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Os dez melhores discos de 2016

Estes foram os dez melhores álbuns de 2016, segundo o voto coletivo da equipa da Máquina de Escrever. Uma a uma aqui vão surgir ao longo dos próximos dias, em contagem decrescente. E no número 1 está…

Estes foram os dez discos mais votadas pela equipa da Máquina de Escrever. O método foi simples, pedindo a cada um que integra a equipa, independentemente das águas em que habitualmente navegue, e desafiando também aqueles que, convidados, assinaram pontualmente textos este ano, que escolhesse os seus álbuns favoritos do ano, da soma das votações surgindo esta lista de dez que agora apresentamos.

1. David Bowie “Blackstar”
(ISO Records)

Começámos a descobrir Blackstar (o correto seria escrever ★ ) ainda em finais de 2014 quando, como sinal de vida ativa num momento em que lançava uma antologia que cobria 50 anos de carreira, David Bowie se juntou à orquestra de Maria Schneider para gravar duas novas canções que desafiavam a lógica habitual de tempo da canção pop, procurando formas de diálogo entre a sua linguagem e ecos do jazz para nos dar algo de completamente diferente em Sue (or in a Season of Crime) e ‘Tis a Pity She’s a Whore. Depois, em finais de 2015, surgia o assombroso tema-título. E, em cima do ano novo, o assombrado Lazarus (que ainda não imaginávamos o que realmente nos contava). Blackstar, com apenas sete canções – entre as quais duas regravações consideravelmente diferentes das reveladas em 2014, com Donny McCaslin a gravar as partes de saxofone, que no single tinham sido registadas por Bowie, revela de facto uma pulsão experimental como Bowie levou já a vários momentos da sua obra mas que não se manifestara tão evidente nem mesmo em 1.Outside (de 1995). É contudo um álbum que encontra formas de levar todo este conjunto de novos ensaios e ideias (e entre os quais os elementos jazzy vão em busca de Bowie e não o contrário, como se escuta em I Can’t Give Anyhting Away) a um terreno de relativa acessibilidade (Girl Loves Me é quase Bowie vintage e Dollar Days, se não fosse o arranjo com o saxofone em evidência, poderia ter surgido nos seus dois primeiros discos pós-milénio), as presenças algo fantasmáticas de ecos do passado somando-se à voz de Bowie e a um melodismo do qual não prescinde para, em conjunto, criar o disco talvez mais afastado dos cânones pop/rock que alguma vez nos mostrou. Gravado com uma nova banda, chamando alguns convidados a estúdio (entre eles James Murphy) e voltando a desafiar Tony Visconti para produzir o disco, Blackstar é um dos melhores discos da obra de David Bowie. Não podia ter criado um melhor ponto final. – Nuno Galopim

2. Nick Cave and The Bad Seeds, “Skeleton Tree”
(Bad Seeds Ltd.)

Já todos sabemos da história deste álbum: Nick Cave perdeu o filho Arthur, no verão de 2015, na cidade de Brighton e expiou essa dor num processo lento que ficou registado em filme e disco. Skeleton Tree é o resultado dessa dor, que nos convida a ouvir de forma direta ou numa linguagem metafórica.
Há um espanto permanente em cada uma das canções deste Skeleton Tree, lançado em setembro, um sobressalto indizível — seja em Jesus Alone ou I Need You, como também em Magneto ou Girl In Amber, opus magníficos em qualquer lista de canções do ano.
Este 16º álbum assinado como Nick Cave and The Bad Seeds vive naturalmente da escrita de Nick (que já teria escrito algumas canções antes da morte do filho) mas também da direção musical de Warren Ellis, que faz respirar cada nota e cada palavra das composições e da interpretação dos Bad Seeds, em que a dor e a tristeza são resgatadas por uma orquestração cuidada, temperada e luminosa. O documentário One More Time With Feeling, que acompanhou o tempo da gravação de Skeleton Tree ou os videoclips das canções traduzem na perfeição: o ar de Cave é soturno, a voz grave, as palavras pesadas; Ellis suspenso nos seus gestos a dirigir as sessões de estúdio; e os Bad Seeds quase ascéticos a interpretarem os temas.
Depois, quando entramos no penúltimo sopro do mais recente álbum Nick Cave and The Bad Seeds, Distant Sky, somos arrebatados por uma polifonia de afetos, a duas vozes (à de Cave junta-se a da soprano dinamarquesa Else Torp), num diálogo de companheiros feridos. E em que a vida assoma vestida de esperança aos nossos ouvidos… “Let us go now, my only companion/ Set out for the distant skies/ Soon the children will be rising, will be rising/ This is not for our eyes”.
A canção-título a fechar o álbum é mais um capítulo de esperança, uma balada em que Cave é pródigo, sem com isso beliscar a qualidade de um álbum já inscrito no cânone caveano — e definitivamente no de 2016. – Miguel Marujo

