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Retalhos da história de um país

Texto: NUNO GALOPIM

Títulos fundamentais da filmografia de Sergei Eisenstein, que foram apresentados recentemente em cópias restauradas durante um ciclo dedicado ao cinema russo, estão agora reunidos numa caixa em DVD.

Foi depois de A Greve, a primeira longa-metragem do realizador, estreada em 1924, que Sergei Eisenstein, que tinha estudado arquitetura e engenharia, desviou a sua atenção dos espaços do teatro e do design onde iniciara a sua vida profissional. E fez dos seus segundo e terceiro filmes dois olhares sobre episódios marcantes da história da revolução russa.

O Couraçado Potemkine (1925) nasceu na verdade de um plano maior que procurava um retrato da revolução de 1905 contado em seis episódios, aos factos (com base em acontecimentos reais) associados à história da revolta de marinheiros que o filme recorda não cabendo originalmente senão 42 planos do filme. Contudo, ao chegar a Odessa para filmar uma das sequências desse segmento, Eisenstein deixou que a visão da escadaria que tinha pela sua frente o conduzisse a uma outra ideia para o filme que, assim, se fechou apenas em torno desse motim a bordo e das suas sequelas, uma vez chegados a terra.

O filme, no qual Eisenstein define uma linguagem visual e narrativa, na qual a beleza formal dos planos e toda uma carga de alusão e metáforas que algumas imagens comportam não desviam o foco narrativo do seu rumo, é um marco maior na história do cinema e um dos títulos mais influentes desse tempo. E, tal como voltaria a acontecer no seguinte Outubro (1928), faz dos acontecimentos o real protagonista, tomando o elenco como um corpo coletivo. Em sintonia com a ideologia vigente.

Em O Couraçado Potemkine começamos por ver como um grupo de marinheiros recusa comer a carne pejada de vermes que tem por ração, mesmo perante a hipócrita análise do médico que, imaginamos, não faz as refeições na mesma cantina (facto que faz do filme também um espelho da luta de classes). A carne estragada é a última gota que faz estalar um primeiro motim que, controlado, por pouco não acaba com o fuzilamento dos revoltosos já que, no momento em que se preparavam para disparar, os marinheiros são chamados por companheiros que os alertam para o que vão fazer… A ira volta-se contra os oficiais que são então lançados borda fora. Ao chegar a terra, os marinheiros, como a população que vem homenagear o seu líder, entretanto morto, são massacrados por um regimento de cossacos, que descendo a escadaria, impõem a ordem pela força numa das mais célebres sequências da história do cinema.

Outubro, nascido com o décimo aniversário da revolução pela frente, é um filme que nos transporta sobretudo aos bastidores da revolta bolchevique, em outubro de 1917. Vigiado pelo poder – Estaline mandou retirar as alusões a Trotsky – o filme consegue, pelo olhar poético da câmara sobre os rostos e gestos, contrariar o que poderia ter sido um mero exercício de propaganda, não fosse estar na cadeira do realizador um cineasta já ciente do que era a sua voz autoral.

Ora mergulhando em episódios quase do foro pedagógico – como a sequência onde ensina a montar uma espingarda – ora observando os rostos perante os factos e ideias que presenciam e escutam, Outubro não é claro na narrativa, resultando todo o seu percurso entre os bastidores da revolução num percurso que dificilmente poderá ser descodificado em pleno por alguém que desconheça em absoluto a história da revolução.

Mas é essa visão mais poética, em diálogo permanente com outros instantes essencialmente descritivos, usando o poder sugestivo das imagens em lugar das palavras (como o faz olhando a destruição e reconstrução da estátua do czar Alexandre III), que faz do filme um olhar único sobre aqueles acontecimentos. E mesmo exaltando o triunfo bolchevique, que derruba o governo provisório que se seguira à abdicação do czar, não faz de uma eventual meta de propaganda o seu objetivo único.


“O Couraçado Potemkine” (1925)


“Outubro” (1928)


“Alexandre Nevsky” (1938)

Seguiu-se um tempo de pausa na obra de Eisenstein. Não que não tivesse estado de braços cruzados, mas desde o projeto inacabado Que Viva México (que só foi revelado postumamente) ao complicado desfecho de O Lago Beijine, que chegou a valer ao realizador críticas oficiais e uma obrigação em se retratar publicamente, a década de 30 estava a ser demasiado silenciosa. Até que, e integrado no âmbito de um projeto de valorização de grandes ícones nacionais – numa altura em que surgiram filmes sobre Pedro I e Lenine – surge o desafio de criar um filme sobre a figura do príncipe Alexandre Nevsky. O contexto político explica a escolha, apontando a memória a um herói militar que ignorou uma ameaça mongol vinda de Leste para combater, a ocidente, os cavaleiros teutónicos. O paralelo com a crescente ameaça de uma Alemanha em remobilização (económica, militar e tecnológica) depois da chegada ao poder de Hitler, faria do filme uma celebração de valores patriotas, servindo o filme um perfeito discurso de propaganda.

Porém, ao invés do que nos havia mostrado em filmes anteriores centrados em episódios da revolução, a primeira grande diferença na criação de Alexandre Nevsky  (1938) revela-se na vontade de Eisenstein em explorar e destacar algumas personagens, deixando a mole coletiva para a massa humana que surge ao seu redor. Assim, além do herói, há entre a narrativa um plot secundário que olha de perto duas figuras em confronto, sobretudo durante a batalha. E, ao grande acontecimento histórico, aliam-se vivências. Afinal, falando mais de perto ao espectador.

O filme evoca factos reais, ocorridos no século XIII e é historicamente bem alicerçado por uma direção artística que cruza os ecos das formas de então com algumas sugestões recentes. Vale a pena reparar nas aproximações possíveis entre as linhas das armaduras dos cavaleiros teutónicos e os capacetes dos soldados alemães do século XX.

