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“Oxygène”… música para respirar

Texto: NUNO GALOPIM

Ao mesmo tempo que se assinalam os 40 anos da edição de “Oxygène”, Jean Michel Jarre apresenta a terceira parte de um tríptico iniciado em 1976 com um álbum que devemos apontar entre os esforços pioneiros na aventura eletrónica nos espaços da música popular.

Começou por frequentar primeiro o ensino clássico, passou depois por grupos de rock. E, através de um colega de liceu, chegou num grupo de pesquisa musical ligado ao canal de televisão nacional, a ORTF, e que era dirigido por Pierre Schaeffer, o criador da ideia de “música concreta”, nascida em 1948. O professor explicou-lhe então que a música não era apenas feita de notas e de acordes, mas também de sons. E que a diferença entre o ruído e o som musical residia na mão do músico e na sua intenção artística.

Jean Michel Jarre contou-me, uma vez, numa entrevista, que não tinha essa vocação de investigador, quase académico. Não tinha essa perspetiva científica, mas que procurava antes um plano de expressão e de labor mais humanista. Schaeffer, mesmo não tendo encontrado no discípulo um académico, mudou-o e deu-lhe a entender o que queria fazer.

Nessa época também pintava, algo que ele descreve como estando muito próximo de uma certa abstração lírica, reconhecendo uma influência em si de figuras como Jackson Pollock ou Pierre Soulages. É então que encontra um espaço de relação possível entre esses universos e as ferramentas e formas da música eletroacústica. O modo como misturava as frequências assemelhava-se, como me chegou a descrever à forma que tinha de misturar as cores. Não para fins realistas, mas, tal como na pintura, com vista à abstração. Uma abstração que era para si, contudo, mais concreta e até mais próxima do realismo do que a figuração.

Ficou então obcecado com uma ideia de tentar ligar aquela música contemporânea, de laboratório, à música pop. E de encontrar, porque já privilegiava a melodia, pontes possíveis entre essas realidades. Isto acontece dez anos antes de Oxygène. Trabalhava com processos de transformação de sons… Fez várias tentativas e editou até discos que hoje descreve como “falhados”, referindo-se ao single de estreia La Cage (1971), ao primeiro álbum Deserted Palace (ambos algo esquecidos) e à banda sonora de Les Granges Brulées (1973), um filme de Jean Chapot.

A música para cinema e, sobretudo, os trabalhos de produção para vários artistas foram, como descreveu já, trabalhos práticos em vários domínios. Mas uma voz surgia já bem clara. É então que cria Oxigène “perante uma espécie de indiferença total”, como me contou. Gravou o disco em sua casa, numa cozinha modificada, com um estúdio minimalista, o que era o oposto do politicamente correto nesses tempos já que, “a música ‘séria’ fazia-se em estúdios de facto”. E, além dos teclados, usou um velho gravador de oito pistas.

Vale a pena ouvi-lo nessa entrevista que me concedeu há quase dez anos, quando então apresentava uma regravação, com nova tecnologia de gravação, desse mesmo volume inicial de Oxygène. Fala aqui do contexto em que nascia então o volume inicial desse disco que em breve faria história:

“Não havia Internet… A música pop era uma música de troca. Mas a eletrónica era ainda uma música de experimentação. Laboratorial. A Alemanha era a Alemanha, e a França era a França. Não havia muito contacto. Ouvia o que se fazia, mas sentia que se mantinham certos paradoxos e contradições na música eletrónica. A primeira dessas contradições foi criada pelo Walter Carlos [hoje Wendy Carlos, mas foi assim que a referiu na entrevista], com o Switched On Bach, que foi um êxito imediato nos Estados Unidos e em Inglaterra. Mas que projetou nas pessoas uma enorme ambiguidade sobre os sintetizadores. Os sintetizadores eram então apresentados como instrumentos “falsos”, capazes de imitar os sons do piano, dos violoncelos, por aí adiante… Passava-se assim ao lado das verdadeiras potencialidades dos sintetizadores e da sua capacidade de abertura a novos sons. Depois vieram os alemães. E deles veio uma noção de apologia da máquina. Abordavam a música eletrónica de uma forma expressionista, quase mecânica. Os Kraftwerk, sobretudo, elevaram este conceito a um extremo (o que não impede que adore o que fizeram). Mas promoveram uma noção de música eletrónica como algo que é frio, robotizado, desumanizado. Isso criou novas ambiguidades para a música eletrónica. E dizia-se que era uma música fria, urbana, de desespero, era a metrópole… Para mim era o contrário. Estes eram os instrumentos mais sensuais e mais orgânicos que conheço. Podem ser abordados como quem faz culinária. E procurava fazer com eles uma música que não se baseava na repetição automática de eventos, mas antes na não repetição e, sobretudo, sem automatismo. Oxygène é, nesse aspeto, um disco diferente porque não há um som que se repita. Todas as sequências são feitas à mão, sem sequenciadores.”

