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Os meus livros de 2016, por Nuno Galopim

Texto: NUNO GALOPIM

Entre as escolhas de banda desenhada, livros sobre música, ensaios e a ficção científica aqui fica uma mão-cheia de títulos que fizeram as minhas melhores leituras (em livro) de 2016.

O que pode fazer com que, no mundo de hoje, no qual não há quem vire a esquina sem ver se chegou nova mensagem ao smartphone, possa existir quem escolha, por firme vontade e convicção, precisamente o oposto? O silêncio? Não como ermita, longe de tudo e de todos, não num retiro temporário, mas fazendo o dia a dia num mosteiro, repetindo gestos e rotinas com uma precisão que parece criada por “um Deus sem imaginação”, como aqui lemos. O silêncio… É essa a premissa central de Um Bruit Étrange et Beau, do suíço Zep, um dos títulos mais arrebatadores que o universo da banda desenhada nos deu a ler este ano e que, aceitando a sugestão do protagonista, reduz por vezes os diálogos ao necessário, deixando algumas pranchas e olhares em… silêncio. Porque, tal como nos diz William, que desde que está ali a viver em reclusão responde como Don Marcus, há uma ocasião em que podem sair do mosteiro, caminhar entre as montanhas e até mesmo falar… Mas como se habituaram ao silêncio, quase vivem aqueles momentos comunicando por olhares, sem a necessidade de verbalizar o que observam, o que sentem.

Fascinado pela ideia de uma proximidade com o silêncio, um dos votos tomados pelo monge que nos apresenta como o protagonista, Zep – de seu nome real Philippe Chappuis, de 48 anos – começou por pensar traçar aqui uma história de uma vida fechada entre homens e que, por um motivo de exigência maior (a leitura de um testamento de uma familiar que exige a presença de todos os herdeiros) o obriga a deixar o mosteiro de onde não sai desde que ali entrou há mais de 20 anos. O contraste entre o espaço e rotinas da vida em clausura (na qual confessa que não sabe nem quer saber como são os jardins dos seus irmãos, já que cada monge tem um em frente da respetiva cela) iluminam as cores de uma história que vive entre o reencontro de memórias (os odores, os ruídos, os movimentos, os familiares) e a descoberta de uma passageira que conhece no comboio e que, com uma doença que aparentemente a condena a uma vida curta, o intriga e o obriga a um confronto com as suas opções (e não faltam flashbacks para contextualizar traços da juventude do monge e do destino que escolhe, ao qual a tia, uma aristocrata rica, critica como sendo uma fuga a um mundo que lhe mete medo).

Para preparar o livro, Zep tentou entrar no fechado universo do mosteiro de La Valsainte (no cantão de Friburgo, na Suíça), um lugar isolado no meio das montanhas, entre uma paisagem tão bela como capaz de impor respeito. Foi-lhe recusada a entrada, pelo que não teve como senão de o estudar por fora… Nas páginas entramos neste universo fechado, onde havia cerca de 70 padres e monges no início do século XX e, hoje, como diz o livro, não são ali senão 9 os habitantes. O silêncio, como conta o protagonista, leva tempo a dominar. É um pouco como o ato de fazer a lida da casa, explica à jovem parisiense que conhece… É preciso limpar da vida tudo o que faz ruído. Ele mesmo confessa que ainda não o atingiu. Mas Zep, neste livro, mesmo não fazendo silêncio, consegue afastar do traço e das palavras todo o eventual ruído que causasse distração, optando por um registo de desarmante simplicidade. E dá-nos uma das experiências de leitura de BD mais assombrosas dos últimos tempos. Uma graphic novel, se quisermos usar o termo da moda… Embora com páginas com a dimensão das de um álbum clássico de BD, e espantosa impressão a cores em papel de gramagem superior ao habitual.

