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Um silêncio sem inocentes

Texto: NUNO GALOPIM

Chega ao DVD o filme sobre Miles Davis que assinalou a estreia de Don Cheadle na realização. Um dos seus feitos maiores foi a reunião, numa cena de palco, de dois dos mais notáveis antigos colaboradores do músico: Herbie Hancock e Wayne Shorter.

Apesar de uma certa concentração de atenções noutras épocas em histórias de grandes compositores de outros séculos e de propostas mais recentes em narrativas vindas de terrenos vários da música popular, o universo do jazz tem também já uma importante filmografia neste departamento. E desde o vestir da pele do grande chefe de orquestra por James Stewart em The Glenn Miller Story (Anthony Mann, 1954) ou do retrato, por Diana Ross, de Billie Hollyday em Lady Sings The Blues (Sidney J. Furie, 1972) às evocações de Charlie Parker ou de Chet Baker, respetivamete assinadas por Clint Eastwood em Bird (1988) e Robert Budreau em Born to Blue (2015), com Ethan Hawke no papel protagonista, este é um universo em construção que pode estar a começar a viver um novo fôlego. Se na frente da produção documental há que assinalar o brilhantismo do recente What Happened Miss Simone?, de Liz Garbus e, no espaço da ficção, veremos em breve um biopic sobre o guitarrista Django Reindhardt, da história dos filmes sobre música que deram que falar nos últimos tempos há que assinalar o surpreendente Miles Ahead, que não só assinalou a estreia de Don Cheadle na realização como conseguiu o efeito de juntar as presenças de Herbie Hancock e Wayne Shorter, velhos colaboradores da figura que aqui se evoca, numa sequência de palco na qual surgem ainda em cena Esperanza Spalding ou Gary Clark Jr.

Sem procurar fazer o era uma vez de fio a pavio da vida de Miles Davis, Miles Ahead foca atenções na reta final do hiato que viveu na segunda metade dos anos 70, assombrado pelas dúvidas sobre o futuro da sua música, o que traduzia entre outras realidades) o diferente choque que as suas visões tinha causado entre os universos do jazz e da cultura pop/rock. O argumento (co-assinado por Cheadle) usa a figura de um jornalista como presença intrusa através da qual damos por nós dentro do mundo (então fechado) de Miles Davis. Ao contrário do jornalista protagonizado por Christian Bale em Velvet Goldmine (um antigo fã que parte em busca do paradeiro desconhecido de um velho herói), aquele que Ewan McGregor (cujo corte de cabelo curiosamente se assemelha visualmente ao do Kurt Wild que ele mesmo veste nesse filme de Todd Haynes) aqui protagoniza é um fura-vidas. Que tenta o “furo” de entrevistar aquele que não dá entrevistas. Que tenta “roubar-lhe” fitas com gravações que Miles não quer em disco. E que acaba seu parceiro numa trama que ganha vitaminas de ação entre os escritórios da editora, clubes de jazz, ringues de boxe e um elenco onde não faltam outros espertalhões com mais ouvidos pelo tilintar dos dólares do que pelas notas do trompete.

Através de flashbacks o filme acrescenta elementos ao perfil do protagonista, explorando sobretudo memórias da relação tumultuosa com Frances Davis, ex-mulher do músico (que conhecemos na capa de Someday My Prince Will Come).

A presença igualmente não linear das referências musicais, que passa por álbuns como Kind of Blue (1959), Someday My Prince Will Come (1961), Bitches Brew (1970), Agharta (1975) ou We Want Miles (1981), em alguns casos mostrando as respetivas capas, junta elementos que cabe depois ao espectador arrumar, tal e qual os fragmentos de elementos biográficos que cruzam a trama onde o ambiente de impasse (eventualmente real) se dilui, sem que demos pelo lugar de fronteira, com a trama de ficção que ali se desenha.

Sem outros argumentos de “peso estelar” de outras aventuras em terreno biopic, além dos dois protagonistas e da memória do biografado, Miles Ahead não teve talvez a visibilidade que merecia. Não traduz, cinematograficamentre, a ideia de “miles ahead” (ou seja, a milhas de distância) com quem por exemplo, o já aqui citado Todd Haynes evocou Bob Dylan em I’m Not There. Mas faz substancialmente mais pelo jazz do que aquela farsa ruidosa que Damien Chazelle apresentou em Whiplash.

“Miles Ahead”, de Don Cheadle, está editado em DVD numa edição da NOS Audiovisuais e disponível nas plataformas de VOD.

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