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Os dez melhores singles dos Rolling Stones

Seleção e textos: NUNO GALOPIM

No momento em que chega um novo álbum de estúdio, recordamos aqui dez singles que nos podem contar momentos maiores da história dos Rolling Stones. Para ir (re)descobrindo um a um…

Exemplo de referência de longevidade numa carreira nascida em clima rock’n’roll, os Rolling Stones têm na verdade passado mais tempo em atuações de palco do que em sessões de gravação, tanto que nos últimos 20 anos só apresentaram três novos álbuns de estúdio.

E é precisamente para assinalar a chegada de Blue & Lonesome, o primeiro disco de estúdio desde A Bigger Bang, de 2005, que vamos aqui caminhar entre dez singles marcantes do seu extenso catálogo.

Como sempre esta lista nasce de uma seleção que é (naturalmente) pessoal. Mas transmissível.

1. “Sympathy For The Devil” (1968)
Depois do mergulho profundo entre as cores e formas do psicadelismo do álbum de 1967 Their Satanic Majesties Request, os Rolling Stones regressaram a estúdio com algo completamente diferente em mente, tendo os álbuns Beggars’s Banquet (1968) e Let it Bleed (1969) definido os trilhos daquilo que seria, daí em diante, o tutano da sua identidade (salvo em pontuais episódios de demanda por outras soluções). Sympathy For The Devil surge precisamente na faixa de abertura de Beggar’s Banquet e é, por isso, juntamente com os singles Jumpin’ Jack Flash e Street Fighting Man, um dos cartões de visita de uma etapa de transformação no sentido da carreira da banda. É uma canção de incrível fulgor rítmico (em parte moldada pela vontade de assimilar ecos do samba), tratando a letra de enumerar uma sucessão de atrocidades da história da humanidade – do julgamento de Cristo ao assassinato dos irmãos Kennedy, passando pela morte dos Romanov e pela II Guerra Mundial – vistos do ponto de vista do “Diabo”, que aqui é a figura protagonista do jogo narrativo. O tema surgiu em single em apenas alguns territórios na altura, ao longo dos anos aparecendo em edições a 45 rotações que sublinharam o caráter de clássico que a canção acabou por conquistar.

2. “Jumpin’ Jack Flash” (1968)
Foi com uma clara vontade de colocar de lado as ideias experimentadas nos últimos tempos, em particular as que tinham feito de Their Satanic Majesties Request (editado em finais de 1967) um dos momentos mais atípicos de toda a obra dos Rolling Stones até então que esta canção começou a ganhar forma. Conta a mitologia que a letra surgiu de um acordar inesperado de Mick Jagger, na casa de Keith Richards no campo, ao som do jardineiro que ali trabalhava… A música encontrou ganchos na relação mais antiga dos Rolling Stones com as heranças dos blues e das genéticas primordiais do rock’n’roll, tendo então emergido entre as primeiras sessões das quais nasceria depois o álbum Beggar’s Banquet. Editado em single em maio de 1968, Jumpin’ Jack Flash transformou-se num caso de sucesso global, colocando em marcha um processo de reorientação dos Rolling Stones no sentido de uma relação com valores rock’n’roll que, salvo pontuais episódios daí em diante, definiria o seu futuro. A canção conheceu entretanto inúmeras abordagens por outras vozes, uma das mais notáveis tendo sido assinada por Aretha Franklin, em 1986.

3. “(I Can’t Get No) Satisfaction” (1965)
Haverá algum riff de guitarra mais célebre do que aquele que abre a canção pela qual muitos esperam quando estão, entre uma multidão, a ver um concerto dos Rolling Stones? Bastam uns segundos para a identificação acontecer e a reação efusiva da plateia se manifestar… A história de (I Can’t Get No) Satisfaction tem já mais de meio século e é, de todas as canções dos Rolling Stones, aquela da qual mais vezes a sua narrativa de contou e que passa por aquele relato de uma gravação noturna de cerca de dois minutos de música numa guitarra acústica, aos quais se seguem cerca de 40 outros minutos de Keith Richards a ressonar, tendo adormecido num instante após ter registado aquela breve ideia a altas horas. Vale mesmo assim a pena voltar a lembrar também que havia uma ideia para trocar o riff de três notas pelo som de uma secção de metais, o que certamente teria transportado a canção para uma outra dimensão. Ficou bem como está, de facto! O tema surgiu como single em junho de 1965 e rapidamente se afirmou como um dos hinos maiores desse verão, chegando ao número um dos dois lados do Atlântico. Em setembro seria integrado no alinhamento da versão americana do álbum Out of Our Heads. Esta é uma das canções dos Rolling Stones mais vezes recriada, incluindo a sua história versões por nomes como os de Otis Redding, os Devo, Cat Power, Aretha Franklin ou Britney Spears.