Jean Michel Jarre explicava-me então que a composição de Oxygène “é simples, mas longe ingénua”. E, por ser “diferente de toda a música eletrónica da época”, talvez esse tenha sido depois “uma das razões objetivas do seu sucesso”. Ele mesmo reconhece que havia então ali “algo onde as pessoas se reconheciam se uma forma sensual, emocional, e não apenas intelectual”.

O crânio que víamos então desenhado na capa do disco, sob a “pele” do planeta, seria assim uma outra expressão dessa ideia de humanidade porque, “ao mesmo tempo, esta era uma música que as pessoas associavam muito à ficção científica, ao futuro”, justificou Jarre, um velho amante de ficção científica, sobretudo do 2001: Odisseia no Espaço de Kubrick, dos livros de Arthur Clarke. Mas esta música Jarre não a ligava ao espaço sideral. Esta era, para si, “uma música do espaço vital, do que nos envolve”. Daí o crânio humano. E a carne que o envolve, sob aquela pele que define a superfície do planeta.


“Oxygène 4” (1976)

O impacte que o álbum acabou por ter deixou-o surpreendido:

“Todas as editoras tinham recusado aquela música. Estávamos no tempo do disco e do punk. Que música era aquela, perguntavam. Os temas não tinham título… Eram longos e não davam para passar na rádio… Sem single evidente… Era um ovni total face à produção da época. E tinha o nome de um gás… Até a minha mãe dizia que era bizarro ter dado ao disco o nome químico de um gás… E depois aquela capa, com a Terra… Para os ingleses e os americanos o facto de eu ser francês era outro handicap… Mas depois tudo mudou. O disco saiu e as atitudes mudaram. E o que era negativo virou positivo. O facto de ser francês funcionou como exotismo. A Radio 1 inglesa tocou o disco na íntegra. O mesmo aconteceu na rádio francesa. Foi um fenómeno…”

Oxygène acabou mesmo por se transformar numa referência determinante entre os discos pioneiros na criação de expressões possíveis para as eletrónicas num quadro da música popular. Tal como álbuns de Wendy Carlos, Tangerine Dream ou Kraftwerk editados até meados dos anos 70, Oxygène ousa novos caminhos, explora visões, sugere rumos possíveis… E teve descendências. Não apenas no próprio Jarre (e Equinoxe, de 1978, é uma clara evolução na continuidade das ideias aqui lançadas) como entre muitos que então o escutaram como portador de uma nova mensagem à qual novas gerações de músicos podiam colher princípios fundadores. Uma cartilha… E basta ver a multidão de “discípulos” que Jarre convocou ao recente díptico Electronica para termos consciência de quão marcantes esses seus ensinamentos primordiais marcaram sucessivas gerações de novos artistas.

Tal como Mike Oldfield fez com o igualmente influente Tubular Bells, também Jean Michel Jarre resolveu regressar a Oxygène anos depois. Não só para regravar o álbum de 76 com outros cuidados de estúdio, mas para criar novos episódios, acabando por definir uma trilogia que começou por se materializar num segundo volume Oxygène 7-13 em 1997, o terceiro – Oxygène 3 – surgindo agora, no assinalar dos 40 anos sobre a edição do original. Se o volume dos anos 90 era um relativamente inconsequente exercício de reflexão de uma ideia fundadora, procurando uma pulsação pop mais evidente (na verdade parece mais uma sequela de Equinoxe do que do Oxygène original), já o novo álbum parece acompanhar o bom momento que os álbuns do projeto colaborativo Eletronica mostraram nos últimos anos.


“Oxygène 17” (2016)

Há em Oxygène 3 uma vontade em retomar o caráter mais minimalista e ambiental (ler paisagista) do álbum de há 40 anos. As afinidades tímbricas são mais evidentes, as sugestões melódicas e o desenho cenográfico mostram também mais clara ligação a essas pistas originais, conseguindo as composições (que não querem agora inventar o futuro, mas sim encerrar um capítulo com raiz no passado) o mais consistente conjunto de composições num disco a solo de Jarre desde os tempos de Revolutions, de 1988.

Vale a pena sublinhar o tom “retro” com que se encena aqui uma ponte entre épocas, aliando a tecnologia atual a formas e modelos de composição que definiram um disco histórico lançado há 40 anos. Será um fim de ciclo para Oxygène? A parte final – Oxygène 20, cita e retoma mesma linhas e registos de sons de Oxygène 6 que fechava o álbum de 1976 – sugere que assim seja. E, mesmo com um episódio do meio que não impressiona senão os mais acérrimos admiradores do músico francês, a caixa que junta os três volumes agora editada conta uma história sem a qual não se pode contar o era uma vez das eletrónicas nos domínios da música popular.

“Oxygène 3” e “Oxygène Trilogy” de Jean Michel Jarre estão disponíveis em edições em LP e CD e também em plataformas digitais, num lançamento da Sony Music.

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1 Comment on “Oxygène”… música para respirar

  1. Que reportagem sensacional em lingua portuguesa. Abraços do fã clube brasileiro, Jarrefan-Brazil. Nosso site: http://www.jarrefan.com.br

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