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Os dois cavalheiros de Londres

Texto: NUNO GALOPIM

O álbum que assinala os 70 anos sobre o nascimento das aventuras de Blake & Mortimer, mostra-nos uma das mais interessantes criações para estas duas personagens depois da morte do seu criador. William Shakespeare inspirou os autores Yves Sente e André Juillard.

Foi em 1946 que, logo na primeira edição da revista Tintin, o mundo descobriu as figuras de Francis Blake & Philip Mortimer, criação de Edgar P. Jacobs que, em poucos anos, se transformariam num dos pares de heróis mais célebres e aclamados da história da banda desenhada. Blake & Mortimer foram, há precisamente 20 anos, com a publicação de O Caso Francis Blake, um dos primeiros exemplos de criações de grandes autores da banda desenhada franco-belga a conhecer, com regularidade, novas vidas, com outras equipas de autores, depois da morte dos seus criadores, algo que entretanto se tornou quase a norma. Nestes 20 anos surgiram na verdade mais álbuns de aventuras de Blake & Mortimer do que aqueles que Jacobs tinha criado em vida. Mas, tirando talvez os dois primeiros deste novo ciclo – ou seja, O Caso Francis Blake (Jean Van Hamme e Ted Benoit, 1996) e A Conspiração Voronov (Yves Sente e André Juillard, 1999) – nunca as novas histórias chegaram sequer aos calcanhares das do criador desta dupla. Ao chegar aos 70 anos, e com o peso de tão redonda data, convenhamos que a dupla Yves Sente (argumento) e André Juillard (desenho) compensa uma multidão de exercícios menores, fazendo de O Testamento de William S. não só um dos três melhores álbuns de Blake & Mortimer pós-Jacobs, como aquele que de forma mais consequente soube juntar novas dimensões narrativas a este universo sem prescindir do respeito pelo cânone.

O livro chega no mesmo ano em que se assinalam os 400 passados sobre a morte de William Shakespeare, pelo que não faltaram ocasiões em que os ecos da voz do velho “bardo” se manifestaram nas mais variadas frentes, não tendo faltado novos episódios de discussão sobre as questões de identidade ou veracidade que a sua vida e obra continuam a levantar entre alguns. E é precisamente aí que Yves Sente encontra a “chave” para entrar no universo shakespeareano. Usando Veneza e Londres como pólos centrais da ação, o livro acompanha uma corrida contra o tempo para a resolução de um enigma deixado em suspenso no século XVII e para cuja resolução acaba por ser chamado o nosso velho amigo Philip Mortimer.

A narrativa evolui entre dois tempos. O do presente, numa trama na qual não faltam os habituais vilões de serviço e que junta uma referência a uma Peggy colecionadora de arte que vive em Veneza (imediatamente pensamos na sobrinha de Solomon R. Guggenheim). E o do passado, com Shakespeare e uma personagem de ficção que com ele desenha um par criativo, através do qual O Testamento de William S. junta uma dimensão de história alternativa à figura do grande mestre do teatro em língua inglesa.

Assinado pela dupla mais rodada entre as criações de álbuns de Blake & Mortimer publicados desde 1996, O Testamento de William S. confirma uma vez em Yves Sente um dos mais sólidos autores deste género. E que, tal como sucedera já em séries como Thorgal ou XIII, surgiu aqui em mais uma linha de sucessão em relação ao veterano Jean Van Hamme, que chegou a assinar vários Blake & Mortimer, tendo-se afastado depois de A Maldição dos 30 Denários, cujos dois volumes surgiram entre 2009 e 2010. A esses álbuns seguiram-se o fraquíssimo A Onda Septimus (de Jean Dufaux, Antoine Aubin e Étienne Schréder, uma medíocre tentativa de sequela de A Marca Amarela) e O Bastão de Licurgo (de Yves Sente, André Juillard e Étienne Schréder, que procurava criar uma prequela para O Segredo do Espadão). Convenhamos que, liberto dessas amarras de “clássicos” dos tempos de Jacobs, O Testamento de William S. mostra que o futuro de Blake & Mortimer pode ser mais risonho se, sem perder o cânone de vista, se olhar antes para outras fontes, figuras, lugares e épocas para nelas criar novas narrativas.

“O Testamento de William S.”, de Yves Sente (texto) e André Juillard (desenho) está disponível numa edição de 64 páginas em capa dura, lançada pela Asa.

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1 Comment on Os dois cavalheiros de Londres

  1. Obrigado, Nuno, pela sua divulgação desta série – de que sou fã incondicional.
    Neste último volume – que conta com um excelente trabalho de composição e cor – parece haver um erro de continuidade: Mortimer viaja, com Elizabeth, num comboio que “parte de Londres para Veneza”, cuja viagem apenas temos, de facto, imagens do comboio e nenhuma de qualquer travessia do Canal por barco (será que os autores se esqueceram que o EuroTunnel só foi inaugurado em 1994?).

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