4. “Rocks Off” (1972)
A história das discografias nem sempre se faz apenas com os casos de sucesso global. E no caso dos Rolling Stones há canções incríveis que ou nunca chegaram a single ou, como no caso de Rocks Off, apenas o foram em poucos territórios (que não aqueles que definem “as tendências”. Faixa de abertura do (magnífico) Exile on Main Street, gravada nas míticas sessões que tiveram lugar na casa alugada por Keith Richards no sul de França no verão de 1971 e concluída depois em estúdio, em Los Angeles, Rocks Off teve edição em single apenas no Japão, o que impediu que alguma vez se transformasse num “single” clássico universalmente aclamado. É contudo a perfeita porta de entrada para o álbum, revelando não só uma visão instrumental que procurava explorar outras dinâmicas nos jogos dos timbres em jogo, apresentando inclusivamente, a meio, um momento de manipulação da voz de Mick Jagger que precede muitas das operações do género que ocorreriam depois sobretudo em espaços da música eletrónica.

5. “Paint it Black” (1966)
Sinais dos tempos que se viviam num momento de descoberta que caracterizou muita da produção pop/rock em meados da década de 60 passam por várias canções que os Rolling Stones apresentaram entre 1966 e 1967. Das possibilidades de outras visões mais complexas abertas por uma nova forma de habitar os estúdios de gravação à sede de exotismos tímbricos que se reflete na presença de sonoridades “novas” (isto no quadro pop e rock, entenda-se), houve então espaço para transcender normas e formas. E esta canção, editada como single em maio de 1996 e incluída, nos EUA, na edição local do álbum Aftermath. Canção que explora contrastes entre luz e escuridão, entre o negro e a profusão de cores, numa alusão a estados de alma, Paint Is Black foi um dos primeiros episódios reveladores do então crescente interesse de Brian Jones pela música marroquina (que alcançaria expressão maior no álbum Brian Jones Presents the Pipes of Pan at Joujouka, gravado em 1968 e editado já depois da morte do músico (e que pode ser entendido como um dos primeiros discos a refletir a noção de “world music”).

6. “2.000 Light Years From Home” (1967)
O ano de 1967 abriu horizontes e possibilidades à música nas mais variadas dimensões. E a obra dos Rolling Stones não ficou imune aos sinais dos tempos. Pelo contrário, e mesmo habitando muitas vezes longe das visões mais “canónicas” sobre a obra da banda, o seu álbum Their Satanic Majestie’s Request é não só um exemplo maior de ousadia na história discográfica dos Rolling Stones como traduz ainda um título marcante no relato do que de tão desafiante, experimental e diferente o panorama pop/rock viveu por aqueles dias. 2.000 Light Years From Home foi um dos singles extraídos deste disco. Surgiu em apenas alguns mercados, em outros aparecendo antes o mais “arrumado”, colorido e luminoso She’s A Rainbow no lado A… Este é contudo um dos singles mais arrojados da obra dos Rolling Stones, definindo um trabalho espantoso de cenografia sobre a qual evolui a canção, com uma abertura mais próxima dos acontecimentos de então nos espaços da música eletro-acústica, contando depois com a presença protagonista de um mellotron (um dos primeiros teclados elétricos) que aqui é tocado por Brian Jones, espírito que por aqueles dias era presença com influência maior na condução do grupo por territórios nos quais a ideia de aventura estava na linha da frente das preocupações.

