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Uma pérola visionária da pop do início do século XXI

Editado em 2008, mas entretanto quase esquecido pela voragem do tempo, o álbum “Everything/Everything”, de Simon Bookish, é peça que vale a pena lembrar entre os episódios mais estimulantes que a canção pop viveu na primeira década do século XXI.

São geralmente interessantes as histórias de músicos que começam a projetar um futuro na música “erudita” mas que acabam rendidos ao apelo irresistível da canção pop… Exemplos? Tantos, de um Kelley Polar a um Arthur Russell, de um John Cale à dupla Hutter/Schneider (Kraftwerk)… Leo Chadburn é mais um exemplo a ter em conta. Formado na inglesa Guildhall School Of Music and Drama, desenvolve há já alguns anos um trabalho de composição, com resultados frequentemente apresentados em galerias, palcos da “alta cultura” e museus. A curiosidade (e o gosto) pela pop levou-o a criar um alter-ego. Chamou-lhe Simon Bookish e com este nome editou um álbum em 2006 e um outro em 2007, assinou remisturas para figuras como os Franz Ferdinand ou Grizzly Bear e colaborou com Patrick Wolf ou os St Etienne. Depois de dois discos essencialmente construídos com o auxílio de um laptop, o seu terceiro, editado em 2008, apresentava um espantoso ciclo de canções para metais, piano, harpa e órgão.

Everything/Everything, como os dois álbuns anteriores, revelava o prazer da construção de canções em volta de um conceito não apenas definido pelas opções de composição e instrumentação, mas também fiel a uma sugestão temática. Os universos da ciência e da informação (na idade do excesso de informação) são pontos de partida e destinos para canções que não escondem um confesso gosto pela pop, pelos minimalistas norte-americanos e os modernistas europeus.

As canções, onde a surpresa muitas vezes rompe modelos e foge a padrões vulgares, fazem bom uso da instrumentação convocada e acolhem que nem uma luva a sua voz de travo crooner. O primeiro álbum de Simon Bookish para a Tomlab pode juntar-se ao relativamente contemporâneo He Poos Clouds, do projecto Final Fantasy de Owen Pallett, sugerindo mais uma importante contribuição para a recriação, na idade da cultura pop, da noção de ciclo de canções herdada do século XIX. Como no álbum de Final Fantasy não somos aqui confrontados com uma mera colecção de elegantes canções, acolhidas sobre o chapéu de um título comum. Há uma noção de corpo a uni-las, da temática aos arranjos, servindo nas entrelinhas um peculiar sentido de humor.

The Flood convida a entrar. Dumb Terminal arrebata e semeia ainda mais curiosidade… E o resto alinhamento não desilude. Na verdade poucos discos sabem alimentar o prazer da descoberta como Everything/Everything. E assim surgia um dos mais inesperados “casos” de 2008. Que convém não deixar perdido no esquecimento.

O álbum “Everything/Everything” foi editado em 2008 pela Tomlab, que tinha então Flur

E aqui podem recordar a versão integral de uma entrevista publicada no DN que Leo Chadburn (ou seja, Simon Bookish) me concedeu precisamente por alturas do lançamento deste álbum e numa altura em que se apresentou ao vivo em Portugal.

Antes de fazer discos estudou música. Imaginava para si um futuro na música clássica?
Creio que sim. Eu estudei composição. Sempre me interessei por música em geral, mais do que um género em específico. Gosto mais de pensar em fazer música não me ter de preocupar com questões de género… Ou sobre como a música é interpretada.