Magnificamente filmado, com enquadramentos que exibem o claro domínio de uma linguagem visual e narrativa muito particular (que Eisenstein tinha já alcançado em pleno n’O Couraçado de Potemkine), um uso sublime da luz e uma montagem que reforça a condução da história, Alexandre Nevesky teve na música um dos seus valores mais significativos.

Criada para a banda sonora do filme, a cantata homónima de Sergei Prokofiev (1891-1953) é um dos exemplos maiores da fértil história de bom relacionamento da música com o cinema. Da música, cuja gravação para o filme o próprio compositor acompanhou, usando técnicas de posicionamento de microfones com vista à obtenção de efeitos cénicos, Prokofiev criou depois uma cantata, que desde então tem conhecido diversas gravações e ainda hoje integra programas de concertos. O filme levou Prokovief a desenvolver uma série de soluções musicais com força descritiva, aplicando aos invasores germânicos uma tonalidade belicista sugerida pelos metais (gravados perto dos microfones no limiar da distorção), caracterizando depois os russos com melodias de inspiração folk.

O pacto de não agressão assinado por Estaline conduziu ao cancelamento da exibição do filme, arrancado da pós-produção ainda na fase de montagem do som (daí muita da sua falta de qualidade técnica). A mudança de relacionamento com os alemães depois da invasão de 1941 devolveu então o filme à vida. Ficámos todos a ganhar.


“Ivan, O Terrível” (1944/45)

A arte em tempo de regimes autocráticos vive como um pêndulo que acompanha o vaivém dos humores do grande líder. E na URSS de Estaline, a sua mordaça ora dava voz ora obrigava ao silêncio. Se a obra de Sergei Eisenstein tinha experimentado vida conturbada face ao olhar interventivo do poder sobre a arte, conheceu novamente a aclamação quando, com Alexandre Nevsky (1938) apresentou uma visão de um herói do século XIII que transpirava naturalmente ecos para um presente no qual a ameaça germânica pairava sobre solo russo. Obrigado a retirar-se para uma zona segura quando os alemães (apesar do pacto assinado antes) invadiram solo russo, Eisenstein teria de esperar até ao início do recuo da wehrmacht para avançar com um projeto que começou por estimular Estaline dadas as afinidades que este sentia para com a figura que o filme iria retratar mas que, acabaria por mostrar quão instável e frágil era afinal o aplauso do líder.

A ideia de Eisenstein era fazer a evocação da figura de Ivan IV, o primeiro príncipe de Moscovo a ser coroado czar e cujo reinado não só unificou o grande espaço russo como definiu, pelo poder do autocrata, vias de evolução face aos modelos políticos e sociais medievais que até ali imperavam. Apoiado por Estaline, com ordem para que não se olhasse a custos (tendo contudo de esperar pela suavização dos gastos do esforço de guerra para poder avançar), Ivan, O Terrível foi idealizado como um épico a ser contado em três filmes. O primeiro recordaria a tomada de poder pelo czar (e a sua afirmação como autocrata vitorioso). O segundo focaria as grandes conspirações dos boiardos. E o terceiro retrataria as lutas finais de Ivan…

Estreada no Teatro Bolshoi em 1944, com um Estaline a aplaudir vivamente na sala, a primeira parte de Ivan, O Terrível revelava ser uma súmula do que o cinema de Eisenstein já dera a conhecer, explorando as feições dos rostos das personagens, a luz (e sobretudo as sombras, que desenham visões subliminares sobre as figuras que as geram) e um trabalho de composição que tem talvez a sua expressão máxima na sequência em que populares vindos de Moscovo, como pequenas formigas num ziguezague sobre o manto branco da neve, se aproximam do palácio rural onde o czar se afastara, pedindo-lhe o regresso à capital. As imagens, assim como a banda sonora criada (uma vez mais) por Prokofiev, juntavam-se a uma narrativa clara, arrumada, ciente de que havia um protagonista a seguir, mas atenta à construção de personagens ao seu redor, criando uma rede de relações e acontecimentos que sublinham afinal os passos daquele que a câmara contempla com admiração maior.

Quando chegou a segunda parte, que inclui outro espantoso exercício de composição na sequência passada na corte polaca, tudo mudou. A figura de Ivan evolui do autocrata em construção para o ser de contrastes e contradições, de amores e ódios, que na verdade correspondem ao Ivan real mas que, talvez de tão próximos com o grande líder Estaline, o levaram a vetar a exibição do filme, que assim ficou impossibilitado de ser mostrado publicamente, cancelando também a rodagem da terceira parte que, assim, ficou por fazer deixando o projeto incompleto. Esta parte dois só seria finalmente exibida em 1958, já depois da morte de Estaline e dez anos volvidos sobre o desaparecimento do próprio Eisenstein. Vê-la, hoje em dia, representa, além de um episódio de contemplação sobre um dos maiores filmes de todos os tempos, uma vitória sobre o poder dos autocratas (que, na verdade, a história e o tempo acabam sempre por derrotar).

Estes quatro filmes surgem agora editados em DVD, em edições que os apresentam nas cópias restauradas apresentadas no ciclo dedicado ao cinema russo e juntam, como extras, apresentações de alguns destes títulos. José Milhazes e Salvato Teles de Menezes falam sobre Alexandre Nevsky, Irene Pimentel e Salomé Lamas sobre Outubro e Naum Kleiman sobre a obra de Eisenstein em geral.

A caixa de 5 DVD “Sergei Eisenstein”, incluindo os filmes “Outubro”, “O Couraçado Potemkine”, “Alexandre Nevsky” e as duas partes de “Ivan, O Terrível”, foi editada pela Leopardo Filmes.

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