapés na verdade história dos factos. Entre as liberdades de ficção mais gritantes estão as cenas da morte do líder da revolta, que no filme gera momentos de clímax, com uma luta final e uma ordem de cruxifiação logo a seguir, quando na verdade se crê que Espártaco tenha morrido na batalha também ali mostrada, tanto que o seu corpo nunca foi identificado entre os mortos,

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