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Como a música pode ajudar a desvendar o enigma de Westworld

Texto: DANIEL BARRADAS

Agora que Westworld chegou ao fim e o seu episódio final nos deu respostas que permitem voltar atrás e decifrar muito do que nos foi sendo mostrado, convém chamar a atenção para o papel que a música tem representado na série e como pode ser a chave para decifrar o seu enigma.

Há um facto histórico que muita gente desconhece mas de que os criadores de Westworld estão perfeitamente conscientes: sem música, não haveria computadores nem robots. A caixa de música, inventada no médio oriente à cerca de mil anos, tocava melodias conforme os cilindros rotativos que lá eram colocados. Foi o primeiro hardware com software. Mas como a música interpretada por uma máquina, sem a presença de um corpo humano parecia pouco natural aos nossos antepassados, não tardou que alguém se lembrasse de fazer uma máquina de tocar música com aparência humana (um flautista) e assim surgiu o primeiro autómato. Esta história está muito mais bem contada neste video que vos recomendo.

No século XIX, graças à industrialização, as pianolas programáveis com rolos de papel tornaram-se extremamente populares e ainda são um dos elementos culturalmente marcantes da colonização do Oeste americano.

No genérico de abertura de cada episódio de Westworld, enquanto vemos um andróide a ser criado, vemos também as suas mãos artificiais a tocar uma pianola. Embora a vejamos um símbolo cultural desse tempo passado do séc.XIX, ela é também o grande gato escondido com o rabo de fora. Se soubermos interpretar o seu papel histórico na definição do que é máquina e do que é programação, saberemos olhar com novos olhos para a história que Westworld está a contar.

No primeiro episódio da série somos apresentados ao conceito do parque de Westworld, uma arena de diversão para humanos povoada de andróides, programados não só para deleite e prazer mas também para contar histórias. As histórias e personagens são circuitos fechados, repetidos à exaustão apesar de os visitantes humanos e o livre arbítrio que trazem com eles permitirem interacção. É exemplo disso o final do episódio: um dos programadores de histórias introduz uma nova narrativa. É o assalto ao saloon/bordel pela quadrilha do vilão Hector (Rodrigo Santoro) que é suposto culminar, depois de grande caos e matança, num discurso de gelar o sangue. Mas quando Hector se lança no seu discurso e profere as palavras “…e a moral disto tudo é…” é morto a tiro por um dos visitantes humanos do parque, estragando assim o dia ao programador ao interferir com o seu livre arbítrio de turista na narrativa montada como obra de arte.

Num espelho negro, o episódio final da temporada termina da mesma maneira. Ford (Anthony Hopkins), criador do parque, faz um discurso para a apresentação de toda uma nova narrativa no parque. Mas a sua descrição do que programou acaba por tomar contornos proféticos já que o que está a anunciar é a sua dádiva de livre arbítrio aos andróides e a nova era inicia-se quando Dolores (Evan Rachel Wood) ganha consciência e interrompe o seu discurso, matando-o. Também ficaremos sem saber qual a moral que Ford via nos seus actos.

Mas fica a pairar uma dúvida: será a morte de Ford um assassinato ou um suicídio? É que o acto de Dolores é o repetir outro acto semelhante: muitos anos antes Dolores já tinha matado o seu criador original, Arnold. Quando este percebeu que Dolores e os andróides tinham a capacidade de criar a sua própria consciência, teve a noção de que o parque seria para eles uma grande prisão infernal, pelo que pediu/ordenou/programou Dolores para que matasse todos os andróides do parque e depois encenou o seu próprio suicídio colocando um cilindro de grafonola a tocar Reverie de Debussy, sentando-se e pedindo a Dolores que o mate, ao que ela aquiesce com um misto de repulsa, obediência, fatalidade e prazer.

