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Não são os passageiros, é o veículo

Texto: DANIEL BARRADAS

O filme “Passageiros” não é bom mas tem uma formidável nave espacial e por isso também não é mau. Se calhar vale a pena vê-lo…

Hollywood por vezes distrai-se e lá se fazem umas coisas fora do molde. Passageiros, realizado pelo norueguês Morten Tyldum, parece à vista desarmada um thriller espacial com as estrelas do momento: Chris Pratt vindo de Guardiões da galáxia e Jurassic World e Jennifer Lawrence de Hunger Games e X-men. Mas o trailer é dos mais enganadores dos últimos tempos. Na verdade, é apenas um filmezeco romântico com uns pózinhos de drama, de comédia e de thriller para dar a impressão de que se passa qualquer coisa. Mas não se passa quase nada e talvez, se se passasse ainda menos, seria melhor…

Vamos esclarecer logo à partida que o filme é abaixo do mediano, mesmo se competente. O que tem então de especial para eu perder o meu tempo a falar sobre ele? E o que é que provavelmente fará dele um filme de culto? É que tem uma excelente nave espacial! E dentro de mim há um nerd que se derrete por naves espaciais. Vem do tempo em que se usavam três tampas de esferográfica Bic para construir um caça da Galática. Vem de muitas horas passadas a brincar com legos. O meu porta-chaves é um astronauta de lego, percebem? Pronto.

Confesso que não fui ver Passageiros por minha escolha, deixei-me arrastar. Mas dei imediatamente por mim deliciado durante o primeiro terço do filme.

A premissa do filme, para quem ainda não sabe, é a seguinte: Uma nave segue lampeira espaço afora, a caminho de uma futura colónia terrestre, e a viagem durará 120 anos. A tripulação vai toda a dormir para não morrerem pelo caminho, mas Pratt e Lawrence acordam 90 anos antes do tempo. Estão tramados. O trailer e o cartaz do filme tentam criar algum suspense com a frase publicitária “Eles estão acordados por uma razão”. A razão é simplesmente um asteroide que embate na nave e avaria umas coisinhas. Isto nem sequer é nenhum spoiler porque é o primeiro minuto do filme.



Mas agora sim, vou-vos estragar a surpresa e contar que o que se passa é que Pratt acorda um ano antes de Lawrence. Para isto o trailer não me tinha preparado! Ora a primeira parte do filme, uns belos 20 minutos, são com Pratt a explorar a nave deserta, transformado numa espécie de Robinson Crusoe mimado. É que a nave é como um navio de cruzeiro, com os mais diversos luxos e uma população de robots ao serviço dos passageiros. E se há alguma coisa de refrescante nesta fatiota de ficção científica requentada a servir de cenário a um xaroposo romance é que não há nada de mau no mundo (ou espaço!). Não há um génio do mal, não há robots assassinos, não há tecnologia perversora da humanidade, o futuro não é negro e o passado está tão lá para trás que ninguém se rala com ele. E como vai toda a gente a dormir, nem sequer há sociedade, utópica ou distópica.

Ora é precisamente este limbo artificial que liberta Tyldum e dá asas ao nerd que o realizador tem dentro de si. Ele atenta na nave quase pornograficamente e mostra-a por dentro e por fora como se estivessemos a ver um video da Remax. (Compro já!). É também o melhor anuncio de turismo espacial que alguma vez tivemos o direito a ver (estou na fila para embarcar!). Vale absolutamente a pena ir ver isto ao cinema em 3D.

Depois acorda a Lawrence, começam a acontecer “umas coisinhas” e o realizador distrai-se da nave. Mas pronto, já valeu o bilhete.

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