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O que 2016 tirou e o que nos deu, por João Santana da Silva

Texto: JOÃO SANTANA DA SILVA

Talvez 2016 tenha sido um ‘annus horribilis’ para a música. Mas, em retrospetiva, foi simpático para os outros meios artísticos. Especialmente nos livros e nas séries.

O ano de 2016 foi marcado por acontecimentos extremos. Por um lado, perdemos Bowie, Prince, Cohen e, em pleno Natal, George Michael. Por outro, tivemos sucessos patrióticos na política – Portugal ainda não abriu falência nem passou a região espanhola – e no desporto, com a seleção e Cristiano Ronaldo. Mas lá pelo meio, há coisas realmente boas a reter e a destacar. Escolhi lembrar quatro séries, quatro livros e dois filmes.

“The Night Of”
A ideia parece mais do que mastigada, cuspida e ainda remastigada logo a seguir, mas não deixa de ser incrível que uma minissérie policial (a designação mais correta seria mesmo “série sobre justiça criminal” e police proceedings) ainda nos possa surpreender pela positiva em 2016. Esse acaba por ser o grande trunfo de Steve Zaillian e Richard Price, que souberam pegar na ideia original britânica (Criminal Justice, da BBC) e criar uma história nem por isso original mas bem escrita, com excelentes diálogos (e silêncios), uma fotografia a rivalizar com as melhores séries de sempre e um John Turturro a mostrar como se faz.

“A Casa”, Paco Roca (Levoir)
A Levoir, sobretudo através da grande distribuição de coleções com o jornal Público, pôs-se no mapa nacional como uma das principais editoras de banda desenhada. E a cereja no topo do bolo foi mesmo a edição em português, pouco tempo depois do original espanhol, do belo livro de Paco Roca sobre a memória, a relação com um pai e como se lida com ambas após a morte.

“Better Call Saul”
A série de Vince Gilligan e Peter Gould começou como um spin-off meio desinteressado de Breaking Bad mas, já terminada a segunda temporada e com uma terceira a caminho, está a mostrar que é mais do que isso e a revelar uma maturidade e criatividade ainda maiores do que com a “série-mãe”. À boca pequena, já se diz por aí que a saga de Saul Goodman/Jimmy McGill é melhor do que a de Walter White, e eu começo a concordar.

“O Homem do Castelo Alto” e “Será que os Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?”, Philip K. Dick (Relógio d’Água)
Aqui cabem não um, mas dois livros de um dos mestres da ficção científica. Nem é a primeira vez que surgem em português, mas a qualidade das edições e a intenção de o pôr de novo no mapa, e em primeiro plano, merecem também destaque na montra do ano. Se em Será que os Androides Sonham com Ovelhas Elétricas? (lembre-se que foi a base do filme Blade Runner, de Ridley Scott) somos confrontados com a verdadeira natureza do ser humano face às nossas réplicas artificiais no futuro, em O Homem do Castelo Alto é-nos dado um passado alternativo, distópico e terrível em que os nazis venceram a guerra. Dois grandes livros.

“Stranger Things”
A dupla Duffer Brothers (Matt e Ross Duffer) escreveu alguns episódios da série de mistério Wayward Pines, mas a vontade de fazer algo mais, e algo seu, levou-os a criar esta joia da televisão norte-americana. Num revivalismo da década de 1980, Stranger Things fala de seres de outras dimensões, miúdos socialmente inaptos mas corajosos, obscuras agências governamentais e telecinesia, entre outras coisas que há trinta anos valia misturar num filme. O resultado é uma série marcante e diferente de qualquer outra do seu tempo, fazendo qualquer um voltar a ser miúdo. Só por isso, já pode levar a bicicleta.

“A Menina sem Estrela”, Nelson Rodrigues (Tinta-da-China)

O ano editorial da Tinta-da-China foi muito feliz, e poderiam ser muitas as escolhas. Mas a publicação (inédita em Portugal) das memórias de Nelson Rodrigues, por passar mais despercebida do que devia, merece aparecer aqui. Acusado de imoral, reacionário e voyeurista pelos seus críticos e contemporâneos, o trabalho de Nelson Rodrigues no teatro e nos jornais é um dos melhores da língua portuguesa, independentemente do campo ideológico de onde o leitor venha. No entanto, ao escrever A Menina sem Estrela, cujo título se refere à filha que nasceu cega, poderia redimir-se de todos os pecados do mundo, de tal forma bonito e triste é este livro.

“Walking Dead”
A sério? Será Walking Dead uma das escolhas do ano? A sério. Conheço poucas séries que se tivessem aguentado tanto tempo com tanta qualidade, mas Walking Dead é uma delas (talvez West Wing, Sopranos e Breaking Bad tenham sido tão constantes). Muitos dos fãs da série andam desiludidos, e outros tantos já partiram para outras freguesias, mas cada vez menos se vê e fala de mortos-vivos nesta saga de Rick Grimes e companhia que narra, sobretudo, a sobrevivência dos vivos e da sua humanidade. E a introdução-choque do novo vilão Negan apanhou todos de surpresa, lembrando que ainda é uma das séries mais imprevisíveis da televisão (ainda que um pouco menos para quem acompanha os comics).

“Born to Run”, Bruce Springsteen (Elsinore)
Pouco haverá a dizer sobre Born to Run, (mais) um livro de memórias desta lista e, provavelmente, de todas as de quem ouve música. Foi um dos livros mais esperados do ano e não defraudou as expetativas de fãs e demais melómanos. Springsteen, o “The Boss” de New Jersey e um dos símbolos do rock com mais consciência social e política, reforça aqui ainda mais a posição de herói musical da “classe trabalhadora” da América urbana, numa excelente autobiografia.

“Capitão Fantástico”, de Matt Ross
Num ano pouco surpreendente no cinema (mesmo Nocturnal Animals de Tom Ford ficou algo aquém), o filme escrito e realizado por Matt Ross foi uma das exceções. Vivendo como Mogli no Livro da Selva, mas voluntariamente, Ben Cash (Viggo Mortensen) e a sua extensa família tentam passar ideias survivalistas para as gerações vindouras, até que a morte da mãe dos Cash os obriga a voltar à civilização e a dar de caras com o mundo que escolheram rejeitar e esconder dos miúdos. Se dúvidas havia, Viggo Mortensen está aqui, novamente, ao nível dos melhores atores da sua geração. Aliás, ao nível dos melhores de sempre.

“Rogue One”, de Gareth Edwards
Talvez não seja um dos dez melhores filmes do ano, e não ultrapassa a trilogia original (episódios IV, V e VI). E, como é da praxe, tem recebido uma chuva de críticas, das quais apenas o caráter transitório das personagens será a mais justa. No entanto, num tempo de sequelas, prequelas, remakes, reboots e re-tudo, Rogue One foi uma das melhores surpresas do ano. Ultrapassa a pobre saga de Anakin Skywalker dos episódios I a III e até O Despertar da Força, que esteve demasiado agarrado aos cameos das velhas estrelas. O filme de Gareth Edwards, por outro lado, concentrou-se em recuperar o espírito e o ritmo dos filmes originais em vez das suas personagens. Talvez a expetativa fosse menor e isso explique tudo, mas acaba por marcar o ano e saltar diretamente para a primeira divisão do universo Star Wars.

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