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Cuidado com as utopias…

Texto: NUNO GALOPIM

Numa adaptação por Matthew Graham, o romance de 1953 de Arthur C. Clarke “Childhood’s End” chegou à televisão numa produção do SyFy Channel. O terceiro e último episódio é transmitido esta noite.

Num tempo em que muito do cinema fantástico vive subjugado a valores de pirotecnia digital e em que sobejas criações televisivas na área da ficção científica são de ostensiva pobreza franciscana tanto nas ideias como no departamento financeiro (não é condição necessária, mas um budget catita faz falta para criar algumas ideias visuais por vezes em jogo), é de destacar o surgimento de uma adaptação ao formato de minissérie (de três episódios) de Childhood’s End, um texto marcante na obra de Arthur C. Clarke que Stanley Kubrick ponderou até em filmar. Convenhamos que não ficámos nada mal servidos com o 2001: Odisseia no Espaço que ambos nos deram em 1968…

Se a expectativa era alta, já a série pode não responder em pleno à exploração mais profunda das questões que o livro lança e debate. E vale a pena lembrar que, em 1953, a apresentação de uma história sobre uma invasão alienígena aparentemente benigna, a construção de uma utopia (à conta da dissolução de diferenças políticas e da necessidade de haver religião) e o preço que na verdade no fim se paga era, no mínimo, uma ousadia visionária. O livro foi um sucesso retumbante (e foi o primeiro fenómeno de vendas do autor). E teve herdeiros vários em diversas expressões, entre as quais uma canção dos Pink Floyd precisamente com o título Childhood’s End (que podemos escutar no álbum de 1972 Obscured by Clouds) ou a referência evidente em Childlike Faith in Childhood’s End dos Van der Graaf Generator (do álbum de 1975 Still Life).


O livro de Arthur C. Clarke


“Childhood’s End”, dos Pink Floyd

A série, apresentada como uma aposta de revitalização (na imagem e produção) do Syfy Channel, parte do texto de Arthur C. Clarke, respeita muitas das suas principais linhas narrativas, ajusta de certa forma contas com as sequências de “chegada” de O Dia da Independência (hipótese que foi discutida online e que é observação que faz sentido) e transfere a ação dos anos 50 para o presente, evitando por um lado a criação de ficção científica de época, por outro permitindo estabelecer patamares de mais direto relacionamento dos espectadores com as personagens, cenários e trama. Nada de novo neste último capítulo, e basta recordar o historial das várias adaptações (e são muitas) de A Guerra dos Mundos de H.G. Wells para reparar que raras são aquelas que mantiveram a narrativa na Inglaterra vitoriana. Uma das mais evidentes entre estas “mudanças” e a escolha de um agriucultor do Minnesota (interpretado por Mike Vogel) como interlocutor dos alienígenas, figura que no livro cabia ao Secretário Geral das Nações Unidas. Traduzirá esta mudança uma visão algo cética da instituição, um pouco na linha de comentários recentes do presidente-eleito Trump?

A série concentrou no primeiro episódio os seus trunfos visuais, construindo esse primeiro capítulo como uma contagem decrescente para a revelação física de Karellen, o “Supervisor” que os alienígenas nomearam para a Terra. A sua aparência, semelhante ao que a iconografia cristã definiu ao longo dos séculos como a figura do Diabo carrega um sabor amargo e doce no momento da sua exposição. E lança o passo seguinte, num segundo episódio em que seguimos as implicações do programa de normalização da vida na Terra que implica mudanças substanciais em várias frentes, da exploração científica à religião. E é aqui que fica claro como, mesmo sob um tratamento com pinças de algumas das ideias estruturais do livro, a sua adaptação não consegue de todo refletir a complexidade dos valores e situações que Arthur C. Clarke lançara no livro.

A sequência de abertura do primeiro episódio, deixa-nos desde logo preparados para um fim trágico. O último humano despede-se numa mensagem que um pequeno robot parece estar a registar. Fala em nome da sua espécie. A nossa. E pede que não se esqueçam de nós. Num tempo de tantas incertezas e valores sob risco um texto como este, de Arthur C. Clarke, não podia ser mais urgente. Porque as promessas de utopias poderão não vir de fora, mas antes de nós mesmos. Mas com um desfecho igualmente perturbante.

O último episódio de “Childhood’s End” passa hoje à noite, pelas 22.10 horas, no SyFy Channel

A tradução para português deste livro surgiu, como ‘A Idade do Ouro’, num lançamento pela Livros do Brasil na coleção Argonauta Publicado na Colecção Argonauta em 1955 com capa desenhada por Cândido Costa Pinto. A tradução era de Carlos Vieira.

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