O uso de Reverie nessa cena tem tanto de trágico como de irónico. Essa era a música preferida do filho de Arnold, falecido com cancro, e esse terá sido o evento traumático que terá levado Arnold a criar andróides, ou seja, seres, consciências, não limitados pelo corpo artificial. “Reveries” são sonhos acordados e esse era o nome da programação experimental que Arnold inseriu nos andróides, tanto para lhes dar mais verosimilhança humana, mas também como modo de espoletar a auto-consciência das inteligências artificiais. E haverá algo mais capaz de nos fazer sonhar acordados e dirigir a mente a lugares inesperados do que a música?

O que fica patente nessa cena é que, muito provavelmente, Arnold estaria a utilizar a música como linguagem de programação para os seus andróides. Durante toda a cena (e encenação) da sua morte, Dolores recusa-se a matá-lo. Mas algo muda o seu comportamento subitamente para o de um assassino implacável. O que teria provocado isso? Muito provavelmente, a sequência de notas de Reverie.

O outro despertar de consciência essencial à história de Westworld é o de Maeve, a madame do bordel. Acontece no segundo episódio quando ela, se recorda de uma outra vida e de uma filha. Toca em pano de fundo, na pianola do saloon, No surprises dos Radiohead. É um apontamento que de início nos parece apenas divertido pelo anacronismo. Mas ao longo de cada episódio, novas canções dos anos 90 vão aparecer interpretadas naquela pianola, e outras personagens vão começar a ter recordações e a despertar consciência.

O programadores do parque não encontram explicação para o comportamento anómalo dos andróides e não encontram nenhuma fonte de onde possa surgir a interferência na programação. Mas se reparamos, todos os afectados passam pelo saloon e pela pianola em algum ponto: Hector, Clementine e mesmo os “bandidos do leite”.

Outra pista para suspeitar daquela pianola e daquelas canções como fonte de programação tem a ver com outro pequeno mistério de Westworld: em que tempo se passa a acção?

Depois de o último episódio ter confirmado as suspeitas de que estaríamos de facto a assistir a três linhas temporais ao mesmo tempo, os fãs mais acérrimos entretanto já descobriram que a acção mais recente se passa em 2052, ou seja, que Arnold terá morrido em 2018 e que isso nos diz que ele e os seus colegas teriam sido adolescentes nos anos 90. Qual seria então a sua escolha mais natural de música na qual codificar o comportamento dos seus andróides… Humm… Talvez a da banda que tem um grande êxito chamado Paranoid android?

Há nada menos do que três canções de Radiohead na banda sonora de Westworld. A que surge no último episódio é Exit music (for a film), também do álbum OK Computer, que começa mais uma vez interpretada pela pianola mas se vai transformar numa grande peça orquestral enquanto sublinha dois momentos chave: a decisão de livre arbítrio de Maeve de voltar para trás, não fugir do parque e tentar encontrar a sua “filha” e o discurso fatal de Ford. No entanto, no momento em que Dolores entra em acção e mata Ford, o que ouvimos passa a ser Reverie. Ficamos na dúvida se será a mesma música que se ouve no local da acção ou se será a “nossa” banda sonora de espectador. A que ponto poderá Ford ter manipulado Dolores? Será a morte de Ford um suicídio ou um assassinato? Teria o comportamento de Dolores sido influenciado, mais uma vez, pela melodia de Debussy? A resposta só pode ser ambígua. Talvez desta vez a manipulação não seja por um mecanismo programático mas sim psicológico e a banda-sonora simplesmente infira isso.

Embora Ford soe como arauto da sua própria morte, no seu discurso final, ele faz referência a uma citação que Arnold partilhara com ele, de que Mozart, Beethoven e Chopin não morreram, simplesmente se transformaram em música. É assim que percebemos que, sendo ele o grande arquitecto de Westworld, ele não vê a própria morte como um final, mas como uma transfiguração. Ele terá posto tudo de si na programação da nova história, uma que permite livre arbítrio e improvisação de todos os participantes. E embora ele possa ter manipulado todos para tocarem a sua canção, há uma grande diferença entre um autómato e um interprete: a alma.

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