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Os meus livros de 2016, por Daniel Barradas

Texto: DANIEL BARRADAS

Por viver fora de Portugal e por a grande maioria do livros de ficção que leio serem dentro dos géneros de ficção científica ou fantasia, acabo a ler muito em inglês. De tudo o que li em 2016, destacam-se seis autores com livros verdadeiramente notáveis:

“Sleeping Giants”, de Sylvain Neuvel
Partes de um robot gigante são encontradas enterradas em vários cantos do mundo. Será uma oferta ou uma arma de extra-terrestres? Ou ambas as coisas?
Quem julgar que a ficção-científica é um género que não inova ao nível da escrita bem pode ler este romance. Cada capítulo é apenas diálogo entre duas personagens (uma delas nem sabemos quem é) e quase parece pronto a ser estreado num palco, num cenário que pode consistir simplesmente numa mesa e duas cadeiras. Não seria necessário mais para encenar este trepidante thriller repleto de acção e eventos extraordinários. Hollywood já comprou os direitos de adaptação ao cinema e espero sinceramente que tenham a coragem de fazer um filme fiel ao livro e realizar o blockbuster mais barato de sempre.

“Seveneves”, de Neal Stephenson
A Lua explode e a chuva de meteoros que daí resulta dá um prazo de dois anos para a humanidade deixar o planeta Terra e sobreviver no espaço. Para quem gosta da sua ficção científica verdadeiramente científica, Neal Stephenson escreveu um dos romances mais “nerd” dos últimos tempos. Com base nos conhecimentos de ciência e engenharia do presente, o autor explica como se poderia pôr a humanidade a viver no espaço em dois anos. Não é obviamente um feito fácil e o resultado é explorado numa segunda parte do romance (passado milhares de anos depois) em que, aí sim, Stephenson dá asas aos conceitos mais radicais da genética e engenharia deixando-nos a salivar por uma sequela (não confirmada). O que está confirmado é uma adaptação ao cinema por Ron Howard.

“City of Stairs”, “City of Blades”, de Robert Jackson Bennett
Num mundo de fantasia, dois continentes estiveram em guerra. Um deles era a morada dos deuses, o outro, ateu, descobriu como matar os deuses e ocupar militarmente os seus antigos opressores. É raro encontrar fantasia surrealista tão bem escrita e tão obviamente ao serviço da critica social e moral do presente. Os primeiros dois volumes desta trilogia (“City of miracles” está agendado para 2017) ressoam como comentário à ocupação americana do Afeganistão ou do Iraque ou como meditação sobre os efeitos dos traumas de guerra. Por outro lado, são escritos como policiais que também podiam ser thrillers de espionagem dignos de Le Carré. Ninguém esperaria que de tão grande caldeirada pudessem sair histórias e personagens tão lúcidas.

“Too like the lightning”, de Ada Palmer
No futuro, as nações, a religião e o género deixam de existir. Os valores humanistas estão perfeitamente integrados na sociedade e o planeta unido por um sistema de transporte rapidíssimo e infalível. O crime é quase inexistente. Mas e se, de repente, surgisse um indivíduo com o verdadeiro poder de um deus (dar vida a objectos inanimados)? Não é a premissa que distingue este primeiro romance de Ada Palmer. A sua capacidade de análise social e a sua experiência com a história das ideias tornam um aparentemente simples cenário de ficção científica num daqueles livros capazes de nos mudar a mente e a vida. A sério! É tão genial quanto isso.

“The fifth season”, de N. K. Jemisin
Não há por aí muitos livros a começar as suas histórias com o fim do mundo. O que começa por parecer uma fantasia de magia num planeta inventado, acaba por se transformar numa ficção científica sobre o futuro distante do planeta Terra. Com a sua origem num workshop para artistas promovido pela NASA, esta história junta geologia com “magia” de uma maneira absolutamente inusitada. O prémio Hugo que ganhou foi absolutamente merecido e tornou Jemisin numa das autoras mais proeminentes do seu campo.

“Prince Lestat and the Realms of Atlantis”, de Anne Rice
Ao décimo terceiro volume das Crónicas dos Vampiros (sim, Entrevista com o Vampiro já tem 40 anos!) não se esperaria grande coisa de uma série que em tempos se arrastou por volumes de encher chouriço, principalmente de um livro com um título tão artolas. Mas a verdade é que com o volume anterior, Prince Lestat, Rice arranjou maneira de renovar a série, voltando ao seu tema e personagens centrais e elevou bastante a fasquia. Neste mais recente volume a história estica-se das origens da Atlântida ao futuro próximo ao mesmo tempo que usa especulações da genética e bioquímica para explorar noções de identidade, de moral, do que é ser humano e da importância do amor. Sim, não faz por menos. Não se sai da maneira mais airosa mas também não envergonha e confirma que, de toda a vampirada que temos aturado nas últimas décadas, esta continua a ser a mais ousada, inventiva e relevante. Para quem já segue a série há muito tempo, vale a pena, sem dúvida.

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