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Uma voz para muitas vidas

Texto e foto: DANIEL BARRADAS

Né Ladeiras levou ontem as canções do seu novo álbum, “Outras Vidas”, e alguns outros temas, ao Pequeno Auditório do CCB. No final, dois ‘encores’ e ovações em pé retribuíram a entrega que a artista devota à sua música, tanto em disco como em palco.

Quando Né Ladeiras quebra o silêncio há que estar lá para a ouvir. Ontem à noite, no pequeno auditório do CCB éramos talvez poucos, mas quem acorreu ao concerto de lançamento do novo álbum Outras vidas sabia bem ao que ia e dois encores e ovações em pé retribuíram humildemente a entrega que a artista devota à sua música, tanto em disco como em palco.

Se uma coisa ficou patente neste concerto é o modo como a música faz parte intrínseca de Né Ladeiras e cada partilha, seja um álbum ou um concerto, tem de ser genuíno. É claro que só lhe podemos perdoar as ausências e silêncios, deixar para trás a nossa tendência de público devorador de carreiras e simplesmente apreciar o momento.

Né Ladeiras entrou em palco descalça, não se coibiu em colocar os seus óculos para poder acompanhar as letras das novas canções e, no final do concerto, agradeceria ao seu cabeleireiro por ter encontrado um penteado que lhe permite assumir os seus cabelos brancos. As histórias que nos contou e o nervosismo que partilhou connosco fizeram-nos sentir parte do seu mundo e o alinhamento do concerto vincaria ainda mais isso.

Para além dos oito novos temas que fazem parte de Outras vidas, ouve ainda tempo para ir ao passado buscar alguns temas chave da sua carreira, como Jeg vil vara ensam, o tema sueco de Corsária, o álbum de homenagem a Greta Garbo, Flecha, do álbum anterior (de há 15 anos), algumas das canções populares de Traz os montes e temas de Fausto, Zeca Afonso e Violeta Parra. Todos eles fizeram bastante sentido já que Outras vidas é no fundo uma soma e reflexão sobre as inspirações de Né Ladeiras. Há as referências directas a Greta Garbo, Frida Khalo e Madre Teresa de Calcutá. Há a história de Avita, a mulher romana que deixou uma inscrição em mosaico que espoletaria este novo ciclo de canções… mas acima de tudo Outras vidas reflete sobre as várias pessoas que todos temos dentro de nós e a cumplicidade com o letrista Tiago Torres da Silva levou a que surgissem letras como a de Noites de Assuão que deixam Né nervosa de cantar por serem tão reveladoras. “Estou a despir-me de mulheres que têm vindo a tecer aquela em que hoje me tornei”.

Musicalmente foi um concerto irrepreensível já que, para além de estar extremamente bem acompanhada pelo talento dos músicos Amadeu Magalhães, Diogo Passos e Ricardo Mingatos, a voz de Né Ladeiras mantém-se límpida como sempre a conhecemos. O tempo pode passar-lhe pelo corpo, mas a alma que tem na voz continua a mesma. A sua música é uma portuguesíssima música do mundo, que tanto vai beber às profundezas do nosso país rural, à nossa origem celta, sem depois se inibir de exibir urbanidade, e se lançar por rancheras mexicanas, passando pelo Brazil, pelo Médio Oriente e por onde mais lhe possa aprouver passar.

Ao fim desta viagem musical pelo universo tão interior mas tão abrangente de Né Ladeiras, sentimo-nos gratos pelo momento especial deste concerto. É uma artista e mulher num momento assumidamente adulto. Resta-nos a esperança de que possa levar este concerto pelo país e espalhar a sua música por aí, como é devido.

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