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Bowie (para ler em português)

Texto: NUNO GALOPIM

No dia em que se assinala a passagem de 70 anos sobre o nascimento de David Bowie, fica a referência a dois títulos sobre o músico que, nos últimos meses, chegaram às livrarias em traduções portuguesas.

Rob Sheffield recebeu uma mensagem de um amigo já pela madrugada dentro. “Já viste as notícias?”… Raramente é coisa boa quando assim chega a novidade… Assim era, uma vez mais. Ficou a noite a escrever, publicando nessa manhã, no site da Rolling Stone (na qual é editor), um texto que era mais do que um mero obituário. Era uma homenagem de toda uma vida de partilhas, que tinham as canções no principio de tudo, mas que depois abriam horizontes. Interrompeu logo depois o projeto maior de escrita que tinha em mãos e, em cerca de um mês, tinha pronto um livro. Não se tratava exatamente de uma biografia, até porque já há que cheguem por aí e, nesse departamento, só falta mesmo quem, como Mark Lewisohn está a fazer com os Beatles, redija um texto de fôlego maior e definitivo sobre a vida de David Bowie.

On Bowie revelava algo diferente: uma história de um relacionamento pessoal. Algo que, também com este mesmo ícone maior como sujeito, o jornalista britânico Paul Moreley viria a fazer em The Age od Bowie (sobre o qual escrevi aqui) também nos propunha. Entre ambos acabaria por se desenhar um par interessante de ler em conjunto já que, os pontos de vista europeus de Morley e americanos de Sheffield acabam por sugerir as presenças de contextos diferentes no modo como Bowie entrou no mundo ao redor de cada um destes dois jornalistas. Mas é na expressão mais íntima da presença da música de Bowie, das suas imagens e ideias, na vida de cada um que vive o percurso que, mesmo a data altura cronologicamente arrumado, acaba por expressar tanto o impacte que uma obra pode ter numa cultura e sociedade, mas também como vai afetando aquele que, com ela, cresce, se descobre e vai envelhecendo.

Publicado entre nós com o título Sobre Bowie (numa tradução de Lia Pereira), o livro cruza os anos de vida de Bowie sem temer expressar uma opinião negativa na relação do autor com este ou aquele disco, esta ou aquela opção. Não há unanimidades… E a vida é mesmo assim.

Mais do que um repositório de informação – e para isso temos já aí a versão mais atualizada (incluindo as edições mais recentes) da incomparável enciclopédia The Complete David Bowie (Revised and Updated 2016 Edition) de Nicholas Pegg – Sobre Bowie é um percurso reflexivo que prefere explicar as várias faces de Bowie e o modo como o tempo as moldou e, por sua vez, cada uma delas causou impacte e descendências. Ao invés do livro de Morley – que opta por concentrar o gume da sua atenção nos feitos dos anos 70, sem por isso deixar depois de falar do que ocorreu antes e do que sucedeu entre Scary Monsters e BlackstarSobre Bowie doseia mais equitativamente as suas memórias pelos vários períodos. E guarda (merecida) atenção para com a obra que Bowie registou depois de dez anos de quase total silêncio. E não tenhamos dúvidas de que The Next Day (2013) e Blackstar (2016) são peças a considerar entre o melhor da sua discografia.

Além de Sobre Bowie um outro livro chegou aos escaparates portugueses em 2016. O texto data de 2014, ou seja, antecede até mesmo o conhecimento que o próprio músico teria da doença, e apresenta-se num prisma completamente diferente. Bowie – Uma Biografia Sentimental (traduzido por Eurico Monchique), é assinado por Wendy Leigh, autora que desapareceu no ano passado, aos 65 anos. Era colaboradora regular do Daily Mail e tinha já publicado livros sobre figuras como Grace Kelley ou Arnold Schwarzenegger e colaborado na escrita do livro My Life With My Sister Madonna, da autroria de Christopher Ciccone, o irmão da cantora.

O olhar de Wendy Leigh não evita a obra, os discos ou os filmes. Mas é na vida íntima, sentimental, que alicerça o discurso. Procurando mostrar como o ser pessoal é aquele que depois se expressa na arte que nos dá a conhecer. Como, por exemplo, quando relata os momentos em que, em Berlim, conheceu Romy Haag e o seu número de travesti que invariavelmente terminava com uma mão a arrancar a peruca da cabeça e a outra a esborratar a pintura da cara, num gesto que ele mesmo repetiria no teledisco de Boys Keep Swinging.

Entre muitos casos de alcova há por vezes interessantes dados sobre o plano menos mediatizado do relacionamento de Bowie com algumas outras figuras. Sobretudo o filho, Zowie (hoje conhecido como o realizador de cinema Duncan Jones), a quem Bowie terá ensinado a desenhar storyboards, escrever argumentos e preparar elementos sobre a iluminação a usar em cinema, dados técnicos que seriam aplicados em primeiros filmes de animação que então fez com os seus bonecos dos Estrumpfes. O livro revela ainda que, em finais dos anos 70, Zowie acompanhava o pai em digressão, ficando nos bastidores durante os concertos, entregue ao que trazia numa caixa azul na qual levava os bonecos, os storyboards e os seus argumentos.

“Sobre Bowie”, de Rob Sheffield (tradução de Lia Pereira), é uma edição de 238 páginas da Vogais

“Bowie – Uma Biografia Sentimental”, de Wendy Leigh (tradução de Eurico Monchique), é uma edição de 300 páginas da Esfera dos Livros

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