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Boa música de 2016, por Daniel Barradas

Texto: DANIEL BARRADAS

Já é certo que nos vamos todos lembrar de 2016 como um ano mau, mas a verdade é que a colheita musical do ano foi extremamente rica. Vou então pôr momentaneamente umas palas nos olhos para olhar só para as minhas ‘playlists’ e poder dizer que foi um belíssimo ano.

Elza Soares

As listas e tops de fim de ano causam-me uma angústia do tipo “Escolha de Sofia”: não me consigo limitar a números redondos, e pôr uns acima dos outros seria tarefa com resultados diferentes a cada dia. Mas se há uma função útil nos resumos do ano é a de levar os leitores a descobrir algo que eventualmente tenha passado ao largo das suas atenções. Permitam-me então que vos trate mais como amigos e simplesmente vos recomende e dê a descobrir algumas coisas menos óbvias, que talvez não cheguem às listas do melhor do ano mas que me agradaram particularmente enquanto consumidor ávido de música.

OS SÉNIORES
Christophe – “Les vestiges du chaos”
Elza Soares – “A mulher do fim do mundo”

Para um ano que nos levou tantos dos grandes da música, também foi um ano nos deu uma invulgar quantidade de bons álbuns de veteranos: Bowie, Leonard Cohen, Paul Simon, Elton John, Sting, Kate Bush (ao vivo, mas qualquer coisa dela conta), Nick Cave, Jean-Michel Jarre, Pet Shop Boys… Mas chamo em especial a vossa atenção para os albuns do septuagenário françês Christophe e da quase octogenária brasileira Elza Soares. São momentos de inesperada inovação, de colaboração extremamente frutífera com novas gerações e momentos incontornáveis não só nas respectivas carreiras, mas também no panorama musical deste ano.

OS SUSPEITOS DO COSTUME
Andrew Bird – “Are you serious”
Mark Kozelek – “Mark Kozelek sings favorites”
Hymns from Nineveh – “Sunday music”

Tivémos os suspeitos do costume em momentos altos e inspirados: Radiohead, Bon Iver, Tindersticks, PJ Harvey, Anohni… Mas entre tantos, destaco o álbum de Andrew Bird que demonstra como a experimentação não tem de sacrificar o fluxo melódico das canções, e o álbum de versões ao piano de Mark Kozelek com uma escolha de repertório que vai do curiosamente apropriado (Mainstreet) ao mais inesperado (Somewhere over the rainbow). Entretanto, na Dinamarca, os Hymns from Nineveh lançaram o seu quarto álbum e continuam injustamente limitados ao mercado local embora façam pop elegante e inteligente que merecia chegar a um público maior. Procurem-nos nem que seja pela curiosidade de ouvirem a faixa Lisbon que encerra o disco Sunday music e se passa na Sé de Lisboa em dia de maratona.

AS CONFIRMAÇÕES
Mitski – “Puberty 2”
Kitchie Kitchi Ki Me O – “Are you land or water”
Kate Tempest – “Let them eat chaos”
Nils Bech – “Echo”

Houve muitas passagens à primeira divisão de artistas que foram estreantes há poucos anos: Agnes Obel, Daughter, C Duncan… Mas quero deixar o meu holofote sobre Mitski, e os Kitchie Kitchi Ki Me O. Ambos lançaram grandes trabalhos de rock (em cantos diferentes dessa arena) que merecem audições atentas. Tirem também algumas horas para ouvir e re-ouvir Kate Tempest no seu trabalho mais maduro e conseguido. O seu álbum é um romance em formato audio, bem estruturado e cheio de pormenores e nuances. Para o norueguês Nils Bech, o seu quarto álbum foi um momento de internacionalização, sendo editado pela americana DFA records. É um momento singular e enteressante na sua carreira em que o seu modo de cantar se torna cada vez mais operático, contrastando com a violenta electrónica do produtor Drippin’.

OS ESTREANTES
Papooz – “Green Juice”
Junius Meyvant – “Floating harmonies”
Bullion – “Loop the loop”

Também não nos podemos queixar das estreias. Há tanta gente cheia de talento a surgir por todo o lado que é difícil acompanhar tudo o que se passa. Este foi o ano em que descobri os suecos Johanan (provavelmente a banda mais hipster do planeta), a Kadhja Bonet (ela não existe desde sempre?!!) os Liima (que são tão veteranos e competentes que quase não contam como banda nova), os Cigarrets after sex (parem lá de lançar singles e deixem-nos meter os dentes num álbum) e os Sofi Tukker (as remixes mais dançáveis do ano). Mas não convém perder as absolutas delícias que são os albuns de estreia dos franceses Papooz e do islandês Junius Meyvant. Sem pretenções e apenas extremamente honestos e competentes no que fazem, entregam-nos o puro prazer da melodia e fizeram o meu verão. Já os Bullion, não são exactamente uma banda nova mas, depois de alguns EPs, apareceram este ano com um primeiro álbum de frescura electrónica notável. Importa ouvi-lo e ficarmos atentos ao que farão no futuro.

ONDA BRASILEIRA
Céu – “Tropix”
Juliano Gauche – “Nas estâncias de Dzyan”

Do Brasil veio uma onda de belos álbuns a provar que se estão a passar coisas muito interessantes do outro lado do Atlântico, não só com o sangue novo de artistas como Céu (Tropix é um dos grandes discos do ano), Juliano Gauche, Baleia, Silva ou Dom la Nena, mas também com veteranos como Gal Costa que com Gal Estratosférica, rodeada de excelentes músicos, prova que continua a ser uma referência incontornável.

