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“The Doors”: a porta abriu-se há meio século

Texto: NUNO GALOPIM

Passam hoje 50 anos sobre o dia da edição do álbum de estreia dos Doors, no qual se revelavam canções como “Light My Fire”, “The End” ou “The Crystal Ship” e uma abordagem inesperada à obra de Kurt Weill. Surgia assim o primeiro dos clássicos da “classe de 67”.

O ano que ficaria na história da música popular pelas contribuições significativas de inúmeros nomes que ousaram transgredir as fronteiras das formas e dos timbres mais frequentes até então em terreno pop/rock abriu, logo em janeiro, com um dos álbuns que figura entre os mais marcantes e consequentes desses intensos 12 meses de edições e visões. Anunciado três dias antes (ou seja, logo a 1 de janeiro) pelo single Break on Through (to the other side), que abria o alinhamento do lado A, o disco anunciava uma banda que nascera em Los Angeles em 1965 e que tomara como nome uma expressão de uma frase (que alude ao título) do livro The Doors Of Perception, de Aldous Huxley, um texto de referência da contracultura de então, no qual o autor – o mesmo de O Admirável Mundo Novo – relatava e refletia sobre as suas experiências alucinogénicas depois de tomar mescalina.

O álbum, gravado sob engenhosa abordagem às limitações da mesa de quatro pistas do estúdio em Hollywood onde foi registado, durante seis dias, em finais de agosto de 1966. A visão das composições, que mostravam vontade em olhar para lá dos modelos mais clássicos da canção pop/rock, frequentemente ultrapassando a duração mais “amigável” para os programadores de rádio, o caráter igualmente invulgar de arranjos que revelavam já uma presença com assinatura muito característica dos teclados de Ray Manzarek, a voz de caráter teatral de Jim Morrisson e as palavras pungentes da sua poesia eram elementos em cena que estavam a escrever uma história nas suas atuações ao vivo mas que o disco fixa com engenho. The Doors nasce então do diálogo entre a visão destes argumentos criativos e a visão de um trabalho incisivo em estúdio (conduzido por Paul A. Rotschild), que contrasta com com hábitos – mais caros – que tinham começado a ganhar forma em longas temporadas de exploração que então começavam a caracterizar muitas outras gravações de álbuns.

O disco materializa de certa forma a ideia, entretanto mitificada, das visões na sua mente de um concerto rock’n’roll de que Jim Morrission falara nas suas primeiras converas com Ray Manzarek quando eram apenas ainda colegas de universidade. O disco abre horizontes e revela ousadias na hora de convocar referências. E se ao incluir uma versão de Back Door Man (de Willie Dixon e imortalizada por Howlin’ Wolf) assinalava uma inscrição identitária da banda como herdeiros dos blues, ao registar uma mais inesperada versão de Alabama Song (extraída da Ópera dos Três Vinténs) de Kurt Weill e Bertilt Brecht, assinala um derrubar de muros entre a tradição “clássica” e a cultura pop/rock que assinala um importante momento de alargamento de horizontes que a música popular então vive intensamente. O épico (e muito teatral) The End, um dos temas centrais do disco, representa de certa forma a fixação em áudio de uma experiência ao vivo que traduz a busca de uma expressão dramática que traduz mais um episódio marcante na história das relações da música com as artes do palco. Já The Crystal Ship é um exemplo de precisão e concisão na escrita e revela uma das mais belas criações de toda a obra poética e musical dos Doors.

Não tendo cativado atenções, o single Break on Through (to the other side) foi obrigado a ter um sucessor extraído do alinhamento do álbum. É então escolhido Light My Fire que, para a versão single, é despido do longo instrumental que surge a meio. Em compensação o tema dá-lhes o número um nos EUA e uma porta para a sua grande visibilidade.


“Break on Through (to the other side)”, filme promocional de 1966


“Light My Fire” em atuação no programa de Ed Sullivan

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3 Comments on “The Doors”: a porta abriu-se há meio século

  1. Boa noite
    Gostaria de saber se pode ajudar a obter uma informação sobre a reportagem no telejornal da RTP1 do dia 04/01/2017 com o nome” Disco “The Doors” foi lançado há 50 anos”
    Nessa reportagem durante o primeiro minuto e no segundo 34 o Jim Morrison interpreta um trecho musical que gostaria de saber o nome e de que album faz parte. Se for possivel ajudar com a informação ficarei muito grato.
    http://www.rtp.pt/noticias/cultura/disco-the-doors-foi-lancado-ha-50-anos_v973612

    Cumprimentos
    Carlos Botelho

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  2. Ao segundo 34 ouve-se o “Light My Fire”, do álbum “The Doors” (1967)

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