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Novos cantos da montanha

Texto: NUNO GALOPIM

Ao terceiro álbum de estúdio, a que chamaram “In Surges”, os norte-americanos Tear Run Rings garantem-nos que não vão desistir do seu shoegze com alma dream pop… Seriam a banda certa para vermos a tocar num bar na cidade de Twin Peaks.

Imaginem se aos elementos de uma banda com alma shoegazer e pouca vontade em investigar a linha da frente da criação no presente, fosse convidada a fazer uma temporada numa cidade no meio da floresta do interior montanhoso americano… Um pouco como a cidade ficcional de Twin Peaks… É por esses cenários que podemos imaginar a música dos Tears Run Rings.

Os seus elementos, naturais da Califórnia, certamente ouviram os discos de uns My Bloody Valentine, The Jesus & Mary Chain, Slowdive ou… os Cocteau Twins. Mas como moram desde há uns anos, cada qual, numa cidade diferente da costa do Pacífico dos EUA (Porland, Los Angeles e São Francisco), começaram a ter de trabalhar “à distância”. E assim gravaram dois primeiros discos entre 2007 e 2010.

Passada uma pausa de seis anos eis que se apresentam agora com um terceiro álbum que, não sendo muito diferente das manifestações já antes expostas, traduz já a firme solidez de uma ideia. E, convenhamos, uma bela mão-cheia de canções.

Ao contrário do que sucedera com os discos anteriores, desta vez juntaram-se em algumas ocasiões para trabalhar, do esforço comum nascendo em In Surges um álbum invernoso, mas aconchegado, o frio das cenografias contrastando com o calor das vozes e da vibração da eletricidade.

Sem mudar a sua agenda estética, este é talvez o disco certo para que muitos dos que ainda não se tinham cruzado com os caminhos desta banda americana agora o façam com aquela sensação que se tem quando se prova algo que sabe bem, mesmo que não seja um sabor novo. Melancolia (com luz, que não esconde o berço californiano, e um certo sabor dream pop) e eletricidade (ensopada em reverberação) são ainda (e talvez sempre) as premissas pelas quais tudo aqui ganha forma, reafirmando a obra anterior e acrescentando um novo capítulo em tudo consequente.

A ideia de abrir e fechar cada disco com um tema a que dão por título Happiness é já uma imagem de marca. As partes seis e sete dessa suite em construção são assim ponto de partida e de regresso para o que o álbum nos dá a escutar. Sabemos assim que o próximo, pelo menos, não começará a léguas de distância deste. Porque certamente haverá uma oitava parte de Happiness a receber-nos, mais uma nona a dizer o adeus e até ao próximo. É uma boa ideia para a criação de uma noção de “obra”.

Tears Run Rings, “In Surges”, tem edição digital e em vinil pela Deep Space Recordings

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