3. “Hoplessness”, de Anohni
(Rough Trade)

Este é o primeiro álbum que Anohni assina a título individual, coincidindo com uma fuga face à sonoridade na qual a sua obra enquanto elemento chave de Antony and the Johnsons, se distinguiu. Afastado do piano clássico e de momentos orquestrais, Hoplessness testemunha um novo fulgor para o ímpeto criativo de uma figura que desde 2010 parecia restringir-se opacamente às mesmas formas de escrita. Coproduzido por Hudson Mohawke e Daniel Lopatin, o disco prolifera junto de camadas e paisagens eletrónicas, ricas em sintetizadores e percussão digital. É precisamente por entre a descoberta de uma qualidade de escrita independente dos instrumentos que a acompanhem, que as palavras vão mais além. É um trabalho político e sim, interventivo. Abordando o ecocídio, a vigilância governamental, a pena de morte, o contexto político americano e os ataques feitos com drones, estes são temas sobre os quais Anohni já se expressara no passado, mas que se veem aqui cristalizados na forma de um disco camuflado como algo dançável, que ainda assim preserva a emoção de um repertório anterior, aplicada aqui à urgência exigida pelo momento atual. – André Lopes

4. Radiohead, “A Moon Shaped Pool”
(XL Recordings)

É fácil recordar a recente fase dos Radiohead na qual se fizeram ouvir da forma realmente livre por via do abstrato The King of Limbs (2011) e de uma digressão onde no palco a vontade de improvisar superava o propósito de apresentar canções. Face a essa circunstância, A Moon Shaped Pool vale o dobro, já que por aqui se escutam canções trabalhadas anteriormente, mas que num alinhamento de 11 faixas ganham nexo e propósito. Poucos são os singles que aqui existem com potencial comercial e o modo como tal nem se aproxima de uma desvantagem diz muito sobre o estatuto que os Radiohead conseguiram para si – de facto, é por via da plenitude audível em Decks Dark ou do frenesim de graves de Full Stop que nos recordamos que a música pop nasce da vontade de entreter. Os Radiohead fazem-no em A Moon Shaped Pool de forma astuta. Será possivelmente o álbum mais estimulante da banda inglesa desde o icónico Kid A (2000) e talvez seja essa mesmo uma prova de que a vitalidade dos Radiohead está ainda por se esgotar. – André Lopes

5.PJ Harvey, “The Hope Six Demolition Project”
(Universal)

2016 trouxe-nos o álbum politico de PJ Harvey. A escrita das canções que integrariam The Hope Six Demolition Project iniciou-se quando acompanhou o fotógrafo Seamus Murphy em viagens ao Kosovo, Afeganistão e a Washington, nas quais testemunhou os efeitos reais da guerra, dos jogos de poder e da pobreza. Um projecto escrito no terreno, motivado pela vontade de sentir o mundo recusando o filtro dos media que nos oferecem diariamente versões condicionadas da realidade.
Não se trata no entanto um disco miserabilista mas antes um conjunto de temas centrado num espírito de reconstrução e sobrevivência. Canções como o étereo River Anacostia, a espiritualidade de Wade In the Water, ou a folk em Near the Memorials of Vietnam and Lincoln marcam um álbum de pendor jornalístico de uma PJ Harvey hoje menos preocupada com as inquietações interiores (que no passado tanto motivaram a sua escrita) e mais centrada na urgência em mudar o mundo que a rodeia (“I believe we have a future to do something good” diz-nos em A Line in the Sand.) Fica também a recordação de dois concertos em Portugal durante a promoção deste álbum: uma noite sublime no NOS Primavera Sound – porventura o grande concerto do festival – e mais recentemente uma passagem electrizante pelo Coliseu dos Recreios em Lisboa. – João Pascoal

