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Os dez melhores filmes de 2016

Estes foram os dez melhores filmes de 2016, segundo o voto coletivo da equipa da Máquina de Escrever. Uma a uma aqui vão surgir ao longo dos próximos dias, em contagem decrescente. E no número 1 está…

Estes foram os dez filmes mais votadas pela equipa da Máquina de Escrever. O método foi simples, pedindo a cada um que integra a equipa, independentemente das águas em que habitualmente navegue, e desafiando também aqueles que, convidados, assinaram pontualmente textos este ano, que escolhesse os seus filmes favoritas do ano, da soma das votações surgindo esta lista de dez que agora apresentamos.

1. “O Primeiro Encontro”, de Denis Villeneuve
(Big Picture)

O Primeiro Encontro surgiu nos cinemas como os ovnis aparecem nos quintais do mundo: ninguém estava à espera disto. O realizador canadiano Denis Villeneuve já nos tinha dado filmes bem alicerçados nas suas personagens mas, com a ajuda da boa prestação de Amy Adams, fez em O Primeiro Encontro uma entrada fulgurante nos terrenos da ficção científica e deu-nos um dos grandes filmes do ano. A linguística sustém que cada nova língua que aprendemos nos permite compreender o mundo de um modo diferente e nos modifica os processos mentais. O que aconteceria então se os humanos aprendessem uma língua alienígena? Estamos tão pouco habituados a que das produções de Hollywood nos venha ficção científica com a devida dose de ciência que é ainda mais espantoso que apareça um filme capaz de pegar num conceito das ciências humanas e transformá-lo num thriller que ainda por cima consegue ser inteligente, sensível e interventivamente político. – Daniel Barradas

2. “O Filho de Saul”, de László Nemes
(Midas Filmes)

Não precisamos ver nem ouvir e muito menos ter explicações maiores para sabermos onde estamos… Auschwitz-Birkenau, no outono de 1944, numa altura de funcionamento do campo em pico de atividade num tempo em que ali chegavam, uns atrás dos outros, comboios com milhares de judeus húngaros. Mais de 400 mil seriam ali gaseados em poucos meses. Mas estas são informações que conhecemos, porque antes as lemos em livros e vimos mais filmes sobre o tema. O Filho de Saul não nos conta mais do que vemos nas imagens e dos sons que, violenta e continuamente, constroem um ruído de medo e morte que acompanha o que vemos do início ao fim. László Nemes começou a trabalhar a ideia para este filme quando integrava a equipa de Béla Tarr que então rodava O Homem de Londres. Foi então que tomou conhecimento de um conjunto de testemunhos de sonderkommando (que frequentemente eram mortos e trocados a cada três meses), dessas memórias emergindo a ideia de um filme que acompanha dia e meio na vida de um deles, na iminência de uma revolta que de facto aconteceu e inutilizou o Crematório 4 de Aushwitz-Birkenau (que será, assim, o local onde o filme nos mergulha). Apresentado e premiado em Cannes – com o Grande Prémio e o FIPRESCI – em 2015, ou seja, no ano em que se assinalavam as sete décadas sobre a libertação da maioria dos campos de concentração, O Filho de Saul representa uma das mais impressionantes experiências de abordagem do universo do cinema à memória do Holocausto. Tão imersiva quanto a ficção pode afinal permitir. – N.G.

