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“The Rainbow Children”: entre a fé e o gosto pelo jazz

Texto: NUNO GALOPIM

O primeiro álbum de Prince após a viragem do século revelou o seu mais evidente mergulho entre territórios jazzísticos, num disco concetual através do qual o músico expressava sobretudo a fé que então encontrara e pela qual estava a mudar toda uma ética de vida.

Ao contrário do que imaginara, o álbum Rave Un2 The Joy Fantastic não reativou a relação de Prince com o grande mercado que outrora dele tinha feito um criador de discos de sucesso. Foi mesmo assim um dos discos mais elogiados entre aqueles que editou na segunda metade dos anos 90 e teve depois uma versão remisturada editada sob o título Rave In2 the Joy Fantastic. Só não teve um sucessor imediato ao ritmo do que era então habitual nas rotinas discográficas de Prince. O que não quer dizer que não estivesse já a trabalhar num passo seguinte.

Na verdade havia um projeto em marcha, do qual deu a escutar alguns temas em sessões de audição em Paisley Park integradas em programas para os elementos do clube de fãs que entretanto ganhara nova dinâmica e começava a ganhar importante expressão, sobretudo na internet.

As novas canções, que editaria em 2001 sob o título The Rainbow Children – precisamente o mesmo nome usado num desses programas de abertura de portas aos elementos do clube de fãs -, mostravam em primeiro lugar uma expressão mais evidente do que nunca de uma devoção religiosa na lírica de Prince. Já havia, de discos anteriores, diversas manifestações de religiosidade claramente patentes nas suas canções. Mas a viragem do século coincide com uma etapa de mais profundo relacionamento de Prince com valores religiosos, o que teria impacte evidente não apenas nas novas composições qua ia apresentando mas também no modo como parecia interessando em reescrever peças de um passado que então transformava por linhas de um revisionismo beato que antes poucos poderiam imaginar.

Ao contrário dessas novas visões sob canções de outrora, o álbum The Rainbow Children nasceu claramente definido sob uma ética talhada em consonância com a fé e a moral pela qual Prince desenhava agora os seus dias, ações… e canções. Tematicamente define, sob uma lógica concetual, uma visão sobre questões como a espiritualidade, o racismo, a sexualidade, o amor, usando técnicas narrativas (que usam inclusivamente a criação de personagens e de um culto) para juntar as canções como parte de um todo no qual a sua crença religiosa é um dado estrutural central.

Musicalmente o disco procurava levar mais adiante as sugestões jazzy que as gravações reunidas recentemente em The Vault pareciam sugerir como caminho a explorar mais profundamente. E na verdade acaba por emergir aqui o álbum mais jazzístico de toda a discografia de Prince, definido num jogo de relações e diálogos que permite também a presença das marcas mais habituais na sua música.

O álbum assinalou o regresso às edições de novas gravações de estúdio sob o nome de Prince, arrumando assim definitivamente na memória dos anos 90 os devaneios por outros nomes que tinham causado afinal mais ruído do que ajuda à sua música. Precedido pelo single The Work, pt. 1 (que teve um primeiro lançamento via Napster antes mesmo de uma edição “física” mais convencional em CD single), The Rainbow Children não levou Prince a experimentar novo episódio de relacionamento com uma grande editora. Assim, e ao invés do que sucedera com Rave Un2 The Joy Fantastic, o disco teve apenas edição pela NPG Records, contando com uma distribuição pela Redline Entertainment. Conseguiu números aceitáveis de vendas, sem contudo retomar valores de outros tempos.

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