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Uma questão de (boa) pontaria

Texto: NUNO GALOPIM

Chegou a DVD o documentário “Mudar de Vida”, resultado de um processo de anos de convivência dos realizadores Pedro Fidalgo e Nelson Guerreiro com José Mário Branco e pelo qual se mostra como os ecos do passado ressoam o presente.

José Mário Branco e Sérgio Godinho em Genebra, em 1969

Tal como lá de fora, de onde nos últimos anos nos chegaram belíssimos olhares documentais sobre figuras como Nina Simone, Edwyn Collins ou Patti Smith, também as histórias da música portuguesa se começam a contar com imagens com outro ritmo entre nós. E entre o melhor do que neste capítulo se fez já por estes lados está um filme que nos coloca perante um panorama historicamente abrangente sobre a figura e obra de José Mário Branco, com o valor acrescentado de não se fechar num discurso de recordações e nostalgia, mas antes para respirar um presente que se faz em construção, não apenas do biografado mas também do modo como a sua música continua a ser fonte de inspiração e de reflexão para outros.

Mudar de Vida tem, para quem há muito conhece (e admira) a pessoa a e obra de José Mário Branco aquele sabor de um reencontro de velhos amigos. Recorda canções, as lutas e as ideias e, acima de tudo, a solidez de um percurso que, mesmo quando os tempos (e as vontades) mudaram, sempre manteve firme a sua identidade, mantendo-se por vezes à margem, de certa maneira. Estão ali as memórias de juventude, os dias de Paris, a revolução e os tempos que se lhe seguiram, o teatro e a opção pelo trabalho de um esforço coletivo, a história (que antecede o crowdfunding de hoje) que permitiu fazer o histórico Ser Soldidário, a criação da UPAV, a descoberta do fado (e são incríveis as imagens de estúdio com Camané)… O presente interrompe frequentemente o passado, como quando escutamos, ao vivo, aquele incrível Mudar de Vida, meio rap, meio canção, meio falado, meio cantado, que espera ainda edição em disco e que traduz ecos recentes de uma demanda autoral que não se esgotou criativamente. Ou quando figuras do hip hop nacional nos contam como as canções de José Mário Branco os inspiraram e de como com ele convivem no presente. No fim, sentimos que, mesmo com mais de 40 anos de histórias contadas, afinal vimos uma história que vai ainda a meio…

Os realizadores Pedro Fidalgo e Nelson Guerreiro, que em 2005 eram alunos do curso de cinema na Universidade da Beira Interior (Covilhã), tinham então uma relação ainda diferente com José Mário Branco, a quem propuseram um trabalho curricular: captar imagens durante um concerto. Mal imaginavam todos eles que, dez anos depois, teriam um belo filme nas suas mãos. Nelson tinha até então “uma relação de fã”, ou seja, “conhecia as suas músicas dos discos e pouco mais”. E depois pensou: “Como é que um artista deste calibre não tem um filme?”… Uma questão que equacionou ao reconhecer que “a força e a grandeza das suas canções são um caso particular na música portuguesa”. E Pedro deu conta de que “muita gente não conhecia, nem os discos, nem o músico”. Até porque “as rádios mais ‘oficiais’ não passam José Mário Branco”.

Das imagens do concerto em breve passaram para um projeto de filme maior, ao qual José Mário Branco aderiu. “Pensámos fazer o filme em nove meses mas levou nove anos”, recorda Nelson. A descoberta, que foi acontecendo, “permitiu ir conhecendo o homem e o artista tal como as suas referências, motivações e valores”. Num filme “à pressa não teria sido possível compreender e analisar a obra em todo o seu conteúdo e forma”, reconhece. Pedro acrescenta que este percurso mais de fundista do que de sprinter “deu tempo para conhecer não só José Mario Branco, como outras pessoas também” e muitas delas “aparecem no filme”. Sérgio Godinho, Luís Cília, Manuel Freire, Francisco Fanhais, são algumas delas.

Além das entrevistas, das atuações ao vivo, de um acompanhamento feito mais de perto junto de José Mário Branco, era preciso juntar à história um corpo de imagens de época. E aí depararam-se com dificuldades. Nelson conta que “tudo é caríssimo”. Pedro recorda que “as pesquisas no estrangeiro foram mais fáceis do que em Portugal” já que “a RTP, contrariamente ao INA ou à RTS, cobra pela consulta 40 euros à hora nas próprias instalações”. O arquivo “não esta digitalizado e não temos acesso ao motor de busca, tendo de pagar 50 euros para que alguém pesquise por nós”. No estrangeiro, como explicam, consultaram gratuitamente em suas próprias casas, “pois os arquivos públicos estão todos digitalizados e são de livre acesso”. Nelson acrescenta ainda que “não há uma política cultural que fomente a criação”.

Apesar das dificuldades chegaram a bom porto. Quando se trabalha “a fundo”, conta-nos Nelson, “a vida dá-nos umas prendas”. E sendo este “um filme sobre um músico e música”, ele mesmo procurou “desde o início desenhar um percurso visual que contasse as suas canções”. E encontraram “algumas pérolas, daquelas raras”.

Agora que o filme já foi exibido em festivais e em sala e tem uma edição em DVD já disponível, Mudar de Vida pode ser reconhecido, sob vários pontos de vista (dos musicológicos e historiográficos aos de mercado) como um primeiro caso de sucesso maior made in Portugal no terreno do novo documentarismo sobre música. Pedro nota que não estão sós, observando que “há muita gente a documentar música em Portugal, por exemplo o Tiago Pereira tem feito coisas interessantes”. O problema “são os canais e vias de difusão”, comentando aqui as opções de programação do serviço público. “Por muitos filmes bons que se documentem, passarão depois da meia-noite entre dois anúncios publicitários”. Ou seja, “só ‘cus e mamas a dançar de roda, mailas gravatas dos seus figurões’ como canta o Zé Mário”, observa. Nelson acrescenta que “há uma devoção pacóvia por tudo o que é estrangeiro e um desprezo natural pelo que é português”. Defende por isso que é preciso “acordar e ver-mo-nos ao espelho”. Há “um grande complexo de inferioridade, uma espécie de culpa ou vergonha que nos cala e inibe de contar a nossa história”.

No fim de tudo isto, a cantiga, pode ser ainda é uma arma? “É e sempre foi”, diz Nelson. É, “como diz a cantiga do José Mário… tudo depende da bala, e da pontaria…”

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