3. “Love Is Strange – O Amor É Uma Coisa Estranha”, de Ira Sachs
(Midas Filmes)

John Lithgow e Alfred Molina interpretam Ben e George, um casal nova-iorquino que já ultrapassou a meia-idade e que, quando decide selar pelo casamento uma união de quase 40 anos, se vê numa situação inesperada e delicada. Afastado do seu lugar de professor de música numa escola católica por oficializar um amor que era “tolerado” enquanto foi tacitamente vivido, George vê-se obrigado a vender o apartamento de ambos e a pedir “asilo” em casa de amigos e familiares, o que resulta na sua separação por sítios diferentes. O estilo realista e natural dos desempenhos, desde logo os de Lithgow e Molina (que têm aqui os seus melhores papéis em anos), aliado a um tom contido, sóbrio e subtil, faz de Love Is Strange um retrato verídico e complexo de um casal cuja sobrevivência é posta à prova pela separação física, mas que de certo modo acaba mais unido pelos reveses da fortuna, embora também transformado na sua essência. O amor é mesmo um lugar estranho, e, quanto mais tempo nele permanecemos, talvez mais estranhos também nos tornemos. E, no crepúsculo da vida, pelo menos para Ben, resta a memória viva e ainda presente do amor possível em tempos em que todas as conquistas e progressos parecem garantidos e realizados, mas em que falta ainda, em vários aspetos, fazer a maior revolução de todas: a mudança interior e o alvor definitivo de um tempo que seja realmente novo. – Nuno Carvalho

4. “Os Oito Odiados”, de Quentin Tarantino
(Pris Audiovisuais)

Quentin Tarantino regressa em grande com um western singular, simultaneamente moderno e arcaico, rigoroso e excêntrico, grotesco e poético. Cheio de pormenores ligados à mitologia do seu cinema, Os Oito Odiados não é só “mais uma” história de vingança, sangue e tripas, nem uma “homenagem” cartoonesca e cool a certas influências cinéfilas. Quase confinado a um único espaço cénico, o filme é construído com uma elegância suja, em que o extremo tarantinesco da violência e do palavreado ganha uma pujança meio desaparecida entre os seus últimos filmes (com exceção de Sacanas Sem Lei). Desde a galeria de formidáveis atores até ao toque magistral da música de Morricone, passando pela recuperação de um lado técnico do espetáculo do cinema há muito desaparecido entre nós, existem muitas coisas para descobrir em vários visionamentos deste Os Oito Odiados. As reações de uma parte da crítica internacional foram pouco amistosas, mas creio que este é o melhor filme de Tarantino desde Pulp Fiction. – Rui Alves de Sousa

5. “Nostalgia da Luz”, de Patricio Guzmán
(Midas Filmes)

O deserto de Atacama, no Chile, é o cenário desta busca pela luz, a do passado que ilumina o presente, esse momento que existe apenas como um flash e logo se torna história ou memória, isto se não cair logo no esquecimento. Um lugar extenso, de 1000 km, é o deserto mais alto e mais seco do mundo. O seu solo pode comparar-se em aridez ao de Marte. É aqui que se situam diversos observatórios astronómicos, onde debaixo do céu límpido, os cientistas olham para os astros em busca de respostas para perguntas antigas. É uma busca que Guzmán ouve com atenção, em depoimentos articulados de vozes apaixonadas pelo que fazem. Mas a consciência do realizador, e a sua narração sábia e emocionada, vão guiar os nossos olhares da imensidão do espaço de volta à terra, e ao passado do Chile, que tem como testemunha quase insondável este deserto. Vítima de uma brutal ditadura entre 1973 e 1990, este país viu desaparecer muitos dos seus, alguns sem deixar rasto. Da odisseia no espaço para a odisseia na história e na memória, o filme de Guzmán é uma tentativa de resgatar o que se pode ao esquecimento, consciente da importância da memória nas nossas frágeis vidas humanas, pois como se chega a dizer já quase no final, “aqueles sem memória não vivem em parte alguma”. Enquanto os astrónomos olham para cima, para a vastidão do espaço, um grupo de mulheres vasculha o deserto em busca de vestígios dos familiares que lhes foram tirados pelo regime opressivo de Pinochet. Procuram dias inteiros nas areias e rochas por objectos e ossadas, que lhes tragam o consolo que outros procuram entre as estrelas. Impossibilitadas de esquecer, olham para o deserto à procura de respostas, desejando telescópios como os que permitem aos cientistas perscrutar o universo. É o testemunho mais forte da defesa de Guzmán, mas há outros quase tão poderosos no filme. Nostalgia da Luz é um possante manifesto humanista, de vasto impacto emocional e de ideias fortes articuladas de forma simples. Demorou a chegar às nossas salas, mas para o bem deste ano de cinema, chegou. – Diogo Seno

