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Os últimos pedaços de 2016

Texto: ANDRÉ LOPES

Antes de pensar em 2017 podemos refletir sobre alguns lançamentos que terão passado despercebidos nas últimas semanas do ano que ainda não acabou. Grouper, Run The Jewels e dois discos dos Nine Inch Nails para ter em conta ainda antes que chegue o ano novo.

A reta final do ano é habitualmente marcada por uma azáfama característica em redor de listagens sobre o que de mais fulgurante se passou em termos artísticos nos 12 meses anteriores. Antes de pensar no futuro próximo – e nas bandas que vão adquirindo um qualquer estatuto de grandes promessas para 2017 – podemos também refletir sobre diversos lançamentos que terão passado despercebidos nas últimas semanas do ano presente.


 
Grouper “Paradise Valley”

O solstício de inverno foi escolhido por Liz Harris como o momento para a edição de Paradise Valley – o disco em formato 7-polegadas que marca o final de um compasso de espera iniciado após Ruins (2014). Este dia característico por ser aquele com menos horas de sol, inaugura a estação fria na qual a música de Grouper se consegue enquadrar e experienciar de forma especialmente pertinente. Dragging a Dead Deer Up a Hill (2008), A I A (2011) ou Violet Replacement (2012) assinalam de forma bastante significa o teor noturno que é transversal ao repertório do projeto de Liz Harris. A sua voz habitualmente distante e a forma como a mesma se funde facilmente com ambiências e texturas que oscilam entre shoegaze desacelerado, folk minimalista e dream pop artesanal, são capazes de formar uma sonoridade consistente com um propósito de reconforto e melancolia.

Paradise Valley apresenta duas faixas que afastam o foco no piano que marcou Ruins, optando-se agora pelo regresso à guitarra no seio de uma incursão mais madura por terrenos que se aproximam da baixa fidelidade, reacendendo memórias dos primeiros discos de Grouper. Apesar das ambiências etéreas, as duas canções do disco conseguem manter ideias vocais melódicas o suficiente para garantir a progressão das duas composições. O resultado toma a forma de um aprimorar de técnica e escrita que ao reduzir a abstração típica de momentos anteriores, asseguram Liz Harris como uma figura ímpar em termos artísticos.


 
Run the Jewels “Run the Jewels 3”

Antecipando a sua data de lançamento em três semanas para que coincidisse com a véspera de natal, o novo disco dos Run the Jewels é uma renovação da carta de intenções de um grupo que deixou para trás a extravagância do segundo disco em prole de faixas menos extremadas em termos de estrutura e construção. Independentemente disso, El-P e Killer Mike continuam a deixar explícita a pujança que faz deles um dos duos sem o qual é impossível falar e pensar sobe o rap contemporâneo. Legend Has It e Call Ticketron mantêm a tradição de tratar o baixo como condutor ideal para as dinâmicas rítmicas únicas da cadência dos Run the Jewels. Impõem-se especialmente por surgir num momento de pico de carreira da banda, e o mérito deste terceiro álbum reside exatamente na energia de “dança de vitória” que o mesmo emana.

Nine Inch Nails, “Not the Actual Events”

Antecipando um plano de reedições que terá lugar ao longo de 2017, a banda de Trent Reznor volta aos discos com um novo EP, mencionado como uma peça vital se não mesmo necessária para o futuro do projeto. Realisticamente, Not the Actual Events não alcança esse estatuto – nada por aqui soa inédito ou memorável o suficiente para conseguir com mérito significativo, juntar-se a um repertório onde figuram discos como The Downward Spiral (1994), The Fragile (1999) ou Year Zero (2007). A ritmo súbito, o alinhamento deste EP faz de tudo para que acreditemos que o fulgor do passado estará presente. Se a escrita – mais ambivalente que qualquer momento de With Teeth (2005) – não é surpreende, o mesmo não poderá ser dito em relação à produção destas canções. Com um tratamento cuidado (e exagerado quando assim se justifica) da proeminência das guitarras, a dinâmica criada em The Idea of You quase remete para uma visão mais clara do que ouvimos em bandas como Rammstein. Em Burning Bright (Field on Fire) a estética shoegaze é trabalhada notavelmente, tornando-se completamente adequada ao ímpeto agressivo que está na génese do som típico dos Nine Inch Nails.  Um dos momentos mais interessantes situa-se precisamente a meio do alinhamento do EP: She’s Gone Away dura 6 minutos ao longo dos quais se torna realmente evidente que existe ainda em Trent Reznor o suficiente para criar canções interessantes mas que, pelo menos em Not the Actual Events, existem inseridas num conjunto pouco favorecedor onde a coerência deu lugar ao ego.


 
Nine Inch Nails, “The Fragile: Deviations 1”

Esta nova coleção de 37 faixas possibilita um novo olhar sobre o álbum duplo que os Nine Inch Nails editaram em 1999. Documentando um percurso de alienação e aversão a uma realidade demasiado concreta, The Fragile pode agora ser escutado de uma maneira diferente que salienta os detalhes e nuances instrumentais. Esta edição omite a voz de Trent Reznor propositadamente, pretendendo potenciar uma audição independente tanto quando possível dos dois discos originais, afirmando-se antes como um complemento. Além disso, The Fragile: Deviations 1 apresenta um alinhamento modificado que inclui novos interlúdios e takes diferentes de algumas canções. Enquanto experiência, este será um álbum capaz de entreter fãs de longa data pelo facto de revalorizar um excelente conjunto de faixas que, ao surgirem aqui em versões inéditas, afastam a ideia de que esta audição não seria pertinente fora de uma ótica saudosista.

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