6. Angel Olsen “My Woman”
(Jagjagwar)

E eis que, subitamente, a menina se fez mulher. Burn You Fire For No Witness (2014) tinha servido já como ponto de viragem do percurso, no qual Angel Olsen se distanciou amiúde do registo puramente folk com que vestiu os seus dois primeiros álbuns (e nos quais se escutavam os ecos de Joni Mitchell ou Vashti Bunian na sua fase mais sombria, ainda que revestidos de voz própria) e mergulhou de cabeça em território rock, indo sorver a eletricidade e a sensibilidade pop a nomes como PJ Harvey ou, Sharon Van Etten, e vertendo-as nas suas canções. My Woman, o seu quarto registo, é uma declaração de amor-próprio que cimenta a afirmação não apenas duma voz, mas sobretudo do seu espaço de criação. É um disco de dez faixas irmãmente dividido em duas parcelas desiguais de um mesmo universo, de uma coerência tão surpreendente quanto assinalável. Nele, Angel Olsen olha-se de dois lados do mesmo espelho e apresenta-se ao mundo como projeção do que ele reflete. O lado A funciona como território de extravase e experimentação, de descoberta de lugares novos e, também, aprimoramento de outros mais ou menos conhecidos. Uma prova de força e confiança interior, que se projeta numa realidade nem sempre risonha. Por seu turno, a segunda face do álbum apresenta-nos Olsen sentada à luz da vela, num tom mais intimista e desnudo, em que a guitarra acústica ganha preponderância e a as palavras de amor e desapontamento, numa espécie de ciclo sem fim, sugerem um testemunho pela experiência – como se já tivesse vivido toda uma outra vida e conhecido toda a matéria, doce e vil, que compõe o mundo e voltasse agora para nos contar ao ouvido. – Ivan Coelho

7. C Duncan, “The Midnight Sun”
(FatCat)

Um ano depois de uma estreia surpreendente, o segundo álbum de C Duncan mergulha na noite, nas eletrónicas e na cidade, revelando novas possibilidades para uma linguagem com identidade já bem demarcada. The Midnight Sun é um disco mais sombrio (o título desde logo sugere-o), mais pessoal (ou seja, mais íntimo), e ainda mais atento aos diálogos entre a o trabalho de composição e o detalhe na produção. As marcas luminosas de vivências folk que, em Architect, se cruzavam com paisagens sonoras de vivência urbana, cedem aqui lugar a uma mais evidente presença das eletrónicas que, com travo noturno, dominam a construção de cenografias que não fecham a porta a outros instrumentos, criando novamente as telas sobre as quais um trabalho de vocalização frágil (e pensado em camadas) volta a ser um valor maior na demarcação de uma identidade artística. C Duncan fala-nos desta vez de memórias, muitas delas de perto, algumas mais distantes outras mais próximas. E, em sintonia com as narrativas, os cenários servem a construção de um espaço que, mais ainda do que no álbum de estreia, aqui define um corpo coeso e consequente. Se nem só do realismo vive a capacidade de falar do real no cinema, a obra (em construção) de C Duncan é já expressão de uma possível transposição para a música dessa mesma reflexão. – N.G.