7. “Emotional Rescue” (1980)
Dois anos depois de um flirt bem claro em Miss You, um dos temas centrais do álbum Some Girls, os Rolling Stones assinalavam a sua entrada na década de 80 com um outro single criado sob evidente influência das aberturas de possibilidades à canção assimiladas pela cultura disco. Emotional Rescue, tema composto ao piano e que, segundo se conta, terá representado um momento de separação de interesses entre os pontos de vista de Mick Jagger e de Keith Richards, foi escolhido como single de apresentação para o álbum com o mesmo título. E representou uma das maiores (e mais saudáveis) das ousadias dos Rolling Stones, lançando a sua curiosidade para além do seu território histórico, ao mesmo tempo assinalando uma muito viva relação com as formas musicais do presente. Eram já veteranos, mas podiam reinventar-se. A canção dividiu opiniões, mas resultou mesmo assim em mais um caso de sucesso, ultrapassado (na altura e agora, no presente) o impacte do mais “convencional” She’s So Cold, o single que se seguiu, extraído do mesmo álbum. Apesar de surgido antes do aparecimento da MTV o single revelou já uma atenção da banda para com a nova ferramenta promocional que então ganhava forma: o teledisco.

8. “Ruby Tuesday” (1967)
São várias as histórias das canções cujas géneses e reais significados líricos surgem contadas em versões diferentes consoantes as memórias que as evocam. Assim foi com Ruby Tuesday, a canção através da qual os Rolling Stones assinalaram a chegada a 1967. Keith Richards conta que a escreveu a pensar no mergulho potencialmente assombrado (com drogas envolvidas) de uma namorada que o deixara. Já sobre as origens da melodia há quem conte que foi ele quem a trouxe pronta a estúdio e quem diga que a ideia que serviu de partida veio de Brian Jones. Certo mesmo é que este último ali toca flauta de bisel, que confere uma riqueza tímbrica invulgar, mas desde logo cativante, definindo logo o tom de lamento e melancolia pela qual o tema evolui. Ruby Tuesday deu-lhes mais um caso de sucesso maior, surgindo no alinhamento da versão americana de Between The Buttons, aparecendo deste lado do Atlântico apenas em Flowers, um pouco depois. Na alvorada dos anos 90, por ocasião do lançamento do álbum ao vivo Flashpoint (que documenta a primeira digressão dos Stones a visitar Portugal) esta canção teve nova vida em single.

9. “Start Me Up” (1981)
Quem diria que um dos clássicos maiores da obra dos Rolling Stones começou por ter uma vida fadada ao esquecimento num arquivo? Ainda bem distante da forma como hoje a conhecemos, a canção começou por nascer sob moldura reggae em finais dos anos 70, mas mesmo após inúmeras abordagens e vários takes gravados, foi arrumada a um canto. A ressurreição deveu-se a uma ideia do produtor Chris Kimsey que, com uma digressão dos Rolling Stones pela frente, sugeriu que se consultasse o que estava esquecido entre gravações arquivadas. E entre os muitos takes de sabor reggae encontrou dois com alma mais rock’n’roll, deles partindo para construir a canção que conhecemos, para a qual foram ainda gravados elementos adicionais, sendo histórica a ocasião em que Mick Jagger registou a voz através de um altifalante transformado em microfone, na casa de banho dos estúdios Power Station, em Nova Iorque. Editado em finais de 1981, Start Me Up foi o single de apresentação de Tattoo You e também o primeiro dos Rolling Stones na era da MTV.

10. “The Last Time” (1964)
Depois de uma sucessão de singles nascidos de versões de originais, que foram desde nomes de referência dos blues aos Beatles, os Rolling Stones apresentam, finalmente em fevereiro de 1965, um single nascido da escrita de Mick Jagger e Keith Richards. Depois de It’s All Over Now e de Little Red Rooster, ambos de 1964, este foi o seu terceiro single a chegar ao número um no Reino Unido, reforçando também do outro lado do Atlântico o estatuto que o grupo começara a trilhar no ano anterior. A canção foi gravada em janeiro de 1965 na Califórnia, traduzindo de facto o tema uma clara influência de referências americanas, que seria reconhecida por alguns dos muitos que depois assinaram versões, desde os Grateful Dead a Bruce Springsteen. Foi contudo com uma banda britânica, os The Who, que The Last Time teria outra vida como single, num 45 rotações de 1967 que apresentava no lado B Under My Thumb, outro clássico dos Rolling Stones.

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