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Música para reflexões

Texto: NUNO GALOPIM

E eis que chega o primeiro álbum de 2017. Surgiu logo depois de assinalada a passagem do ano e apresenta, com assinatura de Brian Eno, uma proposta de 54 minutos de uma música discreta que convida à reflexão. A maneira certa de entrarmos num ano cheio de dúvidas.

Depois de ter vivido a primeira década do novo século praticamente entregue a trabalhos de colaboração – e desse período, a solo, trouxe-nos apenas o álbum vocal Another Day On Earth (2005) – Brian Eno parece ter encontrado novo ritmo na apresentação em disco da sua música desde que, em 2010, iniciou uma colaboração com a editora Warp. Não que tenha deixado de trabalhar em grupo, desde então tendo surgido novos discos de parceria com Leo Abrahams e Jon Hopkins, com Rick Holland (ambos trabalhando aqui uma relação da música com a voz falada) e ainda com Karl Hyde (sim, dos Underworld, juntando aí mais dois títulos a uma obra conjunta focada na canção que no passado o apresentara já ao lado de figuras como as de John Cale ou David Byrne). Também nesta década, e como produtor trabalhou novamente com os Coldplay, e teve primeiros trabalhos ao lado de Seun Kuti (o mais novo dos filhos de Fela Kuti), James Blake e Owen Pallet. E como parceiro na composição e produção, trabalhou também com os The Gift, tendo cabido a Love Without Violins ser, em setembro do ano passado, o single de cartão de visita para um álbum a editar este ano.

É contudo com um novo álbum a solo de Brian Eno que assinalamos o início do ano editorial. Sucessor de títulos recentes como Lux (2012) e The Ship (2016), assinalando assim um retomar de uma agenda mais intensa a solo – como recordamos, por exemplo, do intervalo entre Nerve Net e The Drop, nos anos 90 – o novo Reflection é uma peça que retoma as linhas da exploração de uma música que se convencionou chamar “ambiente”, apesar de ser esse um termo com o qual o músico parece ter já dificuldade em se relacionar. Não pela sua contribuição. Mas por achar que há presenças estranhas naquele espaço com as quais não deve conviver com tranquilidade.

Se a ideia de “ambiente” que sugeriu em Discrete Music (1975) e aprofundou depois entre álbuns como Music For Airports (1978) ou Apollo: Atmospheres and Soundtracks (1983) sugeria um tempo de contemplação sob um olhar lançado ao nosso redor, auscultando muitas vezes as periferias do silêncio, o novo Reflection parece agora propor, sob uma lógica de composição não muito diferente – timbricamente familiar e feita de acontecimentos discretos, encarados entre dinâmicas de repetição e capazes de explorar os efeitos do eco e reverberação, que evoluem gradualmente pela aceitação de sugestões de elementos que de forma ténue ali se instalam depois – propõe agora, não um olhar em volta, mas para dentro. O “ambiente” deixa de ser coisa da dimensão cénica ou paisagista, para auscultar agora a mente. Não para impor um programa. Mas para abrir espaço à reflexão.

Reflection age como novidade mais no plano funcional do que no estritamente musical. Mas não desilude. Junta mais um título a uma das principais linhas de trabalho de Brian Eno. E abre um ano de muitas dúvidas com uma proposta, de uma faixa apenas (e com 54 minutos de música), que pode servir de banda sonora para pensar um pouco, antes de vermos os próximos dias surgirem à nossa frente, vertiginosamente, uns a seguir aos outros.

“Reflection” de Brian Eno (Warp) está disponível em CD e 2LP, assim como nas plataformas digitais para streaming e download.

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