8. Pet Shop Boys, “Super”
(X2)

Neil Tennant e Chris Lowe são uma instituição que há muito não precisa de qualquer tipo de apresentação. Três anos depois de Electric, um pouco deixado nas sombras, os Pet Shop Boys regressaram este ano com Super, contando novamente com a produção de Stuart Price para a continuação de uma suposta trilogia. E se os revivalismos estão de volta em força, o single The Pop Kids acompanha-nos em viagem pela club scene londrina onde a house reina, enquanto Inner Sanctum revela um bom exemplo da harmonia entre o techno e o trance dos anos noventa. De Groovy, só o nome fala por si: dá-nos uma versão moderna do disco dos setentas. Num tempo em que o EDM toma conta das rádios, a nostalgia da pop e da club scene de passadas décadas está a ser cada vez mais revisitada e bafejada por uma brisa fresca, sendo este álbum dos Pet Shop Boys, o seu décimo terceiro de originais em estúdio, um super manifesto com crítica positiva e a ter em conta. – Francisco Gonçalves Silva

9. Solange, “A Seat at the Table”
(Saint Records)

A promessa já estava feita em True, o aclamado EP que lançou em 2012, numa sinergia artística de forças com o produtor Dev Hynes (Blood Orange), mas foi com A Seat At The Table, disco de originais de Solange lançado este ano, que a norte-americana estampou a sua própria sonoridade e moldou o seu
espaço no panorama musical. São valores destacados pela sua característica voz doce ou pela estética cuidada e diferenciadora que se vê nos novos telediscos de Cranes In The Sky ou Dont Touch My Air, este último tema em parceria com Sampha, e que a distinguem face à maioria das cantoras da atualidade. Não é de estranhar que o disco tenha começado a ser escrito em 2008. Como se de qualquer boa refeição se tratasse, o tempo ajudou Solange a apurar e a amadurecer a forma de transmitir as principais ideias do álbum – a dor, a alegria, o legado, as conquistas e as dificuldades da comunidade negra. Esse é, curiosamente, também um dos temas dorsais no último disco de Beyoncé. Mas com A Seat At The Table, o seu primeiro longa-duração a atingir o primeiro lugar de vendas nos EUA, o caminho está feito para que Solange deixe de ser vista apenas como “a irmã mais nova” da cantora de Lemonade. – Nuno Cardoso

10. The 1975, “I like it when you sleep, for you are so beautiful yet so unaware of it”
(Universal)

Recentemente a NME elegeu o segundo de estúdio dos britânicos The 1975, I like it when you sleep, for you are so beautiful yet so unaware of it, como o melhor álbum do ano. Paradoxalmente, há dois anos a mesma publicação elegeu-os como a pior banda desse ano. Esta incoerência acaba por ressoar no próprio espírito do coletivo. Acredito honestamente que seja impossível descodificar com precisão os The 1975 e este segundo disco só adensa o quão intrigantes são. Há quem os veja “apenas” como uma versão dos INXS para antigos fãs dos One Direction. Referência clara ao single Love Me, o primeiro tema retirado deste álbum, que também pisca o olho aos Duran Duran e a David Bowie (fase Fame). E no entanto, essa canção por si só acaba por representar 1/10 de tudo o que acontece nas canções dos The 1975. Aliás, quem os conhece apenas pelos singles poderá ter uma imagem muito redutora. Isto é a banda que num só disco conseguem criar uma canção – Paris – que podia ter nascido das cinzas do Tango in the Night, dos Fleetwood Mac, ou compor uma balada gospel – If I Believe You – que mostra que D’Angelo é uma das suas referências, ao mesmo tempo que divagam por memórias dos My Bloody Valentine – em Lostmyhead – ou que voltam a relacionar-se profundamente com a música dos Blue Nile – em Please Be Naked. E ainda há o hino house pop de The Sound, o solo de saxofone glorioso de This Must Be My Dream, que descarta quaisquer noções elitistas de bom/mau gosto, ou a balada final – She Lays Down – que não destoaria nos Big Star. Surpreendentemente conseguem unir todas estas pontas sem nunca soarem a uma banda de retalhos, sendo notória uma sensibilidade musical muito característica, em todas as suas contradições. – João Moço

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1 Comment on Os dez melhores discos de 2016

  1. Gostei da vossa lista mas optaria por outras escolhas no lugar dos Pet Shop Boys, The 1975 e C Ducan.

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