O que o fez querer ser compositor?
O que mais gosto é a música dos minimalistas americanos. Philip Glass, Steve Reich… Também me interessei muito por compositores experimentalistas ingleses como Cornelius Cardew. E toda aquela gente ligada à Scratch Orchestra. Também gosto de compositores modernistas europeus como Boulez, Stockhausen… Foram os meus primeiros amores…

Música do século XX, essencialmente…
Sem dúvida. Interesso-me por pessoas que podem ser descritas como músicos pop mas que pensam como compositores. Como, por exemplo Scott Walker, cujos concertos fui ver. Ele pensa o som. É sofisticado como os modernistas europeus. Não vejo diferença entre música feita para uma orquestra e para uma banda rock… O Andrew Poppy é um exemplo. Como o é o álbum Songs From Liquid Days de Philip Glass. Que tem essa fluidez entre géneros diferentes.

Phlilip Glass uma vez disse que havia quem dele gostava por ser pop e quem, por sua vez, também quem na sua música apreciava o facto de não ser pop…É como estar numa terra de ninguém. Parece ser um lugar onde hoje muita música acontece…
É completamente verdade. O que há de fantástico no presente é que há muitos músicos a trabalhar assim. Que não estão interessados em géneros, mas na música em geral. Sinto que sou um deles.

Sentiu que, de alguma forma, para agora trabalhar em música pop, teve de “desaprender” parte do que aprendeu?
Estive na Guildhall School for Music and Drama… Senti que havia coisas que teria, não exactamente de desaprender, mas talvez saber procurar a espontaneidade das coisas.

Porque sentiu a necessidade de criar uma personagem para a sua música pop?
Não sei porquê… A dada altura era uma personagem bem desenvolvida… Outra das coisas que me interessa é a noção de narrativa, e o contar de histórias. Gosto de criar ideias que têm a ver com personagens. Mas a ideia de criar uma personagem para mim não é assim tão clara. Por vezes nem sei o que é o Leo e o que é o Simon Bookish…

Como surgiu o nome? Gosta de livros?
Sim, gosto… A música que mais me interessa é aquela que liga os cérebros… Num plano mundano devo confessar que, na altura, estava a trabalhar numa biblioteca. A coisa até começou simples. Mas tornou-se complicada…

A personagem Simon Bookish, que criou, gosta de discutir assuntos tão diferentes quanto o uso da guilhotina ou os átomos de carbono…
Esses assuntos têm a ver comigo. Acho que a música tem um poder para transportar ideias interessantes.

Convenhamos que não é frequente falar-se de guilhotinas numa canção pop…
Há grandes canções sobre amor, relações e sexo. Mas eu não sinto que possa vir a acrescentar nada nesse sentido. Há outras coisas que posso expressar. Coisa mais inesperadas, talvez.

Porque abandonou a música mais electrónica dos dois primeiros álbuns para o terceiro disco? Everything/Everything está claramente mais próximo dos instrumentos que usamos numa orquestra.
Em termos de composição abordei-o até de uma forma mais próxima do jazz… Não em termos de som, contudo, nem de ritmo. Porque o fiz? Como diria um modernista não vejo um sentido em repetir o que já fiz. Não imagino vida mais aborrecida para um músico que aquela coisa de estar sempre a fazer o mesmo álbum. Depois, tenho a sorte de viver em Londres e de conhecer tantos músicos extraordinários. E basicamente queria envolve-los no disco. Nos dois primeiros álbuns, especialmente no segundo, trabalhei praticamente sozinho. Programei, escrevi, fiz a mistura.

Esse terceiro disco vive, portanto, do ato da colaboração.
Precisamente. Depois de um período solitário queria voltar a trabalhar com outros músicos. Há aqui uma combinação de aborrecimento com vontade de mudar…

O disco fê-lo regressar a coisas que estudou?
Fez, de facto. Tive de trabalhar muito para reaprender. Em algumas canções uso uma grande banda, com 17 partes… Tive de ir reencontrar o que sabia fazer enquanto compositor.