SELEÇÃO NACIONAL
Monda – “Monda”
Cristina Branco – “Menina”

Em solo nacional, houve, entre muitos, bons discos de Osso vaidoso, Noiserv, Raquel Tavares, Rodrigo Leão, Marta Ren, Capitão Fausto e Rui Maia, mas deixem que chame a vossa atenção para o belo trabalho dos Monda que foram surpreeendentemente bem sucedidos no seu olhar contemporâneo sobre o cante alentejano, e, acima de tudo, destacar o álbum Menina de Cristina Branco que é de uma excelência musical absolutamente espantosa.

POPULAR/ERUDITO
Murcof & Vanessa Wagner – “Statea”
Efterklang & Karsten Fundal – “Leaves: the colour of falling”
Nico Muhly & Teitur – “Confessions”
Rufus Wainwright – “Take all my loves”

Vão sendo felizmente cada vez mais comuns os encontros da música erudita ou “clássica” com os músicos da pop e da electrónica, não só em reinterpretações como em criações originais. Quem julgava que a Gnossienne no.3 de Satie não podia ser mais perfeita, pode ir ouvir a maravilha que é a interpretação electrónica de Murcof. Os Efterklang, que era suposto estarem em pausa ou extintos, juntaram-se ao compositor Karsten Fundal para fazer um trabalho onde as vozes operáticas avançam pelos terrenos da pop como se sempre lá tivessem pertencido. Nico Muhly bem podia ter feito umas T-shirts a dizer “Baroque is not dead” para promover o seu álbum que une textos inspirados pela internet com sonoridades barrocas. E Rufus Wainwright compôs o seu trabalho mais audaz com sonetos de Shakespeare, navegando entre a poesia, a ópera, a sinfonia e o pop/rock sem se preocupar com rótulos, numa celebração de palavra e música que é absoluta delícia.

AO VIVO
The Notwist – “Superheroes, Ghosvillains + stuff”

Na minha memória de grandes momentos ao vivo deste ano ficaram Anohni, que soube fazer um fortíssimo espectáculo visual para sublinhar devidamente a sua mensagem, Agnes Obel, que em palco se rodeia de músicos de grande virtuosismo que levam as suas composições a um patamar de excelência ainda mais alto do que se ouve nos discos, e os Liima, que fazem ao vivo uma grande festa dançante com canções que originalmente não se suspeitariam capazes disso. Do panorama nacional, tive o previlégio de assistir a prestações emotivas e irrepreensíveis de Carminho e Katia Guerreiro. O meu grande momento musical do ano foi assistir ao festival Michel Berger em Berlim. A informalidade e a colaboração entre artistas deu lugar a momentos de pura magia nos estúdios de radio da antiga Alemanha de leste. Dizem que ficou tudo registrado e eu espero que as gravações possam emergir em breve. Em disco, claro que o grande momento que finalmente nos chegou foi o marcante Before the dawn de Kate Bush, mas preciso destacar o álbum dos the Notwist, que é absolutamente brilhante do principio ao fim e faz um retrato surpreendente da banda, enérgico e versátil.

NOMES PARA 2017
Okay Kaya
Kill J
Loney Dear
Sylvan Esso
Linda Perhacs
Pale Honey
Surma
Senhor Doutor

De que estou à espera em 2017? Primeiro que tudo, seja o que for que Okay Kaya decida fazer. Esta rapariga norueguesa/americana é o epitome do cool e desde que a vi ao vivo há dois anos que espero por qualquer coisa de grande. O single que lançou este ano sabe a pouco e sinto-me um stalker a vasculhar constantemente o YouTube e o SoundCloud por migalhas dela que apareçam. A dinamarquesa Kill J ameaça o seu primeiro álbum há três anos. Será desta? Todos os seus singles estão cheios de promessa e, ao vivo, a senhora é um portento. Já está mais do que na altura de algo maior. Estão anunciados novos álbuns de Loney Dear, Sylvan Esso, Linda Perhacs e Pale Honey. De certeza que valerão a pena, tendo em conta as amostras que já circulam por aí. Em Portugal, já estamos todos mais que prontos para a Surma. E quem ouviu as maquetes do Senhor Doutor sabe que vem aí coisa boa.

MIXTAPE
Juntando a tudo isto, deixo-vos com uma lista de boas canções tipo ramalhete tutti-frutti. Vai desde a versão que o norueguês Sondre Lerche fez de Hotline bling, que não me largou o cérebro o verão inteiro, até ao classisismo de Kyrie Kristmanson, passando pela Estónia de Marten Kunigas (pouco importa que não se percebam as letras, ele faz grandes canções) e pela mais bela canção dos Radiohead deste ano, que está afinal no álbum do Mark Pritchard.

“Smile” – Circuit des yeux
“Koik on kontrolli am” – Marten Kunigas
“Beautiful people” – Mark Pritchard
“Better (for Esther)” – Wye Oak
“Kismet kill” – Haley Bonar
“A matter of habit” – Moddi
“Palermo Soho” – Benjamin Biolay
“Alihukwe” – D. D. Dumbo
“Samurai Swords (acoustic version)” – Highasakite
“Ulysses” – Y la bamba
“High rise” – Cross Record
“Modern Ruin” – Kyrie Kristmanson
“Early to the party” – Andy Shauf
“Hotline bling” – Sondre Lerche
“Lockjaw” – Mothers
“Voices” – Posse

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