O livro de Zep foi a melhor surpresa de um ano cheio de magníficas edições de BD, entre as quais figuram interessantes lançamentos feitos entre nós, entre alguns deles estando a chegar assim às livrarias portuguesas o que de melhor se está a fazer neste momento na nona arte espanhola.

À lista das dez bandas desenhadas de 2016 segue-se uma com cinco livros sobre música, da qual se destacam o texto bem pessoal (e bem interessante) de Paul Morley sobre Bowie e a cativante autobiografia de Bruce Springsteen.

Do que li de não-ficção para lá da música há que assinalar o magnífico catálogo da exposição dedicada a Hergé no Grand Palais (Paris), a reedição da viagem de Steinbeck pelas estradas americanas em 1960 e um interessante retrato sobre a génese do programa space shuttle e a história do primeiro voo (em Into the Black).

Na ficção-científica (que domina por aqui as leituras de ficção) há que assinalar um momento maior na história recente do género entre nós: a edição (numa versão “redux”) do clássico Terrarium de João Barreiros e Luís Filipe Silva. Da história FC de 2016 vale a pena notar as reedições de títulos de autores como Philip K. Dick ou Frank Herbert entre nós.

Fora da FC, da ficção (não científica) que li em 2016 guardo boa impressão dos livros Onde Todos Observam de Megan Bradbury (afinal ainda é possível encontrar novas formas para contar histórias de Nova Iorque), A Denúncia de Bandi (narrativas que nos levam a episódios perturbantes com sede na Coreia do Norte) ou 2084 – O Fim do Mundo de Boualem Sansal (uma distopia que imagina uma teocracia num estado islâmico que herda muito das assombrações do 1984 de Orwell).

Mas comecemos pela BD…

Dez livros de banda desenhada

1. “Um Bruit Etrange et Beau”, de Zep (Rue de Sèvres)
2. “A Casa”, de Paco Roca (Levoir)
3. “Berlin 2.0”, de Alberto Madrigal e Mathilde Ramadier (Futuropolis)
4. “Les Voyages d’Ulysse”, de Emmanuel Lepage e Sophie Michel (Daniel Maghen)
5. “Eu, Assassino”, de Antonio Altarriba e Keko (Arte de Autor)
6. “Presas Fáceis”, de Miguelanxo Prado (Levoir)
7. “Trees – Volume 2”, de Warren Ellis e Jason Howard (Image Comics)
8. “Democracia”, de Alecos Papadatos e Abraham Kawa (Bertrand)
9. “S’enfuir: Recit d’um Hotage”, de Guy Desilse (Dargaud)
10. “Vampiros”, de Filipe Melo e Juan Cavia (Tinta da China)

Cinco livros sobre música

1. “The Age of Bowie – How David Bowie Made a World of a Difference”, de Paul Morley (Simon & Schuster)
2. “Born to Run”, de Bruce Springsteen (Elsinore)
3. “What Happened Miss Simone?”, de Alan Light (Canongate Books)
4. “M Train” de Patti Smith (Quetzal)
5. “The Complete David Bowie”, de Nicholas Pegg (Titan Books)

Cinco livros de não-ficção

1. “Hergé” (catálogo da exposição no Grand Palais), por vários autores (RMN)
2. “Viagens Com Charley”, de John Steinbeck (Livros do Brasil)
3. “Into The Black”, de Rowland White (Bantam Press)
4. “Extremo Ocidental” de Paulo Moura (Elsinore)
5. “À Beira do Abismo”, de Ian Kershaw (D. Quixote)

Cinco livros de ficção-científica

1 “Terrarium”, de João Barreiros e Luís Filipe Silva (Saída de Emergência)
2 “Aurora”, de Kim Stanley Robinson (Orbit)
3 “Central Station”, de Lavie Tidhar (Tachyon Publications)
4 “O Homem do Castelo Alto”, de Philip K. Dick (Relógio d’Água)
5 “Duna”, de Frank Herbert (Saída de Emergência)

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