6. “Carol”, de Todd Haynes
(NOS)

O terceiro filme situado nos anos 50 do realizador norte-americano Todd Haynes (o mesmo que nos presenteou com Far From Heaven e a mini-série Mildred Pierce) adapta ao écran o muito elogiado romance The Price of Salt de Patricia Highsmith. No seu centro estão Therese (Rooney Mara) e Carol (Cate Blanchett) cujo primeiro encontro casual numa Nova Iorque em vésperas de Natal é de imediato uma ode à inevitabilidade do amor (e um piscar de olho a Brief Encounter, de David Lean, uma referência assumida). A partir daquele momento aquelas mulheres de considerável diferença de idade, inseridas numa sociedade conservadora e portanto definidas pelos homens à sua volta, passam a ser definidas pelo desejo irreprimível que as atrai. As suas acções e gestos passam a ser conduzidos em função de uma crescente união entre si, com Therese a distanciar-se do namorado, e Carol do marido e família, ambas agindo ao contrário daquilo que a sociedade lhes pede. Como muitos poucos outros filmes, o (e)feito esmagador de Carol está em traduzir para imagens em movimento o sentimento de nos apaixonarmos intensamente, sem possibilidade de regresso. Filmado num belíssimo e granuloso 16mm, a muitas vezes câmera subjectiva do director de fotografia Ed Lachman não só tão bem nos faz viajar atrás no tempo como nos faz participar, quase sensorialmente, no processo de adoração e deslumbramento de Therese por Carol. Todd Haynes assina um minucioso coming of age que é também um monumento de celebração da vida privada de duas mulheres, apesar do “crime” que tal representa. Um dos maiores filmes românticos da década, senão de sempre. – Ana David

7. “Tangerine”, de Sean S. Baker
(Films4You)

Tangerine, de Sean S. Baker, é um objecto singularíssimo no panorama cinematográfico contemporâneo. Não só por ter sido filmado somente com um iPhone 5s, o que certamente contribuiu para o seu ritmo alucinante, mas em grande parte pelo retrato cru e íntimo de uma Los Angeles suburbana. O espectador é guiado pelas ruas marginais desta cidade enquanto o sol ofusca a vista por duas mulheres transgénero afro-americanas que são interpretadas por duas mulheres transgénero afro-americanas. Um ponto importantíssimo de realçar e de louvar, quando ainda se aplaudem filmes que só contribuem para a caricatura e a representação desviada das mulheres transgénero como Dallas Buyers Club, de Jean-Marc Vallée, ou The Danish Girl, de Tom Hooper. Tangerine é uma comédia algo tumultuosa no seu ritmo, uma vertigem que é vivida por estas duas mulheres quando se encontram depois de uma delas ter acabado de sair da prisão. Mas essa vivência marginal e a identidade destas mulheres nunca servem de gatilho humorístico, o espectador não se ri nem delas nem da natureza dos seus actos, mesmo quando a sátira é auto-infligida, conseguindo Sean S. Baker e as atrizes Kitana Kiki Rodriguez e Mya Taylor traçar uma história galopante mas muito emotiva sobre a intimidade da amizade e todas as convulsões internas e também sociais que isso acarreta. – João Moço

8. “Cartas da Guerra”, de Ivo M. Ferreira
(O Som e a Fúria)