Usa títulos invulgares para os seus álbuns…
Não sei porquê. Talvez tenha a ver com o bibliotecário Gosto de coisas arrumadas, sistematizadas. Adoro listas, taxonomias…

Chamaria a este disco um ciclo de canções, como o são Songs From Liquid Days de Philip Glass ou mesmo He Poos Clouds, do projeto de Owen Pallett, Final Fantasy?
Bom, eu sou um pouco diferente de Owen. Respeito-o muito e tudo o que ele fez. Não se limita. Em Spectrum, 14th Century parece-me mais criativo do que nunca… O meu álbum não tem contudo uma linha de trabalho tão estruturada, tão definida. Como músico, de resto, gosto de criar regras para depois as transgredir. Se digo que vou fazer assim, essa ideia foca-nos num sentido interessante. Mas se depois dizemos, na verdade tenho de quebrar a regra, isso é desafiante. E é justificável. Este álbum nasce sob esse princípio. Sabia sobre que assuntos ia escrever. Ia ter uma canção sobre linguagem, uma sobre história, outra sobre geografia, outra sobre ciências da terra, outro sobre química… À medida que estava a escrever, as regras foram-se quebrando… Um ciclo de canções? Isso já não sei…

Sente que caíram de vez as barreiras que em tempos separaram a cultura pop de músicos com escola clássica. Podemos juntar ao seu caso nomes como os de Kelley Polar ou Owen Pallett, entre outros mais…
Uma das coisas que esperava alcançar com este disco era o refletir sobre a forma como não podemos fugir a toda a informação que hoje temos no mundo à nossa volta. É impossível que haja um músico na área da clássica que nunca tenha ouvido música pop. Assim como é impossível haver um músico pop que não tenha tido a oportunidade de ouvir música clássica do século XX… É uma música que está por aí. Está disponível… Há de facto, hoje, vários músicos com um treino clássico a fazer música pop.

Chegou a trabalhar com Patrick Wolf, que a dada altura também sentiu a necessidade de estudar música…
Há algum tempo. Somos amigos… Fiz trabalho no seu primeiro álbum… Desde o principio ele estava a ouvir música clássica e pop ao mesmo tempo. Não é uma atitude artificial. É natural. É, apenas, música!

Que artistas o levaram a querer fazer música pop?
É difícil… Quando saí da universidade estava a trabalhar em peças bastante elaboradas, para orquestra. Eram difíceis de tocar… E era difícil arranjar quem as tocasse. Uma das razões porque criei a personagem de Simon Bookish foi para poder tocar eu mesmo a minha música. O mais imediato a fazer era cantá-la… Não foi uma opção para fazer música pop. Foi mais para fazer música que eu mesmo pudesse tocar. E aconteceu que dei por mim a fazer música pop…

Quem admira na música pop?
David Bowie é um artista infinitamente fascinante para mim. Gosto da forma como é incansável… O seu trabalho no final dos anos 70 tornou-se muito importante… Aquilo já não era bem música pop… São esses os artistas que me interessam. Tal como Scott Walker. Artistas que procuram ir em frente, que desbravam terreno. Como Laurie Anderson…

Trabalhou com bandas como os Franz Ferdinand ou St Etienne. Como recorda essas experiências?
Diferentes a todos os momentos. Os St Etienne tinham um conhecimento tão grande sobre música! É interessante trabalhar com pessoas como eles, que estão sempre abertos a experimentar novas ideias a todo o momento. Os Franz Ferdinand fazem, por sua vez. uma abordagem muito interessante ao sentido que a música deve ter. Tive a sorte de trabalhar com grandes músicos pop. Inteligentes. Assim como já aconteceu com músicos de jazz…

Como nasceu a ideia para a capa do álbum Everything/Everything?
A capa tem a intenção de gerar uma ambiguidade… Creio que resulta… E a foto reflete um pouco sobre o conhecimento… E há um mundo negro que fica para trás… Pode ser uma ideia do mundo em perigo. Ou algo mais misterioso…

No fundo, enquadra-se no espetro de temas sobre os quais reflecte nas canções… Traduzem as suas preocupações atuais?
Interessa-me o que está acontecer globalmente pelo mundo. Preocupam-me as questões ambientais. Interessa-me o que há de novo na ciência e nas artes.

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