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George Michael (1963-2016)

Texto: NUNO GALOPIM

Um dos nomes maiores da história da música pop britânica, ex-vocalista dos Wham! e autor de uma carreira a solo desde os anos 80, George Michael morreu hoje, aos 53 anos, em sua casa.

Georgios Kyriacos Panayiotou… A muitos de nós este nome poderia não dizer absolutamente nada. Mas se olharmos, não para o nome que mostrava no passaporte, mas para aquele pelo qual era mundialmente conhecido, ou seja, George Michael, a coisa muda de figura. Foi simplesmente um dos ícones pop mais populares entre os que entraram em cena nos anos 80, iniciando uma carreira de sucesso logo com os Wham! e continuando depois um percurso a solo que, mesmo tendo conhecido um ritmo menos intenso de exposição desde meados dos anos 90, nunca deixou que a aura do seu nome esmorecesse. Morreu hoje, aos 53 anos, em sua casa, aparentemente vítima de uma falha cardíaca.

Foi um dos últimos teen idols nascidos sem a ideia de “fabrico” de uma banda de sucesso (lógica que entraria em cena pouco depois). E, tal como Scott Walker, cedo entendeu que não esgotaria a sua carreira junto de um público adolescente, pelo que, a solo, definiu depois um caminho que o levaria a outras demandas e outros públicos.

O evidente talento vocal, que expressou desde cedo nos Wham! e que mais tarde levou a outros patamares de excelência na sua obra a solo, revelava uma capacidade (rara) em assimilar ecos de grandes nomes da música negra que admirava. De resto, e apesar de ter trilhado uma obra em terreno pop/rock, desde cedo levou heranças de músicas da América negra para as suas próprias canções, pelas quais o funk, a soul e até mesmo o hip-hop estabeleceram pontes com a pop.

Filho de um cipriota e de uma inglesa, nasceu em East Finchley, no Norte de Londres, em 1963. Foi quando a família se mudou para Radlett, no Hertfordshire, que fez amizade com o colega de escola Andrew Ridgeley. Ambos não tinham senão um sonho: ser músicos. Em 1981 formaram os Wham! e resolveram apostar o tudo ou nada. Não tinham ainda 20 anos quando gravaram o primeiro single. Mas para George Michael o seu futuro estava já ali trilhado…

Foi em clima white funk que deram o primeiro passo com uma canção que representou a sua estreia em 1982, através do catálogo da independente Innervision Records. Young Guns (Go For It) teve um ligeiro impacte no mercado britânico mas, ao levar inesperadamente o grupo ao programa Top of the Pops, em substituição de um outro grupo originalmente convidado. A exibição televisiva elevou contudo o single de um discreto número 48 ao número 24 na semana seguinte, com 30 mil unidades vendidas nesses oito dias. O segundo single traduziu pouco depois uma das primeiras expressões de interesse de uma banda pop pelo emergente espaço do hip-hop, que começava a obter primeiros êxitos mas era ainda então um terreno distante das atenções mainstream. Tal como o tinham feito os Blondie em Rapture ou Adam and The Ants em Ant Rap, os Wham! fizeram em Wham Rap! uma assimilação depurada de ideias escutadas entre pioneiros do hip-hop, mostrando o resultado final um tema na verdade mais próximo de uma matriz pop com tempero white funk. Mesmo assim marcava-se uma posição. O álbum de estreia, Fantastic, editado em 1983, juntava ainda uma dimensão pop a estas referências e talhava uma imagem juvenil, então mais rebelde do que propriamente escapista.

Mas a coisa mudou no ano seguinte. Mais ligeiros, mais coloridos, mais… pop. De 1983 para 1984 reinventam-se e, deixando para trás as temáticas mais focadas na rebeldia, no conflito de gerações e emprego, surgem animados por ecos da pop clássica dos sessentas em Wake Me Up Before You Go-Go, uma canção leve e luminosa que os elevou ao estatuto de popularidade global que passaram a viver. O teledisco, rodado na Brixton Academy, ajudou a fixar uma nova imagem de teen idols para os dois músicos. O ano de 1984 ficava por sua conta e Make It Big, o segundo álbum dos Wham! tornava-se uma das referências pop mainstream do seu tempo. E deu-lhes um êxito global, fazendo-os embarcar numa digressão que os levou à China, onde foram a primeira banda pop ocidental a atuar ao vivo.

A canção que os Wham! gravaram tendo em conta o Natal de 1984 ficou na história como uma das mais populares do género. Jogando o jogo da melodia certa, do arranjo unânime, do apelo geral, Last Christmas revela-se uma canção peganhenta, fácil, mas de tanto ouvida acabou no lote dos clássicos do seu tempo. Está longe de ser das melhores dos Wham! e tinha um teledisco de fugir. Mas tornou-se um clássico.