A história é a de António. Mas podia ser a de muitos outros portugueses que, como ele, também viram as suas juventudes interrompidas por uma ordem de cumprir o serviço militar. Que não era uma mera recruta, mas antes uma longa temporada inevitavelmente passada num dos cenários nos quais então se combatia em África. Médico, é enviado para uma zona no leste de Angola onde a placidez das paisagens contrastava com o clima que então ali se vivia. É por ali que vai caminhar, passando por vários aquartelamentos, apercebendo-se de outra forma das realidades em jogo, acabando (como sucedeu ali com tantos outros seus contemporâneos) por criar também uma consciência política. Rodado em Angola, Cartas da Guerra, de Ivo Ferreira, parte de memórias reais, já que toma como matéria prima que define a alma do filme o que lemos em D’este viver aqui neste papel descripto: Cartas da guerra, de António Lobo Antunes. A troca de cartas, que cruza o filme, junta às imagens e situações a dimensão reflexiva que nos faz acompanhar o processo de gradual evolução da consciência do protagonista perante os factos que ali o rodeiam. Estreado em fevereiro em Berlim, o filme foi o candidato português para a categoria de Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 2017. – N.G.

9. “Animais Noturnos”, de Tom Ford
(NOS)

Tal como acontecera em Um Homem Singular (baseado no romance homónimo de Christopher Isherwood), a estreia na realização de Tom Ford, há novamente aqui um livro no principio de tudo. Trata-se de Tony and Susan, de Austin Wright, que nos conta a história de uma mulher que recebe um romance escrito pelo ex-marido e no qual se narra os acontecimentos que envolvem uma família abordada numa estrada, a meio da noite, por três homens e toda uma espiral trágica se se sucede, sugerindo à leitora ecos das memórias que guarda daquele que escreve as palavras que agora tem pela sua frente. Se, na essência, Animais Noturnos é um filme sobre livros, leitores e escritores, no seu âmago é também, e além das leituras sobre relações humanas que as tramas que evoluem em paralelo sugerem, um acutilante retrato crítico do universo da arte contemporânea, do mundo das galerias, dos museus e de quem por ali trabalha (cabendo a essas sequências alguns momentos de absoluto deslumbramento visual, mas que nos alertam que o arregalar do olho não deve toldar a nossa visão sobre as coisas). Há uma dimensão herdada de um Douglas Sirk no registo melodramático dos planos que envolvem o presente e as memórias pessoais. E, depois, um mais sujo e suado registo de road movie quando somos mergulhados na história que o livro guarda em si. – N.G.

10. “O Abraço da Serpente”, de Ciro Guerra
(Alambique)

Continuando a explorar o filão que já deu origem a algumas joias da literatura e do cinema, de Joseph Conrad a Werner Herzog e John Boorman, o colombiano Ciro Guerra dá em O Abraço da Serpente um contributo interessante para a “estatuária” cinemática que aposta no tema “primitivo” das viagens existenciais com sabor etnográfico e com apelo estetizante. Vagamente inspirado nas aventuras de dois exploradores que existiram na vida real, Theodor Koch-Grünberg e Richard Evans Schultes, O Abraço da Serpente divide-se em dois tempos distintos, entre 1909 e 1940, e acompanha primeiramente a jornada de Theodor (Jan Bijvoet) na selva amazónica em busca de uma planta rara para curar uma doença tropical e o encontro deste com Karamakate (Nilbio Torres), um índio xamã e último sobrevivente da sua tribo que o ajudará nessa demanda. Trinta anos depois, seguimos Evans, um botânico norte-americano que, movido pelos diários de Theodor e pelos seus interesses científicos em etnobotânica, procura também a planta rara com a ajuda de um Karamakate (agora interpretado por Antonio Bolívar) já velho e em busca de uma religação a si mesmo. A personagem deste xamã e curador ferido é o centro de onde irradia o tom melancólico e triste do filme (desde logo expresso no preto e branco da fotografia, que traduz uma disposição anímica encinzada). O Abraço da Serpente foi o primeiro filme colombiano a ser nomeado para o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro. – N.C.

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