Após um silêncio de nove meses, os Wham! regressaram aos discos em setembro de 1985 com um single que vincava, depois de Freedom! e Wake Me Up Before You Go-Go, um ainda mais profundo mergulho em heranças da pop e soul dos anos 60. I’m Your Man mostrava em 1985 os dois músicos (sobretudo George Michael) com uma imagem consideravelmente diferente da que os tinha feito estrelas pop entre 1983 e 84. Era, afinal, mais um sinal de que uma carreira a solo vinha a caminho, apontada a um público mais adulto.

A ideia de um fim para os Wham! começou aos poucos a ganhar forma. George Michael tinha já editado, a solo, os singles Careless Whisper (1984) e A Different Corner (1986). E eis senão quando surge a notícia do adeus. Um adeus que foi encenado e devidamente noticiado. Em primeiro lugar com um EP com três temas novos e uma remistura de Wham Rap!, depois um best of que juntava todos os singles desde o primeiro ao qual chamaram The Final. E, a fechar a festa, um concerto para assinalar o derradeiro episódio de vida pública do duo, perante um Estádio de Wembley à pinha.

Poucos meses depois George Michael tinha em I Knew You Were Waiting (dueto com Aretha Franklin) e em I Want Your Sex (já a solo, num belíssimo exemplo de uma pop atenta ao Prince minimalista de meados dos oitentas) passos seguros de uma carreira em nome próprio.

Pouco mais de um ano depois de ter esgotado a lotação do londrino Estádio de Wembley para dizer adeus aos Wham! (e, no fundo, a um primeiro ciclo na sua vida como compositor e intérprete), George Michael editava, no outono de 1987, um primeiro álbum a solo. I Want Your Sex não fora o maior êxito do músico nem é sequer um dos seus singles mais lembrados quando chega a hora de evocar a sua obra através das suas canções. Mas era mesmo a melhor canção de Faith, álbum que voltava a visitar uma relação bem ginasticada com os métodos de uma dança assimilada a partir de matrizes funk em canções como Hard Day ou Monkey, que revelava mestria profissional na composição de baladas para produção de baladas sumptuosas como Father Figure ou One More Try, experimentava (com bons resultados) um flirt jazzy em Kissing a Fool e registava no tema-título uma pequena pérola pop (com ecos de Freedom dos Wham! logo nas primeiras notas), este acabando por ser o single mais icónico gerado pelo alinhamento do disco.

 

Editado em 1990, o álbum Listen without Prejudice – Volume 1 foi ainda mais longe e podemos recordá-lo hoje como o disco maior da sua obra a solo, revelando em pleno não apenas o cantor, mas também o escritor de canções. O passo seguinte (que teve pelo meio um EP gravado em conjunto com os Queen) surgiria em 1996 com Older, disco que sublinha a maturação da pose, do canto e da escrita já sugerida em 1990, mas num tempo de pacificação da vida pessoal. A sua sexualidade deu que falar, gerou um “caso” mediático e que teve depois resposta com luva branca no belíssimo teledisco que acompanhou o single Fastlove (1998). Por essa altura, George Michael começava a desviar a construção da sua discografia do espaço mais clássico do álbum para uma sucessão de singles. De resto, e depois de Older, e apesar de uma multidão de novos singles (alguns deles em colaborações como nomes como os de Mary J. Blige ou Paul McCartney), editou apenas mais dois álbuns de estúdio. Songs from the Last Century celebrava, em 1999, memórias de grandes canções do século XX. Patience (2004) fica assim registado como o seu derradeiro disco de inéditos, cabendo ao álbum ao vivo Symphonica, de 2014, o seu mais recente momento de grande visibilidade.

Não se pode esquecer também a face política de uma personalidade que tanto criticou o governo de Thatcher como, mais tarde, a relação de Blair com George W. Bush (e Shoot the Dog reflete isso mesmo), assim como a dimensão ativista de alguém que participou em inúmeras campanhas, sendo em diversas ocasiões uma voz bem presente na luta contra o VIH.

Apesar de datar de há já 20 anos o seu último grande álbum e de ter vivido entre silêncios e ausências nos últimos anos, George Michael não via o verbo “fazer” (aplicado à música) como algo a conjugar no passado. Estava a trabalhar. Não apenas em nova música, mas também em Freedom, um documentário que tinha estreia apontada para março de 2017. Para essa mesma altura está prevista uma reedição especial do álbum Listen without Prejudice – Volume 1.

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1 Comment on George Michael (1963-2016)

  1. infelizmente e irónicamente o seu “last christmas”

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1 Trackback / Pingback

  1. Adeus George Michael – Charlie na